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Full text of "Espadas e rosas"

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ESPADAS E ROSAS 




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CAtXA POSTAL 899 

yiltPHOKf. CENTlAi TH. 

BIO DE JASTBT&i 



OBRAS DE JÚLIO DANTAS 



POESIA 

Valada (1896) — 2.» edição. 
Sonetos (1916) — 2. a edição. 

PROSA 

Outros tempos (1909) — 2.* edição. 

Estática e dinâmica da fisionomia (1909) — 2.» edição. 

Figuras de ontem e de hoje (1914) — 2.* edição. 

Tatria Portuguesa (1914) — 3. 1 edição. 

QAo ouvido de M.™e X (191 5) — 3.* edição. 

O amor em Portugal no século AT/// (1915) — 2.* edição. 

oMulheres (1916) — 2.» edição. 

Eles e Elas (1918) — 2.» eáição. 

Espadas e c P\psas (191 9). 

TEATRO 

O que morreu de amor (1899) — 4.* edição. 

"Viriato Trágico (1900) — 2.* edição. 

A Severa (1901) — 3.* edição. 

Crucificados (1902) — 2.» edição. 

Ceia dos Cardeais (1902) — 22/ edição. 

D. Beltrão de Figueirôa (1902) — 3.* edição. 

Paço de Veiros (1903) — 2.* edição. 

Um serão nas Laranjeiras (1904) —3.» edição. 

liei Lear (1906). 

^Rosas de todo o ano (1907) — 7.» edição. 

cMater Dolorosa (1908) — 4.» edição. 

Santa Inquisição (1910) — 2. a edição. 

Primeiro Beijo (191 1) — 3.* edição. 

D. Ramon de Capichuela (1912) — 2. 1 edição. 

O c Reposteiro Verde (1912) — 2." edição. 

1023 ( 1914). 

Soror çMariana (1915) — 2.» edição. 

Carlota Joaquina (19 19). 

A data indicada para cada obra c a da sua primeira edição. 



JÚLIO DANTAS 

Sócio efectivo da Academia das Sciências de Lisboa 
Da Academia Brasileira 



Espadas e Rosas 



I. MILHAR 



—><£&<■ 




LISBOA 

PORTUGAL-RRASIL LIMITADA 

SOCIEDADE EDITORA 
58, RUA GARRETT, 6o 

RIO DE JANEIRO 

COMPANHIA EDITORA AMERICANA 

LIVRARIA FRANCISCO ALVES 



Reservados todos os direitos de reproduçfio: 
em Portugal, conforme preceituam as dispo- 
sições do Código Civil Portugue\ ; no Bra- 
zil, nos termo» do convénio de 9 de setem- 
bro de 1889 e lei n.* 3.577 d « '7 <* e Janeiro 
de 191 2; nos paizes convencionados, em 
harmonia com a Conferencia de Berna, a 
que Portugal aderiu por decreto de 18 de 
março de 1911. 



Tip. do Anuário Comercial — Prsça dos Restauradores , 34 — Lisboa 



AO EMINENTE JORNALISTA 



DR. EDMUNDO BITTENCOURT 



Digitized by the Internet Archive 

in 2009 with funding from 

University of Toronto 



http://www.archive.org/details/espadaserosasOOdant 



A «BLAGUE» DE GIL POMPEIA 



Fomos tomar o café para a sala de fumar. 
O quinteto tocou o Manfredo, de Schumann. 
A Viscondessa de ***, loira e friorenta, que 
jantara com o regalo no colo, e cujas mãos 
finas, quasi espirituais, lembravam certos 
retratos de Reynolds, falou da guerra, do 
horror dos torpedeamentos, da crueldade dos 
raids sobre Londres, e perguntou, indigna- 
da, se ainda haveria alguém que tivesse a 
impassibilidade de nervos suficiente para 
poder ouvir música alemã. O dr. Gil Pompeia, 
que a olhava sorrindo, a fita do monóculo 
entre os dedos, uma orquídea vermelha san- 
grando na banda de seda da casaca, deixou-a 
falar, admirou um instante, em silencio, os 
caracóis fulvos, Buster Brown, que lhe es- 
condiam a concha cor de rosa das orelhas, e 
acabou por lhe dizer, com a maior naturali- 
dade do mundo: 



8 ESPADAS E ROSAS 

— Mas, se a guerra continuo, minha se- 
nhora, é porque v. ex. a quer. 

-Eu? 

— Quando digo a Viscondessa, quero dizer 
todas as mulheres. Se a guerra ainda não 
terminou, foi porque vv. ex. a8 não quizeram. 

— Mas que força temos nós para a evitar? 

— Vv. ex. as ? Teem a maior, a mais es- 
pantosa, a mais formidável de todas as for- 
ças, minha amiga! 

-Qual? 

— A força da sua fraqueza. 

Olhámos todos, interrogativamente, a face 
rosada, o sorriso paradoxal de Gil Pompeia. 
Os criados vieram servir o café. Pela sala, 
um Império-Groult moderno, verde-rã e 
oiro, espalhou-se o fumo dos primeiros ci- 
garros. Imperturbável, brincando distraida- 
mente com um cinzeiro de Delft, o dr. Pom- 
peia continuou: 

— No dia em que todas as mulheres se 
entenderem, a guerra terá tocado o seu fim. 
O que é preciso para que as mulheres se 
entendam ? Não serem mulheres, — dirá 
v. ex. a . Mas v. ex. a há de permitir-me que a 
não acompanhe no domínio da blague. A Eva 
moderna precisa, antes de tudo, de estabele- 
cer um acordo feminino internacional. Pre- 
cisa de organizar a associação universal das 



A «BLAGUE» DE GIL POMPEIA 

mulheres. Precisa, numa palavra, — de sin- 
dicalizar a beleza. Responder-me-há v. ex. a 
que não ó fácil ; que não existe o espírito- 
de-sexo como existe o espírito-de-classe; que 
não é de esperar que dezenas de milhões de 
mulheres estejam de acordo, quando duas 
mulheres juntas nunca se entenderam; e, 
tinalmente, dir-me-hâ v. ex. a , senhora Vis- 
condessa, com o mais encantador dos seus 
sorrisos, que à mulher nunca foi agradável 
associar-se senão com o homem. Mas eu 
contesto. Que foi, há três anos, o movimento 
sufragista de Londres? Que foram os comí- 
cios de Hyde Park, os arsenais de bombas 
de Notting Hall, as sociedades secretas in- 
glesas destinadas á propaganda do feminis- 
mo pelo facto, o terror en dentelles que se 
seguiu ao malogro da proposta Dickinson, 
os acordos internacionais com as sufragistas 
alemãs, com as sufragistas yankees, com as 
feministas italianas da marquesa de Pelica- 
no, — senão expressões de uma vasta orga- 
nização, de um complot universal da mulher 
contra o seu inimigo adorado — o homem? 
Logo, nas mulheres existe espírito de soli- 
dariedade, capacidade de associação, e, por- 
tanto, o sindicato internacional da beleza 
seria, neste momento, uma coisa relativa- 
mente fácil de conseguir-se. 



10 ESPADAS E ROSAS 

— Mas, meu caro senhor, como poderia 
isso contribuir para o fim da guerra? — per- 
guntou, já interessada, a Viscondessa de • ••, 
acariciando, com os dedos tinos de deusa, a 
lontra macia do seu enorme regalo. 

— Muito simplesmente, minha amiga. Uma 
vez constituída, a união internacional dos 
sindicatos femininos decretaria a boycottage 
do homem e a greve geral do amor. Até que 
o sexo forte se resolvesse a terminar de uma 
vez para sempre a guerra no mundo, — o 
amor, fonte, gérmen, origem, alma resplan- 
decente da vida, desapareceria da face da 
terra. Vénus cruzaria os braços e velaria o 
seu corpo imortal. Nunca mais, no silêncio 
doirado de Veneza, onde até as pedras 
amam, se ouviria chilrear um beijo. Estan- 
caria, em todos os seios fecundos de mulher, 
o leite da ternura humana. Seria a esterili- 
dade, o desespero, a desolação. Perante este 
problema social, perante este problema de- 
mográfico, perante este problema (perdòe- 
me v. ex. a ) fisiológico, — que poderia fazer o 
homem? Render-se. Capitular. E o ílagelo 
da guerra acabaria. V. ex. a sorri-se. Consi- 
dera isto um absurdo, uma fantasia de eru- 
dito. E, entretanto, minha querida Viscon- 
dessa, a greve geral do amor é uma idéa tão 
velha, que tem vinte c cinco séculos de ida- 



A «BLAGUE» DE GIL POMPEIA 11 

de. Sabe quem primeiro a lançou? Aristopha- 
nes. Leia v. ex. a esse adorável, esse colorido 
fresco, que e a Lysistrata. Fatigadas dos 
horrores da guerra do Peloponeso, as mu- 
lheres de Atenas entenderam-se com as la- 
cedemónias, invadiram a Acrópole, proclama- 
ram um governo, decretaram que nem uma só 
mulher grega, emquanto durasse a guerra, se 
deixaria beijar ou possuir por um homem. 
E a paz fez-se. O que são, no seu péplos 
amarelo e nos seus socos doirados, as figu- 
ras maravilhosas de Myrrhina, de Lampito, 
de Calónice, pequenas Tanagras que o ódio 
ao homem fundiu em bronze, — senão gre- 
vistas do amor, precursoras do grande 
movimento pan-feminista que amanhã, se 
vv. ex. as todas quizessem, libertaria o mundo 
e traria a paz ? 

O dr. Gil Pompeia calou-se. As últimas 
notas da ouoerture de Schumann esvaíram- 
se no ar. Graciosamente, a Viscondessa re- 
costou-se no seu Récamier, cruzou a perna, 
e fazendo trepidar o pequeno pé nervoso 
calçado de seda preta, disse, sorrindo: 

— Quer saber a minha opinião, doutor? 

— V. ex. a dirá. 

— Antes continue a guerra. . . 



ELOGIO DOS QUARENTA ANOS 



Meu querido filho. — Deixei-te esta carta 
com a recomendação de só a abrires no dia 
em que fizesses quarenta anos. Não foi uma 
fantasia minha este pedido. A esse tempo 
já eu não pertenço, com certeza, ao número 
dos vivos; e como, para um homem que 
amou e viveu, não há outro dia mais triste 
do que aquele em que para sempre se des- 
pede das ilusões da juventude, quero que, 
na hora em que chegarem os teus quarenta 
anos, sintas junto de ti, senão já a minha 
mão amiga, ao menos o meu conselho, o 
meu pensamento e a minha alma. Todos nós, 
quando passamos por este transe — e não 
me falem na insensibilidade dos espíritos 
superiores! — julgamos que, por que a mo- 
cidade cerrou para nós a sua porta de oiro, 
infalivelmente começam os gelos, as devas- 
tações e as renúncias da velhice. Não, meu 



14 ESPADAS R ROSAS 

Jorge. E' aos quarenta anos que, em toda a 
sua plenitude, em toda a sua força magnífi- 
ca, em toda a sua pujante serenidade, a vida 
principia. Será, talvez, a idade da decadência 
da mulher ; mas é o período de esplendor do 
homem. Não suponhas que a tua juventude 
esgotou a taça de todos os prazeres, e que 
já nada resta aos teus cabelos grisalhos se- 
não as recordações saudosas, os afectos tran- 
quilos e as alegrias patriarcais. O teu zénite 
começa agora; e nem tu calculas, meu filho, 
como, no equilíbrio perfeito de todas as nos- 
sas faculdades, na posse exuberante de todo 
o nosso instinto de viver, a existência nos 
parece bela, as emoções nos parecem pro- 
fundas, e todos nós respiramos, a plenos 
pulmões, harmonia, plenitude, beleza, força ! 
A mocidade é uma corrida vertiginosa : co- 
lhemos a flor da vida; mas, tão rápida é a 
nossa carreira, que mal temos tempo para 
lhe aspirar o perfume. Aos quarenta anos, 
não ; aos quarenta anos tudo muda. Come- 
çamos a parar no caminho para sentir o 
deslumbramento de tudo quanto nos rodeia. 
O bezoiro inquieto e doirado que esvoaçava 
dentro de nós, sossega, emfim, para sorver 
lentamente", voluptuosamente, o hálito dio- 
nisíaco da terra em flor. Já não devoramos a 
existência; respiràmo-la; saboreâmo-la. Os 



ELOGIO DOS QUARENTA ANOS 15 

quarenta anos são o nosso jardim de Epicu- 
ro. A nossa sensibilidade, que julgávamos 
adormecida e fatigada, parece despertar para 
o gôso de sensações novas, de emoções des- 
conhecidas, cuja intensidade nos desconcerta 
e nos cria a ilusão de que alguma coisa de 
virginal havia ainda dentro de nós. E' a ida- 
de em que melhor se ama ; mas é também — 
diz-to a longa experiência da minha vida de 
jouisseur impenitente — a idade em que se 6 
mais amado. Não sei explicar o efeito de se- 
dução, de fascinação e de encanto que pro- 
duzem sobre a mulher os primeiros cabelos 
brancos do homem : sei apenas, meu filho, 
que só quando principiaram a empoar-se- 
me as fontes, só quando a primeira névoa 
de prata caiu sobre a minha cabeça, é que 
eu tive a noção perfeita, a consciência exacta 
do poder, da força máscula de dominação 
que o nosso sexo exerce sobre o espírito, 
sobre os nervos, sobre a alma instável e fu- 
gitiva da mulher. Emquanto fui novo, senti 
à minha volta o desejo, a galanteria, a curio- 
sidade, a sensualidade, a ternura, o amor: 
só depois dos quarenta anos conheci a pai- 
xão. O sentimento profundo que domina uma 
alma e que decide de uma existência, o amor 
que morre e que mata, a paixão que ilumina 
e que transfigura, só os primeiros cabelos 



16 ESPADAS E ROSAS 

brancos teem o poder de os despertar, só os 
quarenta anos os conhecem, só a maturidade 
viril e reflexiva do homem pode inspirá-los 
e senti-los. Chegou, meu Jorge, o momento 
mais delicado de toda a tua vida de coração. 
Estás na idade dos homens fatais e das pai- 
xões fatais. Os teus cabelos grisalhos não 
são uma despedida ; mas são uma advertên- 
cia. Nada do que vai passar-se, daqui em 
diante, no teu instinto e nos teus afectos, se 
parecerá com a futilidade brilhante, com a 
elegância voluptuosa das tuas aventuras da 
mocidade. Nesta altura da vida, o amor deixa 
de ser um sorriso ligeiro, para se tornar 
um acontecimento grave. Aos quarenta, já 
não se pode amar com o coração dos vinte 
anos. Lembras-te da frase do marquês de 
Lauzun, que eu tantas vezes te repeti quan- 
do, como um irmão mais velho, te contava 
as minhas extravagâncias de solteirão? Pois 
bem, meu filho, — il faut aooir le coeur de son 
âge. Hás-de ser rodeado, desejado, solicitado 
por muitas mulheres; não terão conta as que 
hão de cair em êxtase diante do teu perfil 
de medalha, dos teus olhos de napolitano, 
do prestígio da primeira neve que empoar a 
tua bela cabeça: mas, meu rapaz, não dis- 
perses prodigamente o teu coração amando 
todas, como fizeste na juventude; escolhe 



ELOGIO DOS QUARENTA ANOS 17 

uma só, e ama então como se deve amar 
aos quarenta anos, com uma ternura pro- 
funda, com um sentimento cheio de digni- 
dade, de respeito e de elevação. Quando se 
entrou no verão esplêndido da vida, é este o 
único caminho que pode conduzir à felici- 
dade. Mas — dirás tu— por que fez meu pai, 
dissipador magnífico dos prazeres e dos afe- 
ctos da existência, precisamente o contrário 
do que me recomenda a mim? Por que teu 
avô esqueceu-se de me aconselhar no dia em 
que eu fiz quarenta anos. Se Deus quizer, 
Jorge, que tu sejas amanhã tão louco como 
eu fui, dize ao teu filho — que importa uma 
mentira piedosa? — dize-lhe ao menos que 
eu também te não aconselhei a ti, mas copia 
esta carta e deixa-lha como se fosse tua, 
porque eu creio que não há alegria para o 
coração de um pai, que valha a certeza da 
felicidade de um filho. — Beija-te o teu, como 
irmão, — José. 



A CATEDRAL DE AMIENS 



As granadas caem sobre a catedral de 
Amiens. 

A irmã mais nova de Reims, a mais 
alta maravilha de equilíbrio e de estructu- 
ra que produziu no século xm o gótico 
normando, a formidável basílica picarda tra- 
balhada no lioz doirado de Senlis e de Ver- 
non, eriçada de torres, de flechas, de agu- 
lhas, de lanternins, de sineiras, de coruchéus, 
a catedral que foi o sonho do bispo Evrard 
de Fouilloy, a alma resplandecente do mes- 
tre laico Robert de Luzarches, cujo trifório 
viu tremular a auriflama de S. Luís, em cuja 
nave sagrada ressoaram os borzeguins de 
ferro de Filipe-Augusto, a filha querida de 
Bourges e de Mans, a mãe espiritual de 
Troves, de Tours, de Beauvais, de Ruão, de 
Colónia, expressão suprema do génio de um 
povo, flor ogival por cujas gárgulas de pedra 



32 ESPADAS E ROSAS 

sete séculos choraram, — será amanhã, tal- 
vez, como Reims, como Soissons, como Ar- 
ras, um montão de escombros, um esqueleto 
fumegante, uma ruína, um fantasma, uma 
sombra. Revejo-a, evoco-a, sinto-a diante de 
mim, vagamente envolta na névoa luminosa 
da Picardia, com a sua torre incompleta, a 
sua fachada aberta de fenestragens, os seus 
três pórticos de arqui voltas povoadas de 
evangelistas e de patriarcas, a sua rosácea 
onde brincam reminiscências da Legenda 
Doirada de Jacques de Voraigne, a sua ga- 
leria dos Reis, os seus botaréus gigantescos, 
as suas agulhas arrendadas de cogoilos, de 
trílobos, de aipos, de trevos de pedra, perfu- 
rando o ar, alando-se, erguendo-se em ges- 
tos de bênção e de súplica, de profecia e de 
glória. Não é, como era Reims, a «flor de 
vida e de graça» saída das mãos de mestre 
Orbais e de Jean le Loup: mas nenhuma ca- 
tedral de França a èguala na plenitude, na 
harmonia, no equilíbrio, na estabilidade, na 
calma beleza das linhas. Perante o ritmo da 
sua nave, severa e imensa como a de Bour- 
ges; perante o seu coro, sumptuoso e orna- 
mental como o de Mans; perante o seu tran- 
sepko onde sorri o êxtase dos imaginários 
ornamentistas do século xv ; perante a sua 
ábside, onde se julgaria vêr passar ainda, 



A CATEDRAL DE AMIENS 33 

colorido de Ícones, o pontifical bizantino do 
bispo Arnoult, — revivo, reconstituo, recom- 
ponho, numa floresta de pálios, de cruzes, 
de báculos, de flâmulas, de estandartes, ao 
ruído das armas e das vozes, dos sinos e das 
trombetas, um do maiores sonhos que tem 
feito, em todos os tempos, a loucura da huma- 
nidade cristã. Essa humanidade de há cinco 
e sete séculos, bárbara e ingénua — vejo-a 
bem! — espreita-nos ainda, convertida num 
povo de pedra e de bronze, das fugas de to- 
dos os pórticos, das aduelas de todos os ar- 
cos, encastrada em pés-direitos e em arqui - 
voltas, relevada em edículos e em tímpanos, 
debruçando-se nos túmulos, abençoando nos 
frontões, gesticulando na talha de oiro das 
estalas capitulares, — surgindo de todos os 
cantos, de todas as sombras, de toda a parte. 
Dentro da velha catedral gótica o passado 
não morreu: revive a cada hora, na popula- 
ção legendária e imóvel das imagens, — bis- 
pos e profetas, patriarcas e santos, apóstolos 
e guerreiros, evangelistas e mártires, os ve- 
lhos do Apocalipse e a teoria bíblica dos 
Reis, todo o programa iconográfico dos teó- 
logos da primeira Renascença, toda a graça 
colorida das iluminuras do Psaltério e S. 
Luís, a vida inteira a palpitar na pedra 
que o escopro de Tomás de Cormont ani- 

3 



34 ESPADAS E ROSAS 

mou para a eternidade, — e, sobre toda a 
imaginaria dos milagres e das lendas, dos 
mistérios e das catástrofes, pairando, esvoa- 
çando como um sorriso, abrindo como uma 
flor-de-liz na porta do transepto norte, a Vir- 
gem-Doirada de Amiens, a «soubrette picar- 
de» de Ruskin, a Virgem-Colombina, a mais 
risonha e graciosa figura de Mulher de todas 
as catedrais do mundo. Essa multidão de 
imagens, que tem o poder de revivescência 
dos espectros ; que inunda pórticos e gale- 
rias, baptistérios e vitrais, frisos e túmulos, 
púlpitos e capelas; que imprime a toda a 
arquitectura uma expressão viva e humana; 
que ri e chora nos brutescos e nos capitéis, 
nos modilhões e nas gárgulas, no retrato 
de João Wuilz e na absidíola dos Macabeus, 
— todo esse povo de pedra, seis, sete vezes 
centenário, eu vejo, eu sinto que se levanta 
agora, que se ergue perante o ultraje das 
granadas alemãs, que esbraceja, que ulula, 
que sacode os membros convulsos numa im- 
precação sagrada de ódio, numa súplica for- 
midável de justiça, como se os seus braços 
de estátua pudessem cobrir, defender, pro- 
teger uma das maiores maravilhas da alma 
gótica, um dos mais surpreendentes delírios 
do génio cristão. E emquanto os coruchéus 
abatem, e se fundem os telhados de chumbo, 



A CATEDRAL DE AMIENS 35 

e estalam os arcos botantes, e se estilharam 
vidros de rosácea e arestas de pedra; em- 
quanto o fumo das explosões enegrece o ar; 
emquanto o incêndio alastra, a catedral rúe, 
e, de polo a polo, os clarões de uma fornalha 
ciclópica enchem a noite, — 6 a multidão das 
estátuas do Amiens, é a alma sagrada do 
Passado que eu vejo, que eu ouço ainda, tre- 
mendo, uivando, soluçando, gritando em no- 
me da Humanidade transida, em nome da 
Justiça morta, em nome da Beleza mutilada: 
— Maldição ! Maldição ! 



UMA MULIIEli FATAL 



— Vês aquela mulher? 

Olhei na direcção indicada pelo meu ami- 
go. Um pouco adiante de nós, assentada à 
mesa, na sala de jantar do Internacional, 
uma mulher vestida de preto, sòsinha, almo- 
çava, com um livro aberto na sua frente. 

— Vejo. Quem é? 

meu amigo disse-me, em voz baixa, 
um nome. Esperou que o criado metesse 
uma garrafa de Salreu na larga geleira de 
cristofie, e acrescentou, numa expressão de 
dolorosa concentração: 

— Foi por causa dela que o Chico Eça se 
matou. 

O pobre Chico Eça! Eu tinha ouvido falar, 
como toda a gente, nesse sombrio drama de 
amor que acabara com uma bala de revól- 
ver — qualquer coisa de semelhante à paixão 
de Maurice de Guérin por M. me de Maistre 



38 ESPADAS E ROSAS 

— mas não conhecia, nem mesmo de nome, 
a mulher fatal que levara o pobre rapaz ao 
suicídio. Sabia apenas que se tratava de uma 
vaga mulher casada, «froide à vous faire 
tousser», como diria Barbey d'Aurevilly, e 
cuja aventura com o elegante Eça não fora 
a primeira nem tinha sido a última na sua 
vida de sensações e de dissipação. Era uma 
criatura de 30 a 35 anos, vulgar, magra, de 
uma elegância angulosa, de uma distinção 
seca, de uma palidez impressionante. Pro- 
curei, debalde, no seu perfil duro, semita, 
quási recto, na sombra de melancolia das 
suas pálpebras descidas, na sua pele tri- 
gueira, um pouco árida, batida de reflexos 
metálicos, nos seus braços nús, viris, cujos 
cotovelos perfurantes pareciam cravar-se na 
mesa, qualquer encanto feminino, qualquer 
indefinível expressão de beleza ou de graça, 
capaz de prender pela simpatia, de perturbar 
pelo mistério, de atrair pela sensualidade. 
Não percebi, confesso, que força de sedução 
semelhante criatura poderia exercer sobre 
um homem, até ao ponto de o levar ao úl- 
timo dos desesperos. Não possuía — disse- 
me o meu amigo — qualidades excepcionais 
de inteligência, e, muito menos, de coração; 
já não havia nela essa ressumante e diabó- 
lica frescura da mocidade, que, a-pesar da 



UMA MULHER FATAL 39 

observarão de Pinarei — ala femme ne deoient 
vraiment femme qu'après son trois eme en- 
fant» — é ainda a mais perigosa e a mais 
inquietante de todas as belezas; a sua pró- 
pria elegância, que se adivinhava no pé cal- 
çado de camurça preta, no artelho fino, es- 
belto e forte comprimido na malha de seda 
da meia, era uma elegância máscula, des- 
manchada, rectilínia, sem flexibilidade, sem 
feminilidade. Analisei-lhe, uma a uma, as 
feições; segui-lhe, curioso, a linha dos ges- 
tos; procurei surpreender os subtis, os des- 
conhecidos encantos que tornavam aquela 
mulher tão funesta, tão desejada, tão ado- 
rada. Talvez — pensei eu — os olhos fossem 
belos. Esperei que ela os erguesse da bro- 
chura que estava lendo, e que me pareceu, 
pela mancha da capa, o último livro de 
Bourget. Há olhos que, só por si, valem 
uma fisionomia, que a iluminam, que a expli- 
cam, que a revelam — sobre tudo os pretos 
— e cujo clarão, como certas luzes doiradas 
de atelier, adoça todos os contornos, amacia 
todas as linhas, envolve as expressões mais 
duras numa vaga voluptuosidade de mistério. 
A insistência do meu olhar acabou por atrair 
o dela. Era estrábica. E' bem certo que o 
amor nasce de quási nada e morre de quási 
tudo; mas aqueles olhos piscos, castanhos, 



40 ESPADAS E ROSAS 

pequenos e vulgares, de um tom fulvo de 
tabaco e de um sensível estrabismo conver- 
gente, não se me afiguraram capazes, nem 
de traduzir sentimentos profundos, nem de 
despertar grandes paixões. Lembrei-me, ao 
vê-la voltar as folhas do livro, do poder de 
sedução, da intensa espiritualidade que se 
exala de certas mãos, e que d'Annunzio pro- 
curou explicar e descrever no Fuoco. Mas 
— eu vi-as bem — nas mãos dessa mulher, 
largas, empastadas, inexpressivas, mãos de 
artrítica, grossas de articulações e espessas 
de modelação, não havia coisa alguma que 
recordasse, sequer, a fisionomia inteligente, 
translúcida, nervosa, voluptuosa, inquieta, 
das «mãos dannunzianas». Quando percebi 
que ela bebia o último gole de chá e ia le- 
vantar-se da mesa, supuz encontrar na har- 
monia, na ondulação, na nobreza, na opulên- 
cia da sua figura a justificação do interesse 
amoroso e sensual que parecia envolvê-la 
como uma atmosfera nefasta. Tinha um cor- 
po chato, longo, insexuado, sem peito, sem 
ancas, não dessa diáfana imaterialidade das 
idealizações pré-rafaelitas, que Ruskin exal- 
tou, e que é beleza c ó graça ainda, mas de 
uma magreza gimnandra, forte, desgraciosa, 
movendo-se, sem leveza e sem ritmo, em 
largas passadas de homem. 



UMA MULHER FATAL 41 

— Mas onde está, afinal, o encanto desta 
cria lura? 

— Vais sabê-lo, — disse o meu amigo, 
levantando-se para a cumprimentar à pas- 
sagem. 

Trocaram as primeiras palavras banais. 
Uma voz quente, musical, pastosa, pertur- 
badora, voz divina de oréada transviada, voz 
que parecia um soluço vibrando dentro de 
uma campânula de oiro, voz de presságio e 
de paixão, cantou, chorou, tremeu nos meus 
ouvidos. Era a voz dela. Estava decifrado o 
enigma. Senti, nesse momento, com a evi- 
dência das coisas irremediáveis, que aquela 
mulher me endoideceria se murmurasse, de- 
bruçada sobre mim, uma palavra de amor. 
Tive uma impressão de vertigem quando ela 
passou ao meu lado. Hoje, creio firmemente 
que as mulheres fatais, as mulheres que 
perdem e que matam, não são as mais belas, 
e que não há nada na mulher mais perigoso, 
mais sensual, mais infernal, mais divino, do 
que a voz. 



ILHA DOS AMORES 



Portugal tem hoje notáveis pintores. Mas 
não existe bem caracterizada, no momento 
actual, uma pintura portuguesa. Lembro-me 
ainda das impressões produzidas pelos nossos 
grandes mestres no espírito de uma senhora 
francesa que, em 1907 ou 1908, me concedeu 
a honra de visitar comigo a exposição do pa- 
lácio de S. Francisco. Perante um retrato da 
primeira maneira de Columbano, a encanta- 
dora M. me •** não pôde conter uma expres- 
são de assombro : — «.Que c'est beau ! Un Ve- 
lasquez!» Parou em seguida diante de um qua- 
dro de Salgado ou de Carlos Reis — não me 
recordo bem — mancha de um impressionis- 
mo, de um plenarismo ofuscante, e observou, 
num sorriso de subtil inteligência: — «O/z 
dirait un Besnard, ríest-ce pas ?» Cada ma- 
nifestação sincera da sua admiração expres- 
sava-se involuntariamente através de analo- 



44 ESPADAS E ROSAS 

gias, de semelhanças, de sugestões de escola 
e de processo (o naturalismo comovido de 
Breton, o academismo de Bougucreau, as 
perspectivas convencionais de Zuloaga, os 
tons cinzento-p rateados de Whistler), acen- 
tuando em quem a ouvia a convicção — que 
é já, de resto, a de muita gente — de que à 
pintura portuguesa contemporânea, magní- 
fica de seiva, de opulência e de vigor, falta, 
por emquanto, uma qualidade : o carácter na- 
cional. De repente, porém, a gentilíssima se- 
nhora parou, fixou os olhos num quadro, 
toda a sua face se abriu num riso de surpresa 
e de júbilo, e disse-me, batendo as palmas 
como uma criança: — «Voilà! Voilà ce qui 
est bien portugais /» Eram os Bêbados, de 
Malhoa. 

Com efeito, Malhoa é hoje, como o foi Silva 
Porto, uma gloriosa excepção na pintura por- 
tuguesa. O seu ardente, o seu indestructível 
lusitanismo — não apenas nos motivos, mas 
no sentimento e nos processos— conferiu- 
lhe um logar aparte entre os mestres pinto- 
res do seu país e do seu tempo. Não há ma- 
neira de o confundir, porque a pintura de 
Malhoa não se parece com nenhuma outra. 
Ponham um quadro deste naturalista admi- 
rável, deste assombroso lírico da paisagem, 
deste intérprete luminoso e sadio da alma e 



ILHA DOS AMORES 45 

<los costumes do nosso povo, entre centenas, 
milhares de quadros de todas as escolas, de 
todas as proveniências, de todos os países : 
èle permanecerei, na sua luz, na sua natu- 
reza, na sua etnologia, no seu pitoresco, na 
sua emoção, — inconfundível, saboroso, cara- 
cterístico, português. Não admira que assim 
seja — dir-se-há — dada a predilecção de Ma- 
lhoa pelos motivos de carácter nacional. De 
ordinário, é certo, o grande mestre inspira 
os seus quadros em motivos populares (Volta 
da Romaria, Oleiros, o Viático, Chegada do 
Zé Pereira, os Bêbados, Azeite nooo, a Pro- 
cissão, o Fado) ou na geórgica estremenha 
rutilante de sol (Cuidados de amor, Cócegas, 
o Remédio, a Varanda dos Rouxinóis), onde 
as suas faculdades de observador profundo 
e o seu vigoroso realismo idílico surpreen- 
dem, como diria Millet, a «alma comovida e 
fraterna dos humildes» entre as lindadas vi- 
çosas, os vinhedos doirados, os risonhos al- 
pendres e as lareiras patriarcais de Figueiró 
dos Vinhos. Mas não se suponha que o vee- 
mente carácter da sua pintura se perde 
quando Malhoa deixa de pintar procissões 
ou romarias ribatejanas. Seja qual fòr o gé- 
nero ou o assunto escolhido, o forte lusita- 
nismo da sua maneira, do seu sentimento, 
da sua individualidade — que não exclúe o 



46 RSPADÀ8 li ROSAS 

poder de generalização das suas vastas sín- 
teses de tipos humanos — mantem-se com 
uma tal energia, com um tal vigor, com uma 
tão soberba afirmação de raça, que, mesmo 
antes de nos dizermos diante de um quadro 
de Malhoa: — «Como isto é belo!» — .dizemos, 
com o entusiasmo da francesa que me acom- 
panhava em 1908: — «Como isto é portu- 
guês !» 

Estou a escrever estas palavras c a olhar 
o maravilhoso quadro que aqui tenho, diante 
de mim, sobre o fogão pombalino do meu ga- 
binete de trabalho. E' um estudo, a óleo, 
para a sua grande composição — a Ilha dos 
Amores. Num recanto verde e luminoso de 
floresta, entre os pinheiros de Cybele c os 
alamos de Alcides, sobre a ínsua doirada que 
a deusa Cypris fez surgir do mar para a ofe- 
recer, como uma jóia, á sensualidade faminta 
dos portugueses, uma névoa rósea e palpi- 
tante de ninfas — nereidas, dríadas, oréadas, 
napeias coleantes, occânides melodiosas — 
passa, freme, ondula, adivinha-se ao longe 
num estremecimento pagão de carne mia, — 
emquanto no primeiro plano, aos pés do mais 
amoroso, do mais eloquente, do mais petrar- 
quiano dos soldados da armada da índia, o 
moço Leonardo — «.tra la spiga e la man qual 
muro èmessof» — cai húmida, ofegante, nua, 



ILHA KOS AMORES 47 

risonha, a fugitiva náiade Efira, como uma 
graciosa c rosada capréade que no meio 
de uma dança sicínica de sátiros, de pans, de 
silvanos, de faunos, escorregasse e caísse, 
rebolando, na relva cheia de sol. O eminente 
pintor português poderia, como outros ilus- 
tradores dos Lusíadas, ter-se inspirado nas 
Baigneuses de Boucher, ou, em geral, nos 
nús galantes dos pintores franceses do século 
xviii. E, entretanto, como Portugal inteiro, 
como toda a raça lusitana vive, estua, res- 
plandece naquela figura violenta de soldado, 
naqueles olhos acesos de desejo e de espanto, 
naquela boca que beija e que sorve, na garra 
bárbara daquela mão robusta que se crispa, 
trémula de volúpia, sobre uma anca de mu- 
lher ! Neste admirável estudo de ar livre — 
que a isso, afinal, se resume a Ilha dos Amo- 
res — tudo é português: a luz, a natureza, a 
atmosfera, a paisagem, o trigueiro macio 
das carnações, o sentimento edénico da com- 
posição, e, acima de tudo, a emoção que pal- 
pita nesse beijo simultaneamente lírico e 
brutal, sagrado e feroz, torpe e divino, ex- 
pressão do maior prémio que algum dia um 
coração português pôde ambicionar para as 
suas façanhas ! Falam-me aí no Beijo de 
Rodin? Mas o Beijo de Rodin é a fecundi- 
dade — e o Beijo de Malhoa é a glória ! 



O PARADOXO DO DH. MARCONDES 



Visitei ontem o sábio e singularíssimo 
Dr. Marcondes. Encontrei-o no seu gabinete 
de trabalho, a barbicha branca e rala escor- 
rendo sobre a quinzena de veludo preto, uma 
maravilhosa carnação rosada, como a de cer- 
tos retratos de Franz Hals, espelhando à 
luz. Tinha na mão um cràneo epi-paleolítico 
achado nos kjoekkenmoeddinyer do vale do 
Tejo, e estudava-o, de compasso em punho- 
Conversámos de tudo — e, por conseguinte, 
da guerra. Quando lhe perguntei a sua opi- 
nião acerca do conflito mundial, o ilustre Dr. 
Marcondes pousou sobre a mesa o precioso 
dolicoide, fixou em mim os seus pequeninos 
olhos frios, de um verde de água profunda, 
e disse-me, textualmente: 

— Sabe você o que é a guerra? E' uma 
doença da civilização. E', caracterizadamente, 
uma doença da civilização metalúrgica. Você 

4 



50 ESPADAS E ROSAS 

não ouve Lloyd Georgc, Wilson, Clemen- 
ceau, idealistas hipercivilizados, admiráveis 
mobilizadores de palavras sonoras, afirma- 
rem nòs seus discursos que a América, a 
França, a Inglaterra se batem para que a 
civilização avance e nunca mais a guerra 
seja possível no mundo? Se assim fosse, 
meu amigo, estávamos a bater-nos por duas 
aspirações contraditórias. Quanto mais a ci- 
vilização avançar,— tanto mais frequente, mais 
vasta, mais gigantesca, mais monstruosa se 
tornará a guerra, porque a civilização nunca 
conduziu, nem conduzirá, à felicidade, à har- 
monia, à ortobiose humana. A guerra só 
terminará no dia em que a civilização re- 
gressar às formas paleolíticas. Estou firme- 
mente convencido de que a humanidade não 
volta a conhecer a paz, sem que uma con- 
vulsão geológica subverta o mundo, e um 
novo troglodita nasça, hirsuto, pacífico, co- 
mendo feras e lascando pedra. Duvida vocèV 
Vou provar-lho, à face da pré-história. Tome 
nota das minhas afirmações. O homem pa- 
leolítico e o homem neolítico — digo eu — 
não conheceram a guerra. A idéa da guerra, 
como nós a compreendemos, nasceu com o 
homem mórgio, apareceu com a primeira 
espada de bronze, — é uma criação essencial- 
mente metalúrgica, uma obra funesta do me- 



O PARADOXO DO DR. MARCONDES 51 

tal. Demonstrada a primeira parte, está feita, 
ipso facto, a demonstrarão da segunda. Ora 
ouça o meu caro colega. Se a guerra, como 
instituição, como organização, como espírito 
— o pólemos — tivesse existido na idade da 
pedra, os ossuários neolíticos revestiriam o 
aspecto de vastos ossuários de campo de ba- 
talha, e não seriam apenas, como realmente 
são os que se conhecem, simples túmulos 
de famílias ou sepulturas de tríbus, bem ca- 
racterizadas pela descarnização dos cadáve- 
res e pela presença de esqueletos de crianças 
e de mulheres. Além disso, a terem-se dado 
colisões armadas entre organizações guer- 
reiras de povos, os vestígios da luta deviam 
aparecer nas ossadas do homem pré-histórico, 
companheiro do rinoceronte e do mamute ; e, 
como vocô sabe, as feridas neolíticas, sim- 
ples acidentes de caça (flechas de sílex no 
cúbito, no fémur) são extremamente raras. 
Há quem afirme que entre as populações 
lacustres existiu a guerra: contesto. Se 
tivesse existido a guerra, existiria a pro- 
fissão de guerreiro; e, se existisse a pro- 
fissão de guerreiro, muitas sepulturas neo- 
líticas por inumação acusariam — o que 
não se verifica — a presença de armas e de 
insígnias bélicas. Perguntar-me-há você o 
que são as facas paleolíticas de Abbéville e 



52 ESPADAS E ROSAS 

de Sauton Downham, as lanças de sílex las- 
cado de Reculver e de Saint-Acheul, os ma- 
chados, os celtas de pedra polida provenien- 
tes das aluviões, dos dólrnens, dos hipogeus 
do Somine, de Locmariaker, de Mooseedorf, 
— o que são essas magníficas peças, cobertas 
da baba doirada de dez mil anos, senão ar- 
mas, verdadeiras armas de agressão, e, por- 
tanto, de guerra? Engano. As armas lasca- 
das dos homens das cavernas e os punhais 
de sílex polido dos palafitas não são instru- 
mentos guerreiros; são utensílios; são, quan- 
do muito, como as pontas de flecha de sílex, 
de diorite, de basalto (lá estão, a prová-lo, 
as vértebras perfuradas de rena do museu 
Saint-Germain) simples armas de caça. Po- 
diam eventualmente transformar-se — como 
se transforma uma pedra vulgar — em ins- 
trumentos de agressão; mas não eram, nun- 
ca foram armas de guerra ; nem o espírito, 
nem a instituição da guerra existiram no 
neolítico, emquanto êle não conheceu o oiro 

— o primeiro esplendor; o cobre — a primeira 
riqueza; o bronze — a primeira espada. Resta 
um argumento: a existência de certas mu- 
ralhas ciclópicas do tempo da pedra polida 

— por exemplo, a de Santo Odílio, nos Vos- 
gos. Mas esses recintos murados, esses me- 
galitos de aspecto defensivo eram simples 



O PARADOXO DO DR. MARCONDES 53 

monumentos de natureza religiosa, como os 
Cromlecks da Bretanha e o famoso Stone- 
henge da Inglaterra, em cujas imediações 
não se encontraram armas. Por conseguinte, 
meu amigo, é evidente que os homens neo- 
líticos não conheceram a guerra. A guerra 
foi revelada á humanidade pelos metais. 
Nasceu com eles. Foi o metal que ensinou 
as sociedades humanas a organizarem-se — 
para devastar e para matar. O espírito de 
conquista, o génio de dominação, o culto 
nietzschiano da força são obra exclusiva da 
civilização metalúrgica na sua progressão 
crescente de poder destruidor — cobre, bron- 
ze, ferro, aço. Desde a espada das forjas 
escandinavas, batida em bronze sagrado pelos 
homens primitivos, até ao gládio grego dos 
heróis do ciclo troiano; desde a enémide de 
Aquiles, refulgente de oiro, até ao escudo 
de ferro dos homens da primeira Cruzada; 
desde a armadura de Carlos v até aos mos- 
quetes de Fontenoy; da granada à metralha- 
dora, do canhão ao drecn.lnought, do avião ao 
tank, à medida que a civilização avançava, 
que os metais triunfavam na maravilhosa 
ascenção que vai das forjas bárbaras até às 
aciarias e aos altos-fornos de Essen e de 
Rheinhausen, — a guerra tornou-se cada voz 
mais terrível, mais mortífera, mais hedion- 



54 ESPADAS E ROSAS 

da, mais desumana. Já não é um duelo — é 
um massacre; já não é um torneio — é uma 
carnificina; já não é um combate — é uma 
devastação. Aqueles que se batem para que 
a guerra não volle a ser possível no mundo, 
aqueles que se batem sinceramente por um 
ideal de paz,— batem-se, não para que a civili- 
zarão avance, mas para que a civilização recue. 
Para gosar a paz de Diceópolis, uma paz dio- 
nisíaca, uma paz fecunda, uma paz doirada e 
criadora no seio da natureza e das leras, 
para viver, finalmente, tranquilo e feliz, o 
homem tem de fazer tábua-raza de toda a 
civilização, de demolir, de subverter cinco 
mil anos de delírio metalúrgico — para voltar 
a lascar pedra, pacífico, felpudo, risonho, 
como os hominídios neandertaloides, empo- 
leirado nos galhos de alguma árvore primi- 
tiva e frondosa. E quem nos diz a nós, 
meu caro colega, que não estamos já no 
princípio dessa formidável obra de demo- 
li»; ão? 

O Dr. Marcondes teve um gesto profético 
c calou-se. O sol brincava na sua calva re- 
luzente. Quando, á despedida, lhe apertei as 
mãos, fiquei perfeitamente convencido de 
que ainda há no mundo alguma coisa mais 
terrível do que um canhão que dispara: 6 
um sábio que raciocina. 



A MULHER E O CAQ 



Mícer Jacob Pinheiro, mercador na Haya e 
descendenle de judeus portugueses, casara 
em Ipres com uma das mais belas mulheres 
da Flandres, e, vinte dias andados depois do 
casamento, numa pesada estufa de viagem, 
seguido de duas liteiras com as criadas e de 
duas recuas de azêmolas carregadas de ta- 
peçarias e de baixela de prata, metera-se a 
tíaminho, com a mulher e um grande galgo' 
de estimação, de regresso à sua casa da Ho- 
landa. Levavam já dois dias de jornada quan- 
do chegaram á estalagem do Galo, uma das 
mais célebres hostarias flamengas do prin- 
cípio do século xvn, a cuja porta, sonolentos, 
abroxados de forte ferraria, cabeceando so- 
lenemente nos correões, esperavam as es- 
tufas e as calejas de uns fidalgos espanhóis. 
Mícer Jacob desceu, bateu as palmas, e pe- 



56 ESPADAS li ROSAS 

diu pousada e mudas para as liteiras. Mas 
uns titereiros manchegos faziam bailar uns 
bonecos no pátio ; em volta do improvisado 
teatro, o povo formigava, gritava, uivava de 
júbilo; e o mercador, se quiz ser atendido 
pelos eguariços, teve de entrar com o sota- 
cocheiro na estalagem e de pagar adiantadas, 
por dois dobrões de oiro, as mudas e a hos- 
pedagem daquela noite. Quando, dali a pouco, 
voltou a buscar a mulber, viu junto do es- 
tribo, cortejando-a, um fidalgo moço que pa- 
recia descido de um quadro de Pantoja de 
la Cruz e que, mal o sentiu aproximar-se, 
se afastou olhando-o, de sombreiro na cabe- 
ça, com toda a insolência do orgulho espa- 
nhol. 

— Quem é aquele homem ? — perguntou, 
perturbado, Mícer Jacob. 

A encantadora flamenga sorriu, ajustou 
o seu grande mantéu verde, compôs a crés-» 
pina de oiro de Londres, e descendo do co- 
che, aconchegada ao braço do marido, mur- 
murou numa voz que era uma carícia : 

— Sei lá, meu amor! 

Jacob Pinheiro, com a mulher e com 77- 
thon, o grande galgo branco que o acom- 
panhava, recolheu-se nos melhores aposen- 
tos da hostaria, mandou vir a ceia, correu 
os ferrolhos, c não saiu mais, até que, no 



A MULHER E O CÃO 57 

dia seguinte, o sota-cocheiro foi dizer-lhe 

que era tempo de seguir jornada. 

— Tudo pronto ? 

— Tudo pronto, Mfcer Jacob. 

Levavam já uma hora de caminho, quan- 
do o mercador, na volta de uma estrada, 
percebeu que uma das estufas dos fidal- 
gos espanhóis o vinha seguindo de perto. 
Apreensivo ainda com o que se passara na 
estalagem, e lembrando-se das palavras do 
velho Laurent Joubert, que lera dias antes 
— «on est plus t rompe en femmes et en che- 
vaux que en tout autre animah — , tornou a 
perguntar à mulher se o impertinente cas- 
telhano que subira, para a cortejar, à estri- 
beira do coche, era, porventura, seu conhe- 
cido ou seu parente. 

— Nunca o vi. 

— Então porque lhe sorriste, se o não co- 
nhecias? 

— E' costume, em Flandres, sorrir a quem 
nos corteja. 

— E' um mau costume, que tu has de per- 
der na Holanda. 

— Deveras, meu amor ? 

Jacob Pinheiro olhou a mulher, perguntou 
a si mesmo o que haveria de cândido ou de 
hediondo, de angélico ou de infernal no sor- 
riso daquela criatura, acariciou Tithon ador- 



58 ESPADAS E ROSAS 

mecido aos seus pés, e só despertou dos 
sombrios pensamentos em que se absorvera, 
quando o coche do fidalgo espanhol, carre- 
gado do escudo «emanchado de três piexas 
de gueles y de oro» dos Teles Giron, passan- 
do de escantilhão ao lado da estufa do mer- 
cador, lhe ganhou a dianteira e se atra- 
vessou na estrada a cortar-lhe o caminho. 
O cocheiro, cujo vaqueiro vermelho chame- 
java ao sol, gritou que se arredassem. O fi- 
dalgo desceu do coche, enfiou a espada no 
talabarte, levantou a cabeça sobre o enorme 
festo cnrocado, ferrou os punhos na cintura, 
e com a mesma expressão de provocador 
orgulho com que na véspera se acercara da 
mulher de Mícer Jacob, convidou o mercador 
a apear-se também. 

— Que pretende de mim, vossa mercê? 

— A mulher que o acompanha! 

— Pertenee-me de corpo e de alma. E' 
minha mulher. 

— Passará a ser minha. 

— Quem o ordena? 

— O meu desejo. 

— Não o será, emquanto nos meus col- 
dres houver pistolas! 

O mercador travava já do sclote do sota- 
cocheiro para desafivelar-lhe os coldres, 
quando o castelhano o deteve num gesto : 



A MULHBR R O CÃO 50 

— E se ela me preferir a mim c quizer 
de sua vontade seguir-me? 

— E' uma mulher fiel. Não me trocará 
pelo primeiro desconhecido! 

— Experimentemos. 

— Pois experimentemos ! 

Acercaram-se ambos da estufa de via- 
gem, de onde a subtil flamenga, como um 
Van Orley diáfano e doirado, debruçava já, 
sorrindo sempro, a sua bela cabeça de deusa. 
Jacob Pinheiro fitou-a, cruzou os braços e 
disse-lhe: 

— Mulher, vai ou fica, como te ditar o 
coração. 

As criadas, aflitas, espeitoravam-se das 
liteiras. Os azeméis e os liteireiros olhavam, 
mudos de pasmo. Na vaga neblina cinzenta 
do céu da Flandres, os dois coches, oscilan- 
do nos correôes esticados, pareciam arfar, 
arquejar numa expressão quási humana. Em 
silêncio, a mulher de Mícer Jacob compôs o 
manto, sorriu, desceu, — e atirou-se para os 
braços do desconhecido. Pelos olhos do ju- 
deu passou uma onda de sangue. Mas, pala- 
vra de mercador não voltava atrás. Conteve- 
se, dominou-se, devorou a afronta, e, sereno 
até à generosidade, ordenou que as alfaias 
da bagagem c as liteiras das criadas seguis- 
sem aquela que havia sido sua ama e se- 



60 ESPADAS K ROSAS 

nhora. Quando já a comitiva se punha em 
marcha, um estribeiro negro do fidalgo es- 
panhol veio falar ainda a Mícer Jacob. A 
caprichosa flamenga desejava que o marido 
lhe mandasse o galgo, que ela adorava e de 
que não queria separar-se. 

— O que fiz com a mulher, fá-lo-hei com 
o cão, — disse, tranquilamente, Jacob Pi- 
nheiro. 

— Vossa mercê entrega o galgo a Sua 
Ilustríssima? 

— Dou ao cão a liberdade de escolher o 
dono que lhe aprouver. 

Quando o negro lhes levou a resposta, 
o fidalgo e a flamenga, debruçados do coche, 
chamaram de longe o animal: 

— Tithon! Tithon! 

O cão, porem, mais fiel que a mulher, fi- 
cou ao pó do dono, a lamber-lhe as mãos. 



OS «VIGENTES» 



Quem viu Coimbra há vinle anos, já hoje 
a não conhece. Desapareceu o espírito uni- 
versitário. Aboliram-se os ceremoniais pom- 
balinos. Sepultaram-se as tradições acadé- 
micas. As charamelas emudeceram. Calou-se 
a «cabra». A fisionomia da cidade mudou. E 
o que é mais curioso, é que a própria trica- 
na, a tricana de pele doirada, de buço ligeiro 
e de chinela nervosa, a tricaninha que era o 
sorriso, o coração, a alma da velha cidade 
do luar e da saudade, dos archeiros e dos 
doutores, mudou também e parece outra, 
com as suas maneiras de Lisboa, o seu chaile 
de merino, a sua meia de seda, o seu sapa- 
tinho francês de camurça, e um certo ar 
grave, tímido, futrica, Sainte-Nitouche, que 
não deixa de ter encantos, mas que repre- 
senta a subversão, não apenas do tipo tra- 
dicional, mas do espírito vivaz da rapariga 



62 ESPADAS E ROSAS 

coimbrã. A tricana foi uma obra secular e 
amorosa do estudante; e a Coimbra de hoje, 
a Coimbra nova, a Coimbra de képi e de cha- 
péu-de-còco, burgueza, utilitária, turística, 
pé-de-boi, será de toda a gente, do militar, 
do industrial, do lojista, do forasteiro; — do 
estudante 6 que já não é. Mas então— pergun- 
tar-se-há — já nada resta de característico na 
etnologia da tricana actual? Nada a distin- 
gue, por exemplo, da costureira de Lisboa, 
da rapariga das fábricas do Porto, desses ti- 
pos de tão penetrante encanto popular que 
enchem, com os seus olhos pretos e os seus 
chailes de lã, os quatro cantos viçosos das 
pequenas cidades portuguesas? Não seria 
justo afirmá-lo. A rapariga de Coimbra mu- 
dou; é já inteiramente diferente do que era 
há quinze e há vinte anos; mas a-pesar da 
sua decadência, do seu futriquismo, da sua 
descaracterização, ainda constitúe um tipo 
aparte. Ficou-lhe qualquer coisa de ances- 
tral, de inapagável, de hereditário no gesto 
de traçar o chaile, no movimento de atar o 
lenço; a-pesar dos seus sapatos de salto, ainda 
se lhe adivinha, no ritmo do andar, a ousadia 
airosa da chinela que lhe tremeu na ponta 
do pé; vou jurar que a sua vulgaríssima saia 
de costureira ondula ainda com a mesma 
graça musical com que, em pleno século xvii, 



OS «VICENTES» 03 

descendo ao sol a Couraça de Lisboa, sara- 
coteava a sua vasquinha curta de serafina 
encarnada; e se a chinela e a meia branca 
desapareceram, se as filigranas de oiro já 
não lhe brincam nas orelhas, se se perdeu o 
embiocado do lenço e o avental de ponta que 
seduziram João Penha, — alguma coisa existe, 
alguma coisa ficou, um pormenor vivo, uma 
nota curiosa, um pequeno traço especial 
que, ainda hoje, nos faz conhecer à légua as 
raparigas de Coimbra: o «vicente». 

O que é o «vicente» das tricanas, a que li- 
gou o seu nome um encantador rapaz da 
aristocracia portuguesa e da boémia coim- 
brã de há quinze anos? Nada mais simples. 
Uma fita de veludo preto, da largura de um 
dedo, que lhes afoga o pescoço. O enfeite 
mais singelo e mais despretencioso do mun- 
do. E, entretanto, a graça, a expressão, a 
viveza, o sugestivo encanto que essa simples 
fita, passada sob a barba e presa atrás às 
pontas do lenço de pongé preto que lhes en- 
volve os cabelos, empresta à fisionomia da 
mondégide pagã que é a mulher de Coim- 
bra! Para compreender o poder de sedução 
do avicente» é preciso ter visto, algum dia, 
a carnação luminosa e inconfundível da tri- 
cana. Não sei se deve atribuir- se ao sol, à 
luz macia das margens do Mondego, ou ao 



64 ESPADAS E ROSAS 

próprio grão da sua pele, doirada como o 
bago do trigo maduro, esse tom mate, essa 
palidez quente e metálica peculiar às rapa- 
rigas da velha cidade de D. Diniz. Sei ape- 
nas que, sem a polpa, transsudante de luz, 
daquelas faces e daquele pescoço, sem uma 
carnação com essa vaga e opulenta tonali- 
dade de oiro baço, sem aquele moreno lu- 
minoso que lembra a patine de certos mar- 
fins religiosos, o traço negro do «vicente» 
de veludo não teria a décima parte do valor 
expressivo e da picante graça que fizeram a 
sua fortuna. Toda a gente o pode pôr; só à 
tricana é que fica bem. Joga-lhe, à maravi- 
lha, com o negro dos olhos e dos cabelos; 
comprime-lhe, afaga-lhe, como uma carícia, 
as modelações e os empastamentos da gar- 
ganta; estilisa-a, adelgaça-a; parece que lhe 
abre o sorriso, que lhe atenua a sombra vio- 
leta das olheiras, que lhe faz scintilar a pele 
como grãos de mica ao sol; dir-se-ía (tanto a 
tricana é a obra carinhosa de muitas gera- 
ções de escolares!) que cada uma delas traz 
ainda ao pescoço, como uma relíquia, o 
pequeno farrapo negro de uma capa de estu- 
dante. Para as raparigas de Coimbra, o «vi- 
cente» não é, apenas, a moda que passa; é a 
jóia que fica. — «São as nossas pérolas», — 
dizia-me uma, embrulhada no seu chaile rico 



OS «VICENTBS» 65 

de ramagens, à beira de Santa Cruz. E ou- 
tra, descendo do mercado abraçada a uma 
càntarinha de barro da Gegonheira: — «E' o 
nosso coração». Bem sabia ela porquê. Ne- 
nhuma tricana ignora que o primeiro «Vi- 
cente» nasceu de um romance de amor. Mui- 
tas delas conheceram a Deolinda, a mais bo- 
nita das ttrès irmãs da Alegria», em cujo 
colo esbelto, melodioso, quási imaterial como 
o de certas Virgens de Fra Filippo, a mão 
amorosa de Vicente Arnoso atou, tremendo, 
a primeira fita de veludo preto. A paixão da 
pobre tricana, a sua dôr silenciosa ao vêr 
partir para a Alemanha o único homem que 
amara, a fita preta a que ela chamava «o seu 
vicente» e que nunca mais tirou do pescoço 
até morrer de saudade, — essa anecdota sen- 
timental que enche de tão tocante poesia a 
«moda do vicente», não há em Coimbra uma 
só rapariga que a não saiba, uma só que não 
veja, que não sinta nesse pedaço de veludo 
que as faz tão lindas (pobres delas!) palpitar 
um pouco da sua própria vida, do seu pró- 
prio coração, do seu próprio destino de flo- 
res efémeras, no mesmo instante colhidas e 
abandonadas. No martirológio amoroso que 
todos os dias se escreve à beira do Mondego, 
e em que pequeninos corações vivem o tempo 
das rosas, a Deolinda podia, como as outras, 

5 



66 ESPADAS E ROSAS 

ter apenas deixado de si a memória de uma 
flor. Mas o acaso foi pródigo com ela, e a 
pobre tricana morreu deixando a todas as 
raparigas de Coimbra, num pedaço de fita 
que se tornou um símbolo e um clarão, a he- 
rança imortal da sua beleza e da sua graça. 



DOIS CAPACETES 



Devia ter sido por fins de agosto de há 
dois anos. O ministro da guerra português, 
de regresso da sua viagem a Fiança, trou- 
xera comsigo algumas relíquias de batalha 
— estilhaços apanhados na ábside de Reims, 
capacetes metálicos de soldados mortos, es- 
poletas de granadas caídas nas trincheiras 
portuguesas — e resolvera oferecê-las ao 
novo Museu da Grande Guerra. Todos os 
dias o general director, um erudito e um 
gentil-homem, esperava com impaciência a 
anunciada oferta do ministro. Eram despo- 
jos da mais formidável luta que algum dia 
o animal humano travou sobre a íerra ; era 
um pouco da alma distante e heróica de Por- 
tugal, um pouco da glória dos nossos ses- 
senta mil «serranos», que vinha até nós: 
como não havíamos, nós todos, de receber 
com curiosidade e com emoção esses pedaços 



68 ESPADAS E ROSAS 

de morte onde se sentiria palpitar o coração 
de bronze da epopeia? Uma bela manhã, a en- 
comenda chegou. Trazia-a um sargento, com 
uma carta do ministro. O general abriu o en- 
cerado negro que envolvia o pacote, e, co- 
movido, colocou sobre a mesa, com alguns 
estilhaços de granadas alemãs, dois capace- 
tes metálicos, lurados de balas e empastados 
de sangue, que tinham pertencido aos dois 
primeiros soldados portugueses mortos nas 
trincheiras da Flandres. Examinei-os, deti- 
damente. Lembravam em tudo, menos na côr, 
a celada espanhola de Dom Quixote e os mor- 
riões seiscentistas dos arcabuzeiros do Amei- 
xial e de Montes-Claros. Uma vaga tinta de 
folha morta, uma incerta mancha de bronze 
florentino pareciam escorrer, babar esses 
dois cascos, do timbre às abas, dando-lhes o 
aspecto, ao mesmo tempo luminoso e pulve- 
rulento, da terra removida de fresco. Um era 
canelado, do tipo inglês, apresentava o fron- 
tal dilacerado por uma bala, o forro de coiro 
empapado de sangue, e cheirava fortemente 
a crèsil. O outro era liso, tipo português, 
estava perfurado na têmpora esquerda, e não 
trazia forro. Tinham pertencido — informara 
o brigadeiro comandante ao oferecê-los ao 
ministro da guerra — a dois homens do ba- 
talhão do 28, gente dos arredores de Coim- 



DOIS CAPACETES 69 

bra, ágil, robusto, curtida do sol. Quem se- 
riam, na sua gloriosa obscuridade, esses 
heróis humildes? Com a voz embaciada de 
comoção, o general leu dois nomes num papel 
que lhe tremia nas mãos: Armando Correia, 
soldado n.° 503 da 4. a companhia de infante- 
ria 28; 1.° sargento do mesmo regimento, 
Ernesto Augusto dos Reis. Perante aqueles 
troféus de batalha, símbolos de uma nova 
Ilíada, em cujo frio metal resplandecia e 
chorava a alma da pátria, todos nós nos des- 
cobrimos respeitosamente, em silêncio. 

Desde então, empreguei todos os esforços 
para saber como ocorrera a morte dos dois 
soldados. O simples exame dos capacetes 
apenas nos permitiria concluir que se tra- 
tava de duas feridas do crâneo, não por esti- 
lhaço, mas por bala. O papel que os acom- 
panhava limitava-se à revelação seca de dois 
nomes. A carta do ministro nada mais dizia 
senão que esses dois homens tinham sido os 
primeiros soldados portugueses caídos glo- 
riosamente na terra da França. Fizemos 
conjecturas sobre conjecturas. A verdade só 
há pouco tempo a soube, na simplicidade 
épica dos seus pormenores, quando o pri- 
meiro oficial permissionário do 28 passou 
por Lisboa. Cada uma dessas mortes cons- 
titúe um episódio sensibilizado!*. Ambas 



70 ESPADAS E ROSAS 

realizam a expressão eloquente daquela bra- 
vura risonha, daquele quási inconsciente 
desprêso do perigo, daquela abnegação teme- 
rária e sublime que até hoje, desde que a 
primitiva gente hirsuta dos concelhos se 
bateu nas Navas-de--Tolosa, teem sido sem- 
pre as mais belas, as mais nobres, as mais 
altas virtudes guerreiras dos portugueses. 
Contam-se em poucas palavras esses dois 
pequenos poemas heróicos que recordam, na 
pura nitidez do seu mármore eterno, dois 
baixos-relevos gregos de batalha. Algumas 
unidades das tropas portuguesas, dos tonies, 
cujo uniforme de cinza dava ao longe a im- 
pressão de uma vaga névoa azulada, tinham 
ido ocupar, entre Armentières e La Bassée, 
as trincheiras da primeira linha. Gente tis- 
nada e ardente do meio-dia, criada para a 
vertigem impetuosa dos combates e para a 
alegria pagã do sol, os serranos mal podiam 
habituar-seà imobilidade triste de uma guerra 
de toupeiras, feita em buracos de terra, num 
clima brumoso e melancólico do norte. Pas- 
saram-se dias, semanas inteiras de nevoeiro, 
de frio, de enervamento, de lama. Uma bela 
manhã, no fundo de uma trincheira onde mal 
se adivinhava a luz, os soldados portugueses 
perceberam que lá fora — finalmente! — se 
desfizera a bruma e rompera o sol. Não 



DOIS CAPACETES 71 

houve mais contê-los, que não saíssem dos 
fojos, como os lobachos pequenos das serras 
beirôas depois da tempestade, a aquecer-se, 
a saltar, a uivar, a cantar, doirados pelo sol 
pardo da Flandres francesa, bêbados da ale- 
gria selvagem da luz, indiferentes à ameaça 
de morte que lhes passava a cada instante 
sobre a cabeça. Foi então que um deles, para 
sentir melhor nos olhos e na pele aquele 
clarão bemdito que tanto lhe lembrava a 
écloga cristã da sua terra, galgou a escarpa, 
alcançou o parapeito sem que pudessem 
detê-lo os camaradas, — e enorme, tranquilo, 
deslumbrado, o capacete na cabeça, o capote 
flutuando ao vento, avançou nas «terras-de- 
ninguêm» até à rede de arame farpado. Logo 
as metralhadoras alemãs crepitaram; estoi- 
raram os morteiros de trincheira; pelos pe- 
riscópios viu-se o vulto cinzento do soldado 
estremecer, vacilar, cair como um farrapo 
sobre as defesas de fio de ferro, e ficar de 
bruços, os braços estendidos, baloiçando. 
Estava morto? Estava ferido, apenas? A fuzi- 
laria continuava ; estalavam os troncos de ár- 
vore; o ar tremia, varejado de balas; nomea- 
dos para ir levantar o corpo, dois maqueiros 
entreolhavam-se, pálidos, imóveis. Era pre- 
ciso que alguém se sacrificasse ao piedoso 
dever de salvar a vida a um irmão de armas. 



72 ESPADAS K ROSAS 

— «Quem se oferece?» — inquiriu o oficial. 
Um sargento avançou, vivo, trigueiro, fran- 
zino: — «Pronto, meu alferes!» — Num re- 
lâmpago, emquanto um morteiro, explo- 
dindo, levantava uma nuvem de terra, subiu 
o talude, ganhou a explanada, correu, — su- 
bitamente estacou, rodopiou e caiu fulmi- 
nado. Todas as tentativas eram já inúteis. 
Uma rede de balas cortava o ar. A atmosfera 
scintilava. Rasas com as leiras lavradas, 
pacificamente, incólumes, as galinhas de uma 
herdade próxima picavam a terra. Só mais 
tarde, pela noite, foram arrastados para as 
trincheiras os dois cadáveres. E aí está como 
morreram, num dia luminoso da Flandres, o 
primeiro sargento e o primeiro soldado de 
Portugal. Os seus dois capacetes, empas- 
tados de sangue e furados de balas, não são 
hoje apenas dois troféus de batalha: são, 
mais do que isso, a expressão sagrada da- 
quela ância de liberdade e de sol, daquele 
espírito de abnegação e de sacrifício, que 
viveram sempre, através de oito séculos, rio 
coração de todos os portugueses. 



FRANK CRAIG 



Ontem, no chá da Marques, M. me Z. 
perguntou-me, angulosa, ligeira, masculina 
no seu admirável trotteur côr de enxofre: 

— Já viu a exposição do Frank Craig? 

Tive de confessar que não a tinha visto 
ainda. Sabia apenas que se abrira, na casa 
Bobone, uma exposição de trabalhos de um 
grande ilustrador inglês, mestre na pintura 
histórica e na anotação graciosa das elegân- 
cias modernas, e que esse artista notável, 
verdadeiro virtuose da guache, hospedado 
no palácio Monserrate, em Cintra, chegara 
havia pouco de Londres, no último período 
de uma tuberculose pulmonar. O atelier Bo- 
bone era perto de mais para que eu me ti- 
vesse lembrado de visitá-lo. Entretanto, pro- 
meti a M. me Z. que, logo que tomasse a 
minha chícara de chá, não deixaria de ir ad- 
mirar Frank Craig, o maravilhoso inglês 



74 ESPADAS B ROSAS 

que, como aquele jardineiro-artista de Nu- 
reham Gourtenay, quiz permitir-se o luxo 
intelectual de vir morrer sobre um canteiro 
de rosas. Quando eu, ao despedi r-me, lhe 
beijava a mão, ainda a minha querida amiga 
me repetia, flexuosa, metálica, mordente, 
cruzando a perna e baloiçando o corpo na 
penumbra baça da sala: 

— Você verá como êle faz bem mulheres ! 

Cinco minutos depois, eu entrava na ex- 
posição e recebia uma das mais nobres im- 
pressões de arte da minha vida. Não havia 
ninguém no atelier. Uma luz quieta e macia 
flutuava naquele interior de capela, onde a 
talha doirada das molduras, alinhada sobre o 
roda-pé de carvalho, dava, de perfil, a im- 
pressão fugitiva de um cadeirado capitular. 
Frank Graig tem ali, quando muito, trinta 
quadros, — óleos, aguarelas, guaches. Demo- 
radamente, estudei-os, analisei-os, senti-os, 
um a um. Grandes composições de história, 
cheias de energia e de movimento, que pare- 
cem cartões para a realização de frescos for- 
midáveis ; estudos de interiores modernos, 
onde passam figuras de uma elegância, de uma 
transparência, de uma espiritualidade que fa- 
zem de Frank Graig, como pintor de mu- 
lheres, um descendente de Reynolds e de 
Gainsborough, de Raeburn e de' Lawrence; 



FRANK CRAIG 75 

paisagens de árvores doiradas e de nevoeiros 
azuis, dando a impressão estranha do nosso 
campo e do nosso sol vistos através de uma 
luneta fumada. Mas foi, sobre tudo, o pintor 
de história que me impressionou. O severo 
sentimento do f antigo» e do «primitivo» é de 
tal modo intenso e exacto em Frank Craig, 
que muitas das suas figuras parecem arran- 
cadas à obra dos imaginários ornamentistas 
do século xv, descidas dentre os pinasios de 
chumbo da rosácea colorida de Canterbury, 
ou debruçadas, entre jambagens de oiro, nas 
iluminuras guerreiras das crónicas de Frois- 
sart ou de Commines. Mas a esse arcaísmo 
de visão e de maneira aliam-se a solidez, a 
força, o vigor, o movimento, o saboroso na- 
turalismo, a expressão flagrante de vida e 
de verdade que foram sempre o segredo da 
pintura inglesa, e que fazem de Mr. Craig o 
que ele fundamentalmente é: um ilustrador 
excepcional. Naquela luz e naquele silêncio 
de studio, olhei em volta a exposição. Aqui, 
num fundo sumptuoso de tapeçaria mudejar, 
sentada numa cadeira do século xv, uma fi- 
gura gótica de mulher, toda de branco, as 
mãos estilisadas como as flores~de-lís de uma 
auriflama rial, olha, vagamente, numa ati- 
tude de desdém e de rancor; além, outra 
mulher nobre, de negro, passa chorando en- 



76 ESPADAS E ROSAS 

tre homens de armas brutais, cujas bárbaras 
cotoveleiras de ferro lampejam sobre a carne 
dos braços mis; agora, uma cabeça de velha, 
amantada num véu negro de Borgonha, re- 
corda pelo esmalte, pela modelação, pelo vi- 
gor, um Mémling, um Gérard David, um 
Nuno Gonçalves; logo, sobre um enxeque- 
tado heráldico de sinoble e de prata, desfila 
uma teoria de jograis multicores que se di- 
riam surpreendidos numa iluminura do Mu- 
seu Britânico, — um equilibrando na ponta 
do dedo uma pluma de pavão, outro condu- 
zindo um urso, o terceiro, caprípede, corni- 
cabro, montado como Xântias numa jumenta 
branca, o último enorme, obeso, espécie de 
Sileno embrulhado na murça vermelha de 
doutor, a tocar gaita de foles; por um mo- 
mento, os nossos olhos repousam numa fi- 
gura de freira carmelita, expressão calma 
de renúncia, de insensibilidade, de imobi- 
lidade, que lê Fray Juan de la Cruz na 
sombra violeta de um claustro; ao fundo, sur- 
ge-nos a mais assombrosa tela de Frank 
Craig, Confissão, obra de um inquietante po- 
der dramático, de uma sombria e comunica- 
tiva eloquência, em que um padre dominicano 
robusto, quadrado, interrogativo, os braços 
estendidos sobre a tapeçaria de Flandres que 
recobre a mesa, ouve de confissão um esco- 



FRANK CRA1G 77 

lar de face glabra e de roupa negra talar, 
cujos pés, calçados de sapatos polacos pon- 
teagudos, parecem tremer no lajedo frio do 
chão. Toda essa multidão de vitral e de Li- 
oro-de-Horas agita-se, vive, sente, move-se, 
fala em volta de nós; interessa-nos pela vio- 
lência do seu drama humano; prende-nos 
pela persuasiva verdade das suas atitudes, 
das suas expressões, dos seus gestos ; co- 
munica-nos a emoção religiosa do passado, 
— e não é sem uma desconcertadora surpresa 
que nós transitamos, do Frank Craig pintor 
de história, para o Frank Craig pintor de 
elegâncias contemporâneas; não é sem um 
estranho encanto que o vemos, nas suas in- 
comparáveis monocromias, dar-nos a graça 
ondulante e ligeira de Lady Cosmo, a subtil 
formosura das spinsters, toda a espirituali- 
dade transparente e delicada das sedas, dos 
tules, das cassas, das musselinas, a distin- 
ção Saint James's Street dos interiores mo- 
dernos, — bancos de bar, mesas de bridge, 
áleas de jardim, soluços de Schumann, phlox 
côr de rosa do Moor Park — e, por todos os 
cantos, em todas as telas, como uma obses- 
são, a Colombina eterna, a Pierrette imor- 
tal, loira, branca, dormente, translúcida, 
misteriosa, vôo e espuma, névoa e flor, obri- 
gando-me a repetir, como M. me Z., deslum- 



78 ESPADAS E ROSAS 

brado, quási fatigado de beleza, de côr, de 
ritmo, de sedução: 

— Na verdade, como êle pinta bem mu- 
lheres! 

Levei duas horas a vêr trinta quadros. 
Quando saí da exposição de Frank Craig, 
acompanhou-me um sentimento de profunda 
tristeza. Pensei que todas aquelas maravi- 
lhas eram a última obra de um inglês doente, 
que poucos meses poderia ter de vida, e que, 
talvez àquela hora, embalado pelo perfume 
das rosas de Monserrate, tão conhecidas de 
Byron, se estivesse despedindo, entre lágri- 
mas, da glória suprema de viver. . . 



A ARTE DE SER FELIZ 



Há dias, quando fazíamos, com Miss Ro- 
semary, a volta de Cintra para o Estoril, re- 
bentou uma câmara de ar. Outro automóvel, 
que vinha em sentido contrário, parou para 
nos prestar auxílio. Conduzia um homem e 
uma senhora, cincoenta anos talvez, embru- 
lhados em grandes casacos de gabardine côr 
de folha morta, — naturalmente marido e 
mulher. Iam de mãos dadas, ela um pouco 
reclinada sobre o ombro dele, um sorriso 
nos lábios, um plaid sobre os joelhos. Miss 
Rosemary, que os conhecia, agradeceu-lhes 
e apresentou-me. Trocámos simples expres- 
sões de cumprimento, remcdiou-se a panne, 
despedimo-nos, e, numa atmosfera faiscante 
de poeira e de sol, os dois automóveis puze- 
ram-se a caminho. 

— São noivos? — perguntei eu á encan- 
tadora inglesa que me acompanhava. 



80 ESPADAS E ROSAS 

— Não. Já teem um filho de quási trinta 
anos. 

Sorri-me. Miss Rosemary compreendeu 
o pensamento que o meu sorriso escondia, 
e disse-me, aconchegando ao pescoço rosado 
de loira o seu maravilhoso renard argente: 

— Vocês, os portugueses, teem uma noção 
detestável do casamento. Não compreendem 
uma carícia, um movimento de ternura en- 
tre mulher e marido, senão nos primeiros 
meses da lua de mel. Depois, acham tudo 
ridículo, — até um aperto de mão! 

íamos contornando o cabo da Roca. Dis- 
traí-me a olhar o oceano, a crista glauca e 
translúcida das vagas, o fumo de um navio ao 
longe, a espuma que cachoava, scintilando, 
de encontro às rochas abruptas cortadas de 
nódoas vermelhas de schistos. Quando dei 
por mim, estávamos no Estoril. Fomos to- 
mar uma chícara de chá ao Estrade. Um 
quarto de hora depois, no jardim de inverno 
do hotel, baloiçando-se no seu cadeirão 
Brougham, Miss Rosemary contava-me a 
vida dos dois felizes mortais que tínhamos 
encontrado no caminho e que, a trinta anos 
do contracto matrimonial (o único em que 
não se exige que as partes contratantes 
estejam no pleno uso das suas faculdades 
mentais), conservavam ainda a mesma ter- 



A ARTE DE SER FELIZ 81 

nura, as mesmas ilusões, o mesmo enlevo 
amoroso dos seus primeiros dias de ca- 
sados. 

Ela, muito interessante, era filha única 
dos barões de V., mas não usava o título. 
Ele, educado na Inglaterra, tinha uma situa- 
ção de destaque na alta finança. Conhece- 
ram-se onde, em geral, se conhecem todos 
os noivos elegantes — num baile. Duas sema- 
nas depois de apresentados, êle pediu-a, 
despediu-se até ao dia do casamento — daí a 
três meses — e partiu para Londres. Só se 
tornaram a ver no próprio dia em que se 
casaram, às 7 horas, na igreja da Pena, 
numa terrível manhã de nevoeiro. De volta 
a casa, quando os pais procuraram os noi- 
vos, não os encontraram. Tinham fugido 
na mesma carruagem que os trouxera da 
igreja, e, durante uns poucos de meses, 
ninguém soube mais deles. «Vamos isolar- 
nos como todos os animais que amam — 
deixou êle escrito num bilhete a lápis — para 
não aturar papás, nem mamãs, nem visitas 
importunas». Quando regressaram a Lisboa, 
foram habitar um palacete de dois andares, 
a S. Sebastião da Pedreira, montado com 
todas as elegâncias modernas, móveis de 
Dampt e de Dufrêne, ferros forjados de Bra- 
quemond, e um admirável tecto de Albert 

6 



82 ESPADAS E ROSAS 

Besnard, — três Amores dançando numa 
chuva de rosas. Ele instalou-se no rés-do- 
chão. Ela, no primeiro andar. Cada um tinha 
o seu quarto-de-cama, a sua casa-de-banho, 
o seu quarto-de-vestir, o seu luncheon-room 
independente. Dormiam sempre sós; janta- 
vam sempre juntos; uns dias almoçava ela 
nos aposentos dele, outros dias êle nos apo- 
sentos dela. Não se tratavam por tu. Manti- 
nham, intacto, o culto verdadeiramente inglês 
da família, — reduzindo ao mínimo todos os 
inconvenientes da familiaridade. Essa tor- 
tura a que um francês de espírito chamou 
«1'étérnité du tête-à-tête», não existia para 
eles. Todos os seus actos, todos os seus 
gestos, todos os seus pensamentos obede- 
ciam à preocupação de não diminuir, pela 
demasiada aproximação, pelas revelações 
excessivamente materiais da sua vida con- 
jugal, a dignidade, a idealidade do seu senti- 
mento amoroso. Acima de todas as loucuras, 
de todos os entusiasmos da paixão, coloca- 
vam o respeito de si próprios e do seu pró- 
prio afecto. Conseguiram, por esse instinto 
da felicidade, que é o verdadeiro segredo 
das pessoas felizes, o milagre de viver como 
dois noivos, entregues a todos os arrebata- 
mentos de um grande amor, sem conhecerem 
as excessivas, as desagradáveis, as grossei- 



A ARTE DE SER FELIZ 83 

ras intimidades, que conduzem, inevitavel- 
mente, ao fastio e à desilusão. Enobreceram 
tanto a vida, mostraram-se sempre, um ao 
outro, tão superiores e tão perfeitos, que 
nunca deixaram de admirar-se, de respei- 
tar-se — e, por conseguinte, de amar-se com 
a mesma delicada e tranquila emoção. Nem 
os primeiros filhos perturbaram a sua exis- 
tência de noivos eternos. O segundo andar 
estava já mobilado — um Jémont branco e 
oiro, cheio de berços — á espera dos bebés 
e das amas. Um, dois meses antes dos pe- 
quenitos nascerem, ele ia viajar sozinho — 
França, Itália, Inglaterra — , e só voltava 
um, dois meses depois deles terem nascido, 
para recomeçar a sua permanente lua de 
mel com uma mulher que, aos seus olhos, 
nunca deixava de ser bela e de viver nessa 
vaga atmosfera luminosa de idealismo e de 
mistério, sem a qual não existem, nem os 
grandes heroísmos, nem as grandes pai- 
xões. 

E Miss Rosemary concluiu, recostando a 
sua linda cabeça de Botticelli sobre a almo- 
fada vermelha do cadeirão: 

— Sabe você ? A maior parte da gente é 
infeliz no casamento, não porque não possa, 
mas porque não sabe ser feliz. A felicidade 
é qualquer coisa que depende mais de nós 



84 ESPADAS E ROSAS 

mesmos, do que das contingências e das 
eventualidades da vida. E' necessário cola- 
borar com o destino, meu amigo, e aprender 
a viver como se aprende a ler, a fazer renda 
inglesa ou a jogar o foot-ball. «La vie est un 
mêtier qiCil faiit se donner la peine d'appren- 
dre*. A felicidade é, sobre tudo, uma questão 
de educação. Você nunca aprendeu a ser 
feliz ? 

— Há muito tempo, minha querida amiga. 
Mas já me esqueci. 



AUGUSTO ROSA 



Vou falar-lhes da última doença e da 
morte de Augusto Rosa. 

Não infligiria, de certo, ao meu espírito, a 
tortura de recordar essa tremenda página de 
agonia, se o glorioso artista, que tão nobre 
e tão bela soube tornar a sua vida, não ti- 
vesse convertido numa grande lição de be- 
leza a sua própria morte. Sou daqueles que 
entendem (e com íntima convicção!) que a 
doença, como todas as misérias, tem o seu 
pudor, e que, sobre tudo tratando-se de ho- 
mens eminentes, se deve envolver na pie- 
dade do silêncio tudo quanto o espectáculo 
da morte tem de deprimente para a digni- 
dade humana. Mas Augusto Rosa foi uma 
excepção. Augusto Rosa pertenceu a essa 
rara estirpe de criaturas que possuem o con- 
dão de elevar e de enobrecer tudo aquilo que 
as toca, e que, ou calcem as sandálias doi- 



86 ESPADAS E ROSAS 

radas de Alcibíades, ou vistam a casaca ver- 
melha de Lauzun, ou atem a gravata inve- 
rosímil de George Brummel squire, parecem 
criadas pela Providência para, de tempos a 
tempos, com o seu sorriso frio, ensinarem o 
resto da humanidade a estilisar a vida e a 
encher de beleza a dôr e a morte. O grande 
artista foi, na sua máxima expressão e até 
ao seu último alento, — um elegante. Soube, 
como Dorian Grey, «viver em plena arte». 
Conseguiu, como Hedda Gabler, «morrer em 
plena beleza». 

E, entretanto, Augusto Rosa sucumbiu a 
uma doença horrível: um cancro no pulmão. 
Tinha-se operado, hú dezasete anos, de uma 
nodosidade cancerosa sub-cutânea da aza do 
nariz; a neoplasia toráxica, que o vitimou 
agora, deve ter sido uma metástase ganglio- 
nar, mediastínica, que se desenvolveu len- 
tamente, aderiu à pleura, invadiu o paren- 
quima pulmonar, — e produziu, há de haver 
cinco meses, os primeiros sintomas graves 
de compressão e as primeiras hemoptises. O 
grande artista teve o pressentimento de que 
seria aquela a sua último doença; mos nunca 
soube, nem suspeitou sequer, até ao último 
momento, a-pesar de pertencer a uma dinas- 
tia de cancerosos, que se tratava do mesmo 
mal a que tinham sucumbido seu pai, sua 



AUGUSTO ROSA 87 

mãe, e dois dos seus avós. Vi-o em seguida 
à primeira crise e impressionou-me o seu 
aspecto, a sua côr, essa palidez baça de por- 
celana que os médicos conhecem tão bem, a 
face pendente, o lábio violáceo e descaído, a 
sua bela cabeça de romano trabalhada já 
de uma repentina senectude, que lhe endure- 
cia os traços, que lhe avivava os relevos 
ósseos, e que, não sei porquê, me fez pen- 
sar em certas águas-fortes de Dúrer. Dis- 
se-me que vivia artificialmente de injecções 
de morfina; que o atormentavam umas do- 
res reumatóides no braço esquerdo; e con- 
cluiu, deixando cair o monóculo, num gesto 
de acabrunhamento e de desânimo: — «Este 
coração, este coração...» Fiquei a olhá-lo, 
emquanto êle se afastava na névoa luminosa 
da tarde, elegante ainda a-pesar do visível 
esforço dos seus movimentos, um completo 
inglês, azul escuro, colado ao corpo, um 
pardessus no braço, umas luvas de camurça 
branca amarrotadas sobre a volta de oiro da 
bengala. Lembrei-me da velhice, cheia de 
distinção, do Visconde d'Orsay, e senti, ao 
vê-lo descer a rua, querido, admirado, cor- 
tejado, que Augusto Rosa se despedia vo- 
luptuosamente da vida e que era aquele o 
seu último passeio. Assim foi. Daí por dian- 
te, o grande actor raras vezes saiu, sempre 



O» ESPADAS E ROSAS 

de carruagem, embrulhado num plaide acom- 
panhado de sua esposa. As crises espasmó- 
dicas repetiam-se ; uma tosse seca, quintosa, 
coqueluchóide, atormentava-o; os acessos 
de dispneia, cada vez mais frequentes, só 
cediam à morfina; mas Augusto Rosa con- 
tinuava a abrir os seus salões, a receber os 
seus amigos, e, às vezes com o sofrimento a 
pintar-se-lhe na cara, sorria, conversava, ro- 
deava-se de arte, de alegria, de esplendor, de 
juventude, procurava (com que dolorosa evi- 
dência!) corrigir pelo culto, cada vez maior, 
da sua elegância pessoal, as devastações im- 
placáveis da doença e da velhice. Parece que 
o estou vendo ainda, assentado num pequeno 
sofá Luís XVI, ao fundo do salão, rodeado 
de almofadas, a cabeça na atitude tão fina e 
tão espiritual em que a surpreendeu o már- 
more de Teixeira Lopes, os olhos mortiços, 
a luz a encher-lhe de dedadas doiradas a 
palidez inquietante da face e das mãos. Lia ; 
recitava as obras-primas de todos os poetas; 
versava com os seus amigos questões de es- 
tética geral; improvisava serões literários; 
a sua voz potente, pastosa, magnífica, de uma 
sumptuosidade litúrgica, declamava Camões 
e Petrarca, Ronsard e Gil Vicente, — e, á 
medida que ôle próprio se ouvia, a fisionomia 
animava-se-lhe, resplandeciam-lhe os olhos, 



AUGUSTO ROSA 89 

avivava-se o traço imperioso do seu nariz 
Bourbon, e a sua trágica invalidez erguia-se 
ainda na ilusão da glória e do triunfo. Mas, 
dentro de pouco tempo, nem mesmo essa 
ilusão caridosa a doença lhe permitiu. Os 
sintomas nervosos de compressão agrava- 
ram-se; às lesões irritativas do recorrente, 
que tinham determinado terríveis espasmos 
da glote, sucederam as lesões de destruição; 
produziu-se a paralisia das cordas vocais; 
veio a disfonia, — e o grande artista, que vi- 
vera do esplendor máximo da palavra, em 
cuja boca o verbo dos poetas se tornara 
alma, luz, côr, sorriso, lágrima, emoção, 
grandeza, encontrou-se sem voz, sofreu a 
suprema agonia moral de vôr toda a sua 
glória reduzida a um murmúrio apagado, e, 
por momentos, sucumbiu. Restava-lhe a be- 
leza, a elegância, essa flor ateniense de dis- 
tinção e de graça que, pela vida adiante, 
fora uma das razões do seu sucesso, e que 
Augusto Rosa soube cultivar, até à morte, 
com o escrúpulo voluptuoso de um grego da 
decadência. Já de cama, recostado em almo- 
fadões, vestido de um pijama de setim preto, 
um pequeno espelho de prata na mão, levava 
metade do dia a fazer massagens na face, a 
frisar os cabelos, a polir as unhas, a esco- 
lher jóias como um adolescente. Não recebia 



90 ESPADAS E ROSAS 

ninguém, nem o seu amigo mais íntimo, sem 
estar, como êle próprio dizia sorrindo, — 
«en beauté». A' semelhança de Lysícrato, 
que, para receber a morte, mandou doirar o 
linho da sua túnica, Augusto Rosa, antes de 
morrer, preocupou-se ainda com a beleza 
de um efeito de luz sobre o setim que o vestia, 
e pediu que lhe lessem versos. Depois, a 
cabeça pendeu, o nariz afilou-se mais, entrou 
num breve coma, arfou num Cheyne-Stokes 
sereno, e extinguiu-se, tranquilamente, pela 
madrugada. Tinha morrido como vivera, — 
com a dignidade de um esteta. 



AS IDEAS DE FAUSTO ARANHA 



Eu tinha ouvido dizer que o dr. Fausto 
Aranha, meu colega pela Faculdade de Medi- 
cina de Lisboa, estava doido. Foi, portanto, 
com surpresa e, até certo ponto, com inquie- 
tação, que eu ontem o encontrei no Palace 
Club, afundado num dos Maples verdes da 
sala de leitura, com um número do Times 
sobre os joelhos e uma chícara de chá ao 
lado. Assim que me viu, veio efusivamente 
para mim, agitando os braços enormes, num 
completo gris Oxford com grandes botões 
pretos, que lhe dava o vago aspecto de um 
Pierrot: 

— Olá! Como está você? 

Com franqueza, não notei na fisionomia 
do meu colega a menor perturbação. O mes- 
mo olhar vivo, a mesma face wildeana onde 
scintilava a aresta de vidro de um monóculo, 
a mesma elegância um pouco disparatada, 



92 ESPADAS E ROSAS 

as mesmas atitudes angulosas, oblíquas, pa- 
radoxais como o seu espírito. Sentei-me 
junto dele. Passei os olhos por um jornal. 
Daí a pouco falávamos da guerra. Uma luz 
tranquila, coada pelos espessos estores de 
seda verde, enchia de uma penumbra doirada 
aquele interior holandês. Um sujeito de 
idade, calvo, distinto, grave, dormia, meio 
oculto numa das poltronas. De repente, o 
dr. Fausto Aranha arremessou o Times, ati- 
rou uma perna sobre o braço da cadeira e 
declarou-me, categoricamente: 

— Sabe você quem fez a guerra ? Os ve- 
lhos. E sabe você em proveito de quê? Da 
velhice. 

— Da velhice? 

— Siga o meu raciocínio, e verá que con- 
corda comigo. Nós estamos, porventura, em 
presença de uma guerra de raças ? Não. Não 
chegou ainda a grande calamidade prevista 
por Penka e por Fouillé, a guerra dos dólico- 
loiros com os bráqui-trigueiros, dos crâneos 
compridos com os crâneos curtos, em que a 
humanidade inteira se exterminará por um 
ou dois graus de índice-cefálico a mais ou a 
menos. Vemos, pelo contrário, um conjunto 
heteróclito de raças — germânicos, celto-es- 
lavos, mediterrâneos, negróides, amarelos — 
combatendo em excelente harmonia o bloco 



AS IDEAS DE FAUSTO ARANHA 93 

áustro-germano-turco. Também não estamos 
em presença de uma guerra de povos. A 
maior parte dos povos empenhados na luta 
não se batem por ódios históricos, nem em 
nome de hostilidades tradicionais e heredi- 
tárias ; massacram-se a frio, por disciplina, 
por dever moral, metodicamente, automati- 
camente, sem o entusiasmo sagrado, sem o 
sentimento profundo da guerra. Também 
não estamos em presença — inútil acentuá-lo 
— de uma guerra de religiões. Que hipótese 
resta ? A de uma guerra de interesses, — não 
já, evidentemente, de interesses dinásticos e 
familiares, como na Europa dos séculos xv 
e xvi, mas de interesses dos sindicatos do 
poder, de interesses de ordem comercial, de 
ordem industrial, de ordem política, de or- 
dem financeira, sob a etiqueta de vagas 
abstracções filosóficas — direito, liberdade, 
justiça. Por conseguinte, meu amigo, não é 
a guerra das raças, nem a guerra dos povos, 
nem a guerra das religiões, nem a guerra 
dos reis: é a guerra das chancelarias. Quem 
verdadeiramente se encontra em guerra não 
são os ingleses, nem os italianos, nem os 
alemães, nem os franceses, nem os ame- 
ricanos, nem os austríacos: são os gabinetes 
de Londres, de Paris, de Roma, de Berlim, 
de Viena, de Washington. Quem compõe 



94 ESPADAS E ROSAS 

esses gabinetes? Velhos. O poder está, por 
toda a parte, entregue à decrepitude. Que 
sTio as chancelarias modernas? Oligarquias 
de velhos ao serviço de sindicatos de velhos. 
Que são, fundamentalmente, quási todos os 
Estados europeus, monárquicos ou republi- 
canos? Gerontocracias. Os destinos do mun- 
do repousam hoje nas mãos senis de três 
homens: Lloyd George, Hindenburgo, Clé- 
menceau. Foram os velhos que fizeram a 
guerra; são os velhos que a manteem; — 
mas são os novos que se batem e morrem. 
A grande revolução de amanhã não será 
apenas do pobre contra o rico; do operário 
contra o patrão; será também do moço con- 
tra o velho — porque hâ-de ser, sob todas as 
formas, a revolução do oprimido contra o 
opressor. Percebeu você? 

O chasseur veio abrir a luz eléctrica. Uma 
rapariga loira espreitou à porta. O sujeito 
de idade, que dormia na poltrona quando eu 
entrei, tinha agora os olhos fixos em nós. 
Não me atrevi a fazer a mínima objecção ás 
ideas do meu colega, cujo estado mental 
começava, de facto, a inspirar-me dúvidas. 
Nervosamente, o dr. Fausto Aranha acendeu 
um cigarro e continuou: 

— Mas o que ô odioso, é que são pre- 
cisamente os velhos, que desencadearam a 



AS 1DEAS DE FAUSTO ARANHA 95 

guerra, aqueles que mais teem a lucrar com 
ela. Em quatro anos, a mortalidade, verda- 
deiramente gigantesca nos países em luta, 
perturbou a estrutura demográfica das popu- 
lações. Não se modificou de maneira sensí- 
vel o número de crianças e de velhos; dimi- 
nuiu de muitas dezenas de milhões o número 
dos homens válidos. Quer dizer: a percenta- 
gem da velhice nas nações em guerra tor- 
nou-se formidável. Até que a hipernatalidade 
compense este desequilíbrio populacional, 
os velhos gosarão de todos os benefícios 
provenientes da diminuição de concorrência 
das idades viris; toda a vida será invadida, 
infiltrada, minada de velhos, e as geronto- 
cracias, apoiadas agora na força de uma maio- 
ria compacta, governarão ainda mais discre- 
cionáriamente o mundo. Dirá você que a 
velhice não resiste à vida intensa que se lhe 
prepara; que não há, atrás dela, gerações 
válidas que vão, por seu turno, envelhe- 
cendo; e que, por conseguinte, em pouco 
tempo, a percentagem dos senis, momenta- 
neamente acrescida, baixará. Engano. E' que 
você não conta com a maior, com a mais 
inesperada vantagem que a guerra trouxe 
aos velhos. A guerra, meu amigo, produziu 
condições e oportunidades que permitem 
assegurar a longevidade humana. Os velhos, 



96 ESPADAS E ROSAS 

cora os tecidos rejuvenescidos, poderão com- 
pletar o seu ciclo vital e morrer, como pre- 
tendia Buffon, com cento e muitos anos. 
Está resolvido pela guerra o mais impres- 
sionante de todos os problemas da ortobiose. 
Gomo? Com o elixir de oiro de Roger Bacon, 
com o grão filosofal do bizantino Teismu- 
sin, com o sirmaísmo dos Faraós, com os 
conselhos de Luigi Cornaro, com as fanta- 
sias de Huffeland, com os fermentos lácticos 
de Metchnickoff? Não. Apenas com polpas 
frescas de órgãos e de tecidos humanos. 
Você conhece, como eu, o mecanismo da 
acção dos soros hemolíticos. Sabe que, injec- 
tando num cavalo sangue humano, o soro 
sanguíneo do animal preparado adquire a 
propriedade de dissolver, de destruir os gló- 
bulos do sangue do homem, e, em quantida- 
des mínimas (tal qual como a digitalina para 
o coração) a propriedade contrária de os 
revigorar. O mesmo que se dá com os gló- 
bulos do sangue, dá-se com os elementos 
nobres de todos os nossos tecidos e órgãos 
— células cerebrais, cardíacas, hepáticas, 
renais--que, introduzidas na circulação de um 
animal qualquer, provocam a formação de um 
ambocéptor, de um anticorpo específico des- 
truidor (ou, em doses mínimas, revigorador) 
do cérebro, do coração, do fígado, do rim do 



AS IDEAS DE FAUSTO ARANHA 97 

homem, — isto é, a produção de um soro capaz 
de prolongar a vida humana. Porque não se 
tinha preparado ainda esse soro? Porque, 
não sendo fácil tirar do corpo humano vivo 
pedaços de órgãos, pelo menos com a sim- 
plicidade com que se lhe tiram centímetros 
cúbicos de sangue, e não se encontrando te- 
cidos sãos em cadáveres, a não ser na hipó- 
tese de morte violenta de organismos moços 
e vigorosos, e imediatamente post-mortem, 
— só uma grande carnificina, como a guerra 
actual, poderia fornecer matérias-primas 
frescas e abundantes para a fabricação de 
um soro regenerador da velhice. Em conclu- 
são : a vida dos velhos será prolongada ; a 
percentagem de velhos, em vez de diminuir, 
crescerá sempre ; cada vez mais o mundo 
será irremediavelmente dominado pela ve- 
lhice, e, se uma revolução dos moços se 
não produzir, a humanidade regressará às 
formas bíblicas e patriarcais. Por isso eu 
lhe disse, meu excelente colega: esta guerra 
foi inventada por um sindicato interna- 
cional de velhos, a favor da decrepitude uni- 
versal. 

Despedimo-nos. Saí do Palace, intrigado. 
Desde ontem que pergunto a mim mesmo 
se o dr. Fausto Aranha será, realmente, um 
louco. 



O RATO E O VITRAL 



Há tempo, fui visitar a Sé de ***. Rece- 
beu-me, com a mais acolhedora bonomia, o 
cónego Aires, um velho amável, solícito, 
erudito, cumprimentador, que exercia no ca- 
bido as funções de fabriqueiro e que andava 

— disse-me êle — traduzindo as elegias de 
Tibullo. As razões de carácter oficial que me 
levavam a penetrar no antigo templo — o 
exame dos documentos do cartório capitular 

— pareciam não ter disposto Monsenhor Ai- 
res muito desagradávelmente a meu respeito. 
Quando atravessávamos a sacristia, eriçada 
de andaimes e de escadotes, o douto cónego 
informou-me de que a Igreja estava, havia 
dois dias, fechada ao culto, por que iam fi- 
nalmente principiar as obras cuja realização 
êle tivera a honra de propor a sua ex. a re- 
verendíssima. Demorei-me um instante a 
admirar essa vasta quadra, com a sua abó- 



100 ESPADAS E ROSAS 

bada normanda sexpartida e lavrada nas ner- 
vuras dos terciarões, a sua tábua flamenga 
do século xv (talvez de Gérard David) encas- 
trada no espaldar de talha doirada do arcaz 
maior, e — o que era na verdade magnífico 

— o seu rosetão gótico, cuja vidraça colorida, 
na armadura grosseira dos pinásios de chum- 
bo, vinha, batida das labaredas do sol, pro- 
jectar-se nitidamente no chão. Monsenhor 
não se esqueceu de fazer-me a história desse 
vitral, velho de quatro séculos, onde, segun- 
do a opinião do bispo D. Diogo Ortiz, estava 
reproduzido um dos evangelistas da rosácea 
multilobada de Toledo, palpitante ainda do 
génio cristão de Petrus Petri. Com efeito, 
perfilada de negro, no caixilho molíbdico 
irregular do rosetão, a figura de um velho res- 
plandecia, com a sua barba cinzenta, a sua 
face pálida, o seu pallium roxo, um clarão 
fulvo de auréola a circundá-lo como a certos 
apóstolos iluminados no Psaltério de S. Luís, 

— e, hierática, enorme, chamejante, ia alon- 
gar-se projectada no lajedo da sacristia, 
forma humana impalpável exalando uma 
emanarão de oiro fluido, e scintilando, fla- 
mejando, irisando-se em todas as cores do 
espectro solar. Evidentemente — creio que 
foi Ruskin que o disse — a beleza maravi- 
lhosa dos vitrais é mais a obra da luz, do que 



O RATO B O VITRAL 101 

8 obra dos homens. Demorámo-nos um mo- 
mento ainda. Admirámos mais uma vez a 
velha tábua flamenga, decerto escola de Mém- 
ling, onde uns meninos nús brincavam sobre 
uma almofada de rico vermelho, — e segui- 
mos, Monsenhor Aires e eu, a caminho do 
cartório. Foi incalculável o número de de- 
graus que tivemos de subir. Infelizmente, 
o cónego claviculário não deixara as chaves 
dos armários grandes, e eu vi-me obrigado 
a transferir o exame dos pergaminhos para 
o dia seguinte. Descemos. Quando entráva- 
mos de novo na sacristia, Monsenhor dete- 
ve-me, travou-me do braço, e apontou-me 
um pequenino rato que marinhava, com des- 
treza, pelo bojo entalhado do arcaz : 

— E' isto. Desde que fechámos a Igreja, 
já andam por aqui de dia. . . 

Ficámos ambos, na soleira da porta, ob- 
servando os movimentos do animal. Era um 
musurídio vulgar, ligeiro, esperto, ágil, 
nervoso, dando a impressão de uma bola de 
azougue dentro de um pedaço de feltro, um fo- 
cinho agudo e hirsuto, umas patas curtas, 
rosadas, com qualquer coisa de humano, e a 
expressão confusa de um deslumbramento 
nos olhitos redondos de roedor habituado ao 
silêncio e à escuridão. Subiu, empoleirou-se 
na cimalha do arcaz, e ficou um momento, 



102 ESPADAS E ROSAS 

imóvel, espreitando para baixo numa ati- 
tude interrogativa e inteligente. Não foi di- 
fícil perceber que o pequeno rato — para o 
qual só eram familiares os aspectos nocturnos 
da Sé — olhava surpreendido a projecção lu- 
minosa do vitral da sacristia. Que seria 
aquilo? Uma imagem humana, talvez um 
cadáver susceptível de ser roído, devorado 
voluptuosamente por todo o capítulo solene 
dos ratos da velha catedral, — em todo o caso 
uma forma inerte de que não seria perigoso 
acercar-se. O rato desceu ; ganhou o chão ; 
pouco a pouco, cautelosamente, foi-se apro- 
ximando da mancha colorida da rosácea, 
donde parecia elevar-se uma poeira metálica 
refulgente; atingiu o contorno oval da pro- 
jecção; entrou, hesitando, no foco luminoso 
que produzia aquela maravilha de côr; er- 
gueu-se um momento nas patas trazeiras, 
— e, de repente, como se uma vibração elé- 
ctrica lhe percorresse o dorso, começou a 
correr em todas as direcções, desorientado, 
inquieto, tacteando, farejando, afocinhando 
a pedra. Não encontrava coisa alguma do 
que vira lá de cima, na siía miragem des- 
lumbrante. Era sempre o mesmo lajedo, — 
menos frio, talvez, por que êle sentia o calor 
do sol na polpa rosada das patas; e a própria 
côr, que criara no seu cérebro rudimentar 



O RATO E O VITRAL 103 

de mus oulgaris a ilusão magnífica do um fes- 
tim, não a percebia, não a distinguia agora, 
mergulhado como estava, ele próprio, no 
clarão que o iludira. De novo o pobre animal 
subiu ao arcaz; de novo desceu, movendo o 
focinho ancioso, fitando as orelhas, correndo, 
procurando, numa inquietação, a imagem 
que tão distintamente via a distancia e que 
desaparecia para êle no momento em que a 
alcançava. O velho cónego e eu, que seguía- 
mos em silêncio este espectáculo inesperado 
e singular, entreolhámo-nos, na comunhão 
do mesmo pensamento. Afinal, aquele rato 

— profunda filosofia das coisas mínimas! 

— éramos todos nós. Na aflitiva anciedade 
desse pequeno animal estava, com os seus 
sonhos insatisfeitos, com os seus ideais ina- 
tingíveis, com as suas ilusões desesperado- 
ras, todo o drama da alma humana. Gomo o 
reflexo desse vitral gótico, o bem que se de- 
seja só existe emquanto o vemos de longe; e 
toda a felicidade sonhada desaparece para 
nós no momento em que julgamos possuí-la. 
Monsenhor Aires deu-me o braço, e já â 
porta da Sé, cobrindo com o chapeirão a ca- 
beça branca e lisa como um solidéu de prata, 
repetia-me ainda: 

— Escreva o apólogo do rato e do vitral. 
Olhe que aquilo, meu caro senhor, é a vida ! 



OS BÁRBAROS 



Vieram servir-nos o chá. O moço capi- 
tão ••*, recêm-chegado da Flandres, atirou o 
stick, descalçou as luvas, e emquanto as chí- 
caras fumegavam, continuou a contar-me 
as suas impressões da guerra: 

— O capacete dos boches? Ah, meu exce- 
lente amigo ! Não sei quem foi que lhe cha- 
mou o «símbolo da regressão mental do 
povo alemão». O que posso afirmar-lhe é 
que aquele capacete estreito de sola, curto, 
braquióide, onde não cabe um crâneo portu- 
guês, armado de um formidável espigão de 
ferro e produzindo na sombra o perfil bárbaro 
do casco de bronze de um cimbro ou de um 
teutão, constitúe a expressão perfeita da psi- 
cologia do prussiano moderno. Já mesmo 
tive dois ou três nas mãos. Sabe quando? 
Na noite de 1 de março do ano passado, — 
precisamente quando se realizou o primeiro 



106 ESPADAS E ROSAS 

raid mais sério dos alemães sobre o sector 
português de Neuve-Chapelle. Creio que a 
notícia desse raid e da bravura com que nós 
o repelimos, não chegou cá. Ou, se chegou, 
o governo sepultou-a no silêncio. Mas eu lhe 
conto como foi. Nós, batalhão de infanteria 4, 
ocupávamos na frente britânica um pequeno 
sector em terreno húmido, pantanoso, onde 
não era possível abrir trincheiras, e onde, 
por conseguinte, todos os trabalhos de pro- 
tecção se reduziram a um sistema exterior 
de defezas em superfície, organizado com 
sacos de terra e sem a menor resistência 
contra um violento bombardeamento de des- 
truição. Na nossa frente, os alemães manti- 
nham-se numa posição magnífica, — a crista 
de Aubers. Havia já oito a dez dias que nós 
notávamos uma certa efervescência nas 
linhas boches ; começávamos a viver na ten- 
são de nervos das grandes expectativas ; 
mas os ventos de oeste, contrários ao ini- 
migo, lufadas de gelo que secavam a lama 
debaixo das rodas dos nossos canhões e nos 
defendiam dos gazes asfixiantes melhor do 
que todas as máscaras e todos os capuzes, 
davam-nos ainda a esperança de poder dor- 
mir tranquilos nas noites mais próximas. 
Não sucedeu, porém, assim. Logo na noite 
de 1 para 2 de março, a irrupção alemã, pre- 



OS BÁRBAROS 107 

cedida classicamente de uma larga barragem, 
deu-se ao mesmo tempo em vários pontos 
da linha britânica — Saint-Quentin, Hagi- 
court, Neuve-Chapelle, Passchendaele — e 
nós, portugueses, tivemos a honra e a sorte 
de aguentar ali, nas margens do Lys, em 
pleno pântano, em plena treva, quási a peito 
descoberto, varridos de metralha, a marte- 
lada de ferro de dois batalhões. O nosso cen- 
tro pareceu ceder um instante, numa brusca 
flexão involuntária; mas, de súbito, as alas 
direita e esquerda dobraram-se sobre o ini- 
migo envolvendo-o, as reservas chegaram, e 
— meu camarada! — aquilo é que foi acabá- 
los à baioneta, abrir cabeças à trasmontana, 
e quanto mais os boches, fingindo-se ingle- 
ses, gritavam para desorientar os nossos 
soldados — Do not shoot! Hands up! We are 
english! — mais as coronhas abatiam sobre 
eles, na escuridão ; mais as metralhadoras 
crepitavam ; mais o sangue alemão nos es- 
pirrava em postas na cara, — tanto e tanto, 
que, quando se levantou o sol, afirmo-lho eu, 
tínhamos merecido bem que Barres, o ilus- 
tre Barres, nos chamasse «les glorieux mon- 
tagnards a la peau bronzêe». E os capace- 
tes? — perguntará você. Foi então que, pela 
primeira vez, os vi bem. Filosofei toda essa 
tarde — quer crer ? — diante de uma taça de 



108 ESPADAS E ROSAS 

champanhe e de um capacete alemão. Não ha- 
via dúvida : era ainda o casco guerreiro de um 
bárbaro. Bastava olhá-lo. Estava ali, nesse 
capacete de coiro de boi, armado de um alto, 
de um enorme espigão prismático de ferro, a 
revivescência ancestral dos velhos cascos 
mitrados, dos capelos de ferro ponteagudos, 
dos ferozes cornos de bronze que coroavam 
na guerra as hordas de hunos, de cimbros, 
de teutões e de vândalos. A mesma preocu- 
pação de intimidar pela elevação da estatura 
humana, o mesmo espírito de terror supers- 
ticioso que inspiraram e criaram os cones 
de cobre dos cascos assírios e etruscos, os 
heróicos chavelhos gauleses, os capacetes 
agudos dos metalurgistas sassânides e mu- 
dejares, os cascos de ponta dos guerreiros 
da tapeçaria sumptuosa de Bayeux, os bacine- 
tes e as barbudas eriçadas de ferro do século 
xv, — mantinham viva a sua expressão ana- 
crónica na lança do capacete prussiano, com 
que os Hohenzollern se propunham intimi- 
dar o mundo. Para mim, que sentia ainda 
o travo do sangue no champanhe que estava 
bebendo; para mim, que acabava de bater-me 
por ideais modernos de generosidade e de 
liberdade, aquele capacete era alguma coisa 
mais do que um simples anacronismo, — cia 
uma afirmação eloquente do carácter de 



OS BÁRBAROS 109 

regressão da mentalidade alemã. «A Alema- 
nha esta ainda no seu Luiz XIV», — disse um 
dia não sei quem, Williams, ou Schwob, ou 
Demolins. Isto é uma frase, meu caro cama- 
rada; mas por detrás desta frase há uma 
verdade resplandecente. O alemão criou uma 
civilização maravilhosa; mas conservou a 
alma antiga de um wiking, cheia de supers- 
tições e de ferocidade. Sabe o que falta a esse 
grande povo? Falta-lhe ter sofrido. A der- 
rota inevitável será para ele amanhã uma 
grande vitória moral, — porque o redimirá 
pela consciência da sua dignidade de povo 
livre. Temos de o combater implacávelmente, 
até que o capacete de ponta de ferro, o capa- 
cete brutal dos super-titans de Nietzsche e 
de Hindenburgo, símbolo da força e da vio- 
lência, do orgulho e da dominação, da cruel- 
dade e da barbaridade, desapareça para sem- 
pre da face da terra. 



MADRE AxNA DOROTEA 



«Meu amigo: 

Vou contar-te a história de uma pequena 
faiança que tenho em minha casa — uma 
jarra de Darque, século xvm, com o escudo 
de S. Bento — em que, desde ontem, estou 
convencido de que vive uma alma. Sim, meu 
amigo, não te rias : uma alma. Eu detesto, 
como tu, a literatura do invisível e do sobre- 
natural. No meu fenomenismo middle class, 
fui sempre um homem vulgar para quem 
apenas e mundo rial existe, e não me lem- 
bro de ter experimentado alguma vez, a não 
ser ontem, a necessidade intelectual de ex- 
plicar o inexplicável. Ontem à noite, porém, 
deu-se em minha casa um facto tão impres- 
sionante e tão extraordinário, que eu já me 
sinto inclinado a crer, como o velho monge 
Gouber, que «les choses visibles sont seule- 
ment le signe des irwisibles» e que, para além 



112 ESPADAS E ROSAS 

das rialidades palpáveis e das formas corpó- 
reas, se agita, imperceptível ainda para nós, 
um mundo confuso de forças e de sombras. 
Vou referir-te em duas palavras esse facto, 
que tu estás no pleno direito de considerar 
inverosímil, em que eu mesmo não acredi- 
taria se o não tivesse visto com os meus 
próprios olhos, e que não foi evidentemente 
uma alucinação, porque o verificou minha 
mulher e o confirmaram cinco ou seis pes- 
soas que estavam comnosco na sala de 
música. 

Tu sabes que eu fui o universal herdeiro 
do meu tio Marquês de ***, um singularís- 
simo velho que nunca teve uma casaca na 
sua vida, que nas ocasiões solenes vestia a 
do criado, e que, na falta de parentes mais 
próximos, me deixou toda a sua casa e bens. 
Como nós não estávamos dispostos a ir viver 
para Viana, onde meu tio possuía os solares 
de S. Gil de Perre e da Torre do Paço, trou- 
xemos parte da mobília, as pratas, e alguns 
azulejos da quinta para Lisboa, mostrando 
minha mulher um grande interesse em que 
viessem tambcm os objectos pertencentes, 
segundo tradição de família, à nossa tia-avó 
Madre Ana Dorotóa de Abreu Noronha Souto 
Maior, que aos vinte e sete anos de idade 
e onze de hábito morrera abadessa no mos- 



MADRE ANA DOROTBA 113 

teiro de S. Salvador de Vairão. Esses ob- 
jectos, durante algum tempo esquecidos no 
palheiro da casa, eram apenas três: uma 
arca pequena de ferragens contendo breviá- 
rios, papéis de solta e receitas de doce ; uma 
jarra de faiança de Darque, armoriada, deco- 
rada de borra de vinho e amarelo, com a le- 
genda «Aoe Maria», e um cravo italiano de 
martelos, de quatro oitavas, assinado «Gas- 
pare Assaíone, 1750», com uma pastoral pin- 
tada no tampo de harmonia, admirável peça 
de museu que mandei restaurar a Milão, e 
que hoje está na sala de música, com a faiança 
em cima e a arca ao pé, num cantinho a que 
nós familiarmente chamamos «a cela de Ma- 
dre Dorotéa». Muitas vezes me contou meu 
tio a lenda, guardada com carinhosa piedade 
pela família, de que a nobre freira morrera 
subitamente uma tarde, sentada a este cravo, 
cantando, com as mãos brancas sobre o te- 
clado, um motete religioso de Jomelli, e que, 
na hora do seu passamento, a pequena jarra 
de Darque, sem flores, gotejara sobre o 
tampo da espineta o orvalho de duas lágri- 
mas. Procurei inutilmente, nas memórias 
conventuais e no livro de óbitos de S. Sal- 
vador do Porto, qualquer referência a esta 
tradição piedosa, e, com franqueza, já me 
tinha esquecido dela quando, ontem à noite, 

8 



ilí ESPADAS Ê ROSAS 

a loira Miss Kate Watson, depois de tocar 
no nosso Steinway as Valses Nobles e a Pa- 
vane pour une Infante de funde, de Ravel, 
teve a fantasia, verdadeiramente inglesa, de 
reviver, diante desse cravo monástico do sé- 
culo xvin, a lenda dos últimos momentos de 
Madre Ana Dorotéa. A' falta de Jomelli, pro- 
curou-se na arca um papel de música. Apro- 
ximámo-nos todos. Miss Kate Watson, sen- 
tada ao cravo, com os seus grandes olhos 
azuis e o seu vestido leve de musselina bran- 
ca, dava-me a impressão de um alto-de-porta 
cie Columbano na Sala Doirada do Paço de 
Belém. Os dedos da encantadora inglesa, lu- 
zentes de anéis, correram o teclado, como 
uma carícia; um fiozinho de voz, cheio de 
unção religiosa, ergueu-se, cantou, gorgeou, 
trilou, soluçou um motete de Scarlati ; dir- 
se-ía que toda a alma desse velho cravo 
chorava, "que todas as suas cordagens de 
cobre gemiam como se as tocassem ainda, 
frias pelo gelo da morte, as mãos da fidalga 
abadessa de Vairão. Não sei porquê, um 
vago, um supersticioso terror começou a en- 
volver-nos. Minha mulher estava mortal- 
mente pálida. De repente, olhei a jarra de 
Darque que poisava sobre as pinturas do 
tampo de harmonia, e — posso afirmar-to 
sob minha palavra de honra — vi-a, vimo-la 



MADRE ANA DOROTÉA 115 

todos nós, como no instante da morte de 
Madre Ana Dorotéa, à medida que as notas 
se erguiam num timbre de guitarra dorida, 
— orvalhar-se, transsudar, borbulhar, gotejar 
em grossas bagas de água, suor de agonia ou 
lágrimas de dòr, que tremiam, e scintilavam, 
e escorriam uma a uma pelo vidrado da 
faiança, diante dos nossos olhos dilatados 
de assombro. Tivemos, nós todos, a impres- 
são nítida de que a alma da pobre freira, es- 
voaçando, palpitando à nossa volta, viera 
chorar comnosco as suas saudades do mun- 
do. Miss Kate Watson, trémula, fechou o 
cravo. Minha mulher ticou doente. Desde 
ontem, ninguém mais voltou à sala de mú- 
sica. 

E aqui tens porque eu, homem educado 
nas coisas riais e positivas, acredito hoje 
firmemente no sobrenatural. A culpa não é 
dos factos; é nossa, que os não sabemos ex- 
plicar. Por que não vens tu tomar uma chí- 
cara de chá comigo e vêr a jarra de Madre 
Ana Dorotéa? 

Teu, do coração, — Enrique.» 



UM PINTOR BRASILEIRO 



Quando Enrique de Holanda me deu o 
prazer de visitar-me na Inspecção das Biblio- 
tecas para me mostrar o retrato desse 
grande poeta que é Martins Fontes, acom- 
panhava-o o ilustre pintor brasileiro Navarro 
da Costa, que eu já de há muito admirava, e 
que não tinha ainda a honra de conhecer. 
Foi com sincero júbilo que lhe apertei a 
mão. Navarro da Gosta é um amigo de Por- 
tugal, cujas praias e cuja luz está fixando 
nas suas marinhas, e tem por isso direito, 
mais do que à nossa admiração, — ao nosso 
comovido reconhecimento. Quando nessa oca- 
sião nos encontrámos, ficou aprazada a mi- 
nha visita ao seu atelier. Essa visita reali- 
zou-se três dias depois, na luz tranquila e 
doce do studio de Navarro, em Campo de Ou- 
rique, e eu só posso felicitar-me pelo ense- 
jo, que se me oferece agora, de transmitir 



118 ESPADAS E ROSAS 

as impressões produzidas no meu espírito 
pela obra do moço plenarista, adorador fer- 
voroso de Turner e de Mesdag. 

Há, entre o tipo físico e a obra realisadade 
alguns dos mestres da pintura portuguesa 
contemporânea, uma singular e flagrante 
analogia. Malhoa, o naturalista intenso, más- 
culo, vibrante de seiva, de saúde e de côr, 
que nos deu os Oleiros, a Romaria, os Bê- 
bados, a Varanda dos Rouxinóis, é — conhe- 
cem-no bem — um estremenho robusto, ale- 
gre, viril, a quem ainda agora, na glória dos 
seus cabelos brancos, ficariam bem o som- 
breiro de veludo, a jaleca de astracan e as 
esporas de ferro dos Marialvas. E Colum- 
bano? Quanta semelhança existe entre a obra 
genial deste sombrio analista de almas, Ve- 
lasquez do crepúsculo, e a sua figura pe- 
quena, pálida, taciturna, obscura, que pare- 
ce caminhar, vacilante, na penumbra trá- 
gica dos seus próprios quadros ! E Souza 
Pinto? Não ó verdade que na elegância me- 
ticulosa, pontual, um pouco fria do mestre, 
está todo o exacto e escrupuloso parnasia- 
nismo da sua pintura surpreendente? Com 
o ilustre pintor brasileiro de quem me venho 
ocupando, sucede precisamente o mesmo. 
Nele, como em tantos outros, — a obra é o 
homem. Meridional excitado, nervoso, irre- 



UM PINTOR BRASILEIRO 119 

quieto, repentista, lembrando um pouco, de 
perfil, a cabeça leonina de Alexandre Braga, 
Navarro da Costa tinha de ser na arte o que 
realmente é na vida, — um improvisador bri- 
lhante, impetuoso, veemente, um orador fo- 
goso da côr, um retórico fremente da luz. 
A sua pintura é uma forma sensual da sua 
eloquência. Pinta com o mesmo brilho, a 
mesma vivacidade, o mesmo dom de impro- 
vização com que fala. Poucas vezes a pala- 
vra «impressionismo», que Sérilles tão exacta- 
mente definiu, se tem ajustado melhor ao 
processo de um pintor. O que faz de Navarro 
da Costa um intérprete maravilhoso do mar, 
capaz de fixar e de reproduzir, com uma 
verdade flagrante, efeitos de luz e de côr 
que variam a cada momento, é precisamente 
o seu génio repentista, a facilidade com que 
vê, a intensidade com que sente, a rapidez 
prodigiosa com que executa. Como todos os 
pintores de visão rápida e de execução fulgu- 
rante, o autor dos Rochedos ao sol, da Ca- 
saria ao Sol, das Roupas ao Sol, das Arvo- 
res doiradas, tinha de ser um apaixonado, 
um deslumbrado das grandes claridades. 
Tudo nos seus quadros esplende, scintila, 
chameja, resplandece, — as toalhas fulvas de 
areia, as transparências glaucas do mar, o 
oiro sumptuoso das velas, o casco fenício e 



120 ESPADAS E ROSAS 

faúlhante dos barcos. «Le principal pcrson- 
nage d'un tableau c'est la lumière», — disse o 
grande Manet. O brasileiro Navarro da Cos- 
ta, como o português Souza Lopes, como o 
francês Besnard, como o italiano Segentini, 
como o inglês Moore, como o austríaco Hans 
Makart, revela-se, acima de tudo, um vir- 
tuose da Juz. Na sua vasta teoria de águas e 
de céus, realizada em Leça, na Foz, em 
Carreiros, em Leixões, série admirável de 
estudos, de manchas, de esquissos, de po- 
chades, o que o moço mestre brasileiro amo- 
rosamente pintou foi o sol, o incomparável 
sol português, doirado, quente, dionisíaco, 
criador, «gordo de luz», sol ideal para os 
plenaristas, sol que se presta, como nenhum 
outro, à «divisão dos tons para o aumento 
da vibração» (H. Cochin), sol que faz pinto- 
res, que educa pintores, e que Navarro da 
Costa, descendente de portugueses, tem sa- 
bido amar até ao êxtase, com uma devoção 
verdadeiramente ancestral. O «lusitanismo» 
do ilustre artista é, para mim, a nota mais 
sensibilisadora da sua psicologia e da sua 
obra. Não deixa por isso Navarro da Costa 
de ser medularmente, fundamentalmente bra- 
sileiro, — e de sentir o justo e soberbo orgu- 
lho da pátria. As influências hereditárias, as 
determinantes de raça que decidiram da sua 



UM PINTOR BRASILEIRO 121 

visão e da sua emoção estética, que criaram 
no seu espírito o culto tradicionalmente por- 
tuguês do mar, que alimentaram o seu vago 
idealismo cristão, que lhe deram a eloquên- 
cia vivaz e a força improvisadora, — não des- 
nacionalizaram nem perturbaram o forte 
americanismo da sua estrutura moral. Quan- 
do saí do atelier do eminente pintor, onde 
confortavelmente o fogão crepitava e uma 
tapeçaria velha adormecia na sombra, não 
pude deixar de pensar na influência que, 
nas relações entre os povos, exerce esta es- 
pécie gloriosa de embaixadores-artistas. No 
dia em que Navarro da Costa expuzer, em 
plena saison do Rio, a maravilhosa coleção 
de marinhas portuguesas que leva na sua 
bagagem, — estou certo de que os brasileiros, 
perante o êxtase sagrado daquele mar, pe- 
rante a bênção pagã daquele sol, hão-de, se 
é possível, amar ainda mais Portugal. 



PSICOLOGIA DA INGRATIDÃO 



Em geral, como quási todos os sonhado- 
res, eu não costumo sonhar. Parece, porém, 
que o Pommery, loiro como um topázio, que 
me deu ontem à ceia o meu amigo John 
Barradas, não era excelente; o meu espírito 
e o meu estômago suportaram mal o babil- 
lage da mulher, para quem falar da vida dos 
outros é uma maneira elegante de guardar 
segredo da sua, — e o certo é que tive a noite 
passada um pesadelo horrível, que me fez 
pensar, quando acordei, na aflitiva história 
dos cinco talentos de oiro de Anachreonte. 

Conhecem o Visconde de *•«, roceiro de 
S. Thomé, homem amável, oleoso, epicuris- 
ta, espécie de rei-do-cacau, que, como o mi- 
lionário do palácio Cleveland, ganha num se- 
gundo de ociosidade o que eu ganho num 
ano de trabalho? Pois bem. Eu sonhei que o 



124 ESPADAS E ROSAS 

Visconde de ***, com quem mantenho sim- 
ples relações de cumprimento, me tinha pro- 
curado no meu consultório para me oferecer 
— sabem o quê? — uma casa. Nem mais nem 
menos do que um pequeno palacete, jardim, 
rés-do-chão, primeiro andar, estilo ingês, a 
Buenos-Aires. Trouxera-me, com o seu me- 
lhor sorriso, os títulos de propriedade. Que 
desculpasse, que não me melindrasse com a 
oferta, porque êle não tinha outra forma de 
me testemunhar a sua consideração. E osci- 
lava diante de mim, como um boneco chinês, 
enorme, luzidio, solene, embrulhado num 
desses fatos de quadrados pretos e brancos 
que teem feito a fortuna dos alfaiates do 
West End. Fiquei varado de assombro. Um 
prédio ! Um palacete que passava a ser meu, 
universalmente meu, — tão meu como o meu 
relógio, como a minha consciência, como o 
meu casaco ! Conheci pela primeira vez a 
vertigem da -propriedade, e confesso que me 
foi difícil — a-pesar dos recursos de imagina- 
ção de que dispõe um homem que sonha — en- 
contrar palavras de agradecimento que esti- 
vessem nas proporções do presente recebi- 
do. O Visconde de ***, que parecia saborear 
voluptuosamente as expressões efusivas da 
minha gratidão, poz na cabeça, com uma 
sem-ceremónia que me chocou, o seu coco 



PSICOLOGIA DA INGRATIDÃO 126 

cinzento, tomou de cima de uma cadeira o 
guarda-chuva em cujo punho lampejava uma 
grande cabeça de cão, de prata macissa, e 
disse-me, sorrindo sempre : 

— Temos lá em baixo o automóvel. Quer 
dar-se ao incómodo de vir vêr a sua nova 
casa? 

Fui. Cinco minutos depois, parava em 
Buenos-Aires diante de um portão de jardim 
que me fez lembrar os admiráveis ferros-for- 
jados de Edgar Brandt. O portão abriu-se, o 
automóvel subiu uma pequena alameda, en- 
tre hemiciclos de rosas como no Moor Park 
de Herfortshire, e eu vi um palacete cinzen- 
to, inglês, de persianas verdes cerradas, que 
me pareceu opulento de mais para poder ser 
algum dia legitimamente meu. Um criado 
velho, de casaca, assomou à porta. Era ali. 
Apeei-me sob uma impressão desconcerta- 
dora de absurdo e de maravilhoso. Percorri, 
como um autómato, o pequeno hall, um sa- 
lão Luiz XVI, verde-malva e oiro, com um 
teto de Amores de Gustavo Jaulmes, uma 
sala-de-música, um smoking -room árabe on- 
de poderia ter fumado Loti, — e quando, 
num crescendo de assombro, ia perguntar- 
ão meu amigo Visconde se tudo aquilo 
era efectivamente meu, êle estendeu-me as 
mãos e disse-me, desaparecendo, como uma 



12Q ESPADAS E ROSAS 

mancha de xadrez preto e branco na penum- 
bra doirada do hall: 

— Meu caro amigo, deixo-o na sua casa. 
Seja muito feliz. 

Ele partiu, e eu fiquei, enterrado numa 
poltrona da sala-de-bilhar, pensando — com 
o terrível espírito de lógica com que às ve- 
zes se pensa em sonhos — no singular acon- 
tecimento que acabava de produzir-se na 
minha existência. A princípio, a idéa de que 
tudo aquilo me pertencia, deslumbrou-me. 
Não vi senão o esplendor, a ostentação, o 
conforto da minha nova residência, a possi- 
bilidade de dar festas, de reunir os meus 
amigos, de modificar os meus hábitos. Pouco 
a pouco, porém, as primeiras impressões de 
entusiasmo desvaneceram-se, e eu comecei 
a reflectir seriamente na situação de depen- 
dência em que a oferta do Visconde de *** 
me colocava. Com efeito, era ao Visconde 
de ***, á sua inesperada generosidade, que eu 
ficava devendo a opulência da minha instala- 
ção e o conforto da minha vida. Tinha, por con- 
seguinte, de ser grato a esse homem, de ma- 
nifestar-lhe a todos os instantes o meu re- 
conhecimento, nos sorrisos, nas palavras, 
nos actos, nas atitudes, de manter-me peran- 
te êle na situação de um dependente perante 
o seu bemfeitor. Toda a autonomia moral, 



PSICOLOGIA DA INGRATIDÃO 1-7 

que constituirá até então o orgulho do meu 
espírito, desaparecia. Dali por diante, não 
poderia deixar de atender, de receber a cada 
hora o Visconde, de suportar-lhe todas as 
impertinências, de prestar-lhe todos os fa- 
vores, de sor.rir-lhe, de admirá-lo, porque 
êle era o homem que me tinha dado a 
casa. A sua sombra importuna ia projec- 
tar-se sobre a minha existência, acompa- 
nhar-me, perseguir-me para toda a parte, 
pesar sobre mim como um fardo, como uma 
obsessão implacável. Era um intruso que eu 
admitia na intimidade da minha vida, e a 
quem me via forçado a reconhecer, em nome 
dos preconceitos da gratidão, o direito de 
dispor de mim e da minha consciência, de 
enervar-me, de constranger-me, de utilizar- 
me, de manejar-me como um instrumento 
dócil. Que remédio, — se êle era o homem 
que me tinha dado a casa ? Que fazer, — se 
eu tinha hipotecado a minha independência 
moral, aceitando o presente mais inofensivo 
do mundo? O Visconde de ***, com o seu 
casaco escossês, a sua face lustrosa, o cão 
de prata do seu guarda-chuva, apareceu-me, 
um momento, como o símbolo da generosi- 
dade que oprime, do favor que escravisa, da 
gratidão que vexa. Achei caro de mais o 
preço desse palácio que não me custava di- 



128 ESPADAS E ROSAS 

nheiro. Fumei um cigarro, meditei um ins- 
tante. De repente, levantei-me da poltrona, 
puz o chapéu na cabeça, atravessei o jardim, 
embalado ainda no perfume das rosas, e, 
daí a um quarto de hora contado pelo reló- 
gio, estava em casa do Visconde a resti- 
tuir-lhe os títulos de propriedade da casa 
que êle me oferecera. 

— Então porque não aceita o meu pre- 
sente ? 

— Não posso. 

— Porquê ? 

— Porque não sou bastante seu amigo, 
meu caro senhor, para lhe fazer o enorme 
favor de lhe ficar sendo grato. 



A BATALHA DE LAVENTIE 



Um oficial vindo do front acaba de contar- 
me alguns episódios da batalha de Laventie, 
em que, na manhã de 9 de abril, três briga- 
das portuguesas se cobriram de glória, pre- 
ferindo morrer a render-se. Um desses epi- 
sódios — página refulgente de uma epopeia de 
humildes — fez-me vibrar de comoção. As- 
sim eu pudesse, ao reproduzi-lo aqui, comu- 
nicar às minhas palavras a grandiosa sim- 
plicidade, a candura heróica, o ingénuo en- 
tusiasmo com que o moço oficial mo contou, 
chorando ! 

Eram 4 horas da madrugada quando o 
bombardeamento começou sobre o sector La- 
ventie-Richebourg, ocupado por três briga- 
das portuguesas da 2. a divisão. O tenente •*•, 
que estava convalescente numa casa da pe- 
quena povoação de La Gouture, perto dos 
apoios do batalhão do 13, resolveu regressar 

9 



130 ESPADAS E ROSAS 

às trincheiras e apresentar-se na sua uni- 
dade. Como um oficial do estado-maior, que 
passava num Hudson do quartel-general, se 
oferecesse para o conduzir, o tenente *** 
chamou o impedido, um verdadeiro «serra- 
no» das montanhas ásperas de Trás-os-Mon- 
tes, rapaz espadaúdo, alegre, tisnado do sol, 
entregou-lhe as malas, recomendou-lhe que 
as guardasse bem, e ao subir para o auto- 
móvel que ia levá-lo àquele «enfer de boue 
et de sang», de que fala Barbusse, gritou-lhe 
ainda, enfiando a tiracolo o saco da máscara 
anti-gaz: 

. — Não saias daqui até à minha volta, ou- 
viste? 

— Sim, meu tenente. 

— Haja o que houver! 

— Não tem dúvida, meu tenente. 

Era noite ainda. Os very-lights cortavam, 
como relâmpagos, a escuridão nevoenta do 
céu. A nossa artilharia — o admirável 75 — 
começava já a responder. Pela sua intensi- 
dade, o bombardeamento inimigo parecia a 
preparação de uma ofensiva formidável. Trinta 
mil granadas carregadas de gazes asfixian- 
tes caíram, em três horas, sobre as trin- 
cheiras portuguesas; tornaram irrespirável a 
profundidade dos dug-outs; fizerarcf coalhar 
sobre aquele rincão da Flandres, ainda on- 



A BATALHA DE LAVBNTIB 131 

'.em doirado de vinhedos pagãos, uma atmos- 
fera de- veneno e de morte. A's 7 horas, a 
primeira vaga de assalto, uma divisão báva- 
ra inteira, era aniquilada pelo fogo das me- 
tralhadoras. Novas divisões — quatro ao todo 
— se lançaram, umas atrás das outras, so- 
bre as nossas linhas. O centro, constituído 
pelas três brigadas portuguesas, resistiu ao 
choque; mas a ala direita, canadiana, e a ala 
esquerda, escossesa, foram rotas; o inimigo, 
protegido pelo nevoeiro, atacou de flanco; e 
os nossos nove mil homens, envolvidos por 
forças dez vezes superiores em número, com 
as comunicações cortadas por uma infernal 
barragem de fogo, tiveram de escolher, num 
instante supremo de decisão, entre a vergo- 
nha de entregar-se e a glória de morrer. 
Esgotaram as munições; encravaram as me- 
tralhadoras; quando já não tinham balas nem 
granadas, atiraram pedras, — e por fim, numa 
vertigem de suicídio, ensanguentados, estro- 
piados, loucos, negros de lama e de pólvora, 
precipitaram-se à baioneta sobre os alemães, 
gritando, uivando, cantando. Uma vez mais, 
nos restos da neblina que se dissipava, como 
em Wagram, como em Salamanca, como em 
Smolensko, as baionetas portuguesas res- 
plandeceram ao sol da Europa. Emquanto a 
nossa artilharia, troando sempre, a-pesar de 



132 ESPADAS E ROSAS 

já rota a primeira linha, varejava quâsi à 
queima-roupa o inimigo, — os batalhões do 2, 
de Lisboa, do 13, de Vila Rial, do 15, de 
Tomar, do 17, de Beja, vendendo cara a vida, 
abriam clareiras de sangue nas vagas alemãs 
de assalto, batiam-se corpo-a-corpo, à arma 
branca, a soco, à dentada, a ponta-pé, como 
doidos, como leões. A' frente do 2, o capitão 
Roma, rouco como um tambor rebentado na 
carga, gritava, abatendo alemães à coronha- 
da : — «Rapazes, é preciso morrer bem !» E 
eles obedeciam, no orgulho de se fazer mas- 
sacrar, abriam navalhas quando a baioneta 
lhes voava das mãos, brandiam as espingar- 
das como varapaus, — dir-se-ía que sobre a 
planície de Laventie soprava, três séculos de- 
pois, o vento épico de Alcácer. A's 3 da tarde, 
os valentes batalhões portugueses combatiam 
ainda, dizimados, esfarrapados, gazeados, 
sangrentos. A's 4 horas, algumas companhias 
retiravam sob a metralha inimiga, para se 
reconstituírem na rectaguarda. O moço te- 
nente • #*, que me contava os pormenores do 
combate com as lágrimas nos olhos, viu, 
perto dele, um capitão do 15 meter uma bala 
na cabeça para não cair vivo em poder dos 
alemães; conseguiu juntar-se, com vinte dos 
seus homens, a uma meia-brigada escossesa; 
bateu-se ainda toda a tarde c toda a noite,— 



A BATALHA DE LAVENTIE 133 

e na madrugada seguinte, extenuado, ex- 
austo, lembrando-se do impedido que tinha 
deixado com as malas na pequena povoação 
francesa, aproveitou uma ambulància-auto- 
móvel que passava a busca de feridos, e se- 
guiu para La Couture. Quando chegou, o 
coração confrangeu-se-lhe de mágua. Não 
havia uma única casa em pé. A risonha al- 
deia, devorada pelo incêndio, era um montão 
de escombros. Numa ravina crispavam-se 
animais mortos. A terra, revolvida pelas 
granadas alemãs, abria-se em escavações 
enormes, palpitantes, donde parecia erguer- 
se o fumo das últimas explosões. O pobre 
soldado ficara, decerto, sepultado ali. ofi- 
cial ia procurar dois pedaços de madeira, 
para lhe deixar, naquele imenso cemitério, 
a sombra de uma cruz, quando, de súbito, do 
vão de duas impostas de alvenaria chamus- 
cada, uma voz bradou: 

— Pronto, meu tenente ! 

Era o impedido. Pálido como a morto, 
mal podendo ter-se em pé, um trapo branco 
manchado de sangue a apertar-lhe a cabeça, 
avançou para o oficial, deixou tombar as malas 
que segurava nas mãos convulsas, e, cum- 
prido com fidelidade heróica o serviço 
que lhe fora ordenado, caiu redondamente, 
morto. 



O BISPO DO PORTO 



Tive a honra de conhecer pessoalmente o 
nobre prelado que, perante a comovida vene- 
ração do povo que pastoreava, acaba de ex- 
tinguir-se, com a consciência de um justo e a 
tranquilidade de um santo, na sua pobre al- 
cova do paço de Sacais. Duas vezes apenas 
lhe falei : e, de ambas, para receber do emi- 
nente antístite, cujo nome, desde hoje, ful- 
gura na história do episcopado português, 
demonstrações cativantes de afecto, de distin- 
ção e de benevolência. Venho hoje pagar à 
sua memória a minha obscura dívida de gra- 
tidão, descobrindo-me respeitosamente pe- 
rante o cadáver de um homem que, mais 
ainda do que pelos esplendores do báculo, 
foi grande pela bondade, pela modéstia e pela 
virtude. 

Vi pela primeira vez o sr. D. António 
Barroso em junho de 1910. Encontrava-me 



136 ESPADAS E ROSAS 

na capital do norte, de passagem para as 
Pedras-Salgadas, quando um amigo comum, 
o malogrado Firmino Pereira, me procurou 
apressadamente no hotel para me transmitir 
estas palavras do bondoso prelado: — «Diga 
ao Júlio Dantas que o Bispo do Porto gosta- 
va de conhecer o autor da Ceia dos Car- 
deais.» Não quiz demorar, nem um momento 
mais, a minha visita ao paço episcopal. Re- 
cordo-me da impressão que produziu no 
meu espírito a travessia do velho burgo do 
Porto, onde parecia palpitar ainda a alma 
bárbara do século xii, com a sua Sé coroa- 
da de ameias como uma fortaleza, as suas 
betesgas estreitas e calçadas de lajedo ro- 
mano, os seus fortes botaréus doirados de 
mugre e coalhados de sombras, cujas pedras 
sagradas teriam conhecido ainda — quem sa- 
be? — os bispos-soldados que sabiam matar 
pela glória de Deus e os burgueses subli- 
mes que souberam morrer pela liberdade do 
povo. Foi com a alma penetrada da emoção 
do passado que entrei na sala do paço epis- 
copal onde me esperava, cheio de acolhedora 
bonomia, o sr. D. António Barroso. «L'âme 
des vioants — disse Gustavo Le Bon — est 
faite surtout de la pensée des morts.» Diante 
daquele homem, elevada personificação da 
autoridade espiritual da Igreja, figura rude 



O BISPO DO PORTO 137 

de bispo missionário, que tanto lembrava 
nos olhos vivíssimos, nos largos malares, 
na barba negra revolta, a velhice profética 
de Tolstoí, e que me recebia (estávamos nas 
oitavas de S. Pedro e S. Paulo) embrulhado 
na sua murça e na sua batina doméstica de 
camelão roxo, — senti que alguma coisa de 
inconsciente, de hereditário, de ancestral, 
mais do que a consideração de uma simples 
cortezia, me obrigava a dobrar o joelho e a 
beijar-lhe a mão. Conversámos largamente. 
Emquanto o venerando prelado, numa sin- 
gela e risonha familiaridade, me falava das 
suas antigas missões, do seu seminário, da 
bondade do seu povo, das obras de assistên- 
cia a realizar na sua diocese, e levava a ge- 
nerosa benevolência do seu espírito até ao 
ponto de ocupar-se de mim, da minha saúde, 
dos meus trabalhos, das notícias particula- 
res que recebera acerca da representação 
recente da Ceia dos Cardeais em Roma, — 
eu observava-o, seguia-lhe os movimentos, 
admirava a vivacidade dos seus sessenta 
anos robustos, analisava a sua fisionomia 
um pouco dura, o seu olhar inquieto, as suas 
mãos finas e bem tratadas que um vago tre- 
mor agitava sempre, o seu tipo viril de poppe 
russo sob a mancha de seda violeta do soli- 
déu, e pensava comigo, olhando a fronte ao 



138 ESPADAS E ROSAS 

mesmo tempo amorosa e enérgica desse 
evangelisador admirável, que um novo bispo 
D. Frei Marcos, exaltado na bondade, infle- 
xível na disciplina, viera sentar-se no sólio 
prelatício do Porto. Antes de me retirar, o 
sr. D. António quiz que eu visitasse o paço. 
Assomámos a uma janela para vêr, lá em 
baixo, no Doiro faiscante de sol, a linha fe- 
nícia dos barcos rabelos subindo o rio. Quan- 
do, depois de atravessar as salas nobres da 
residência episcopal, quadras de opulenta 
fábrica seiscentista, com os seus tetos doi- 
rados em caixotões, as suas velhas pinturas, 
os seus silhares altos de azulejo, chegámos 
à pobríssima alcova onde dormia o Bispo do 
Porto, à sua humilde cama de ferro coberta 
de chita, à sua tosca mesa onde havia ape- 
nas uma cruz e a Imitação de Cristo, os 
olhos, sem querer, turvaram-se-me de lá- 
grimas, a figura angélica de Frei Bartolomeu 
dos Mártires resplandeceu diante de mim, e, 
talvez pela primeira vez na minha vida, eu 
apreendi, em toda a sua pura e tocante bele- 
za, a sublimidade do pensamento cristão. 
Como o poder da Igreja seria ainda hoje for- 
midável, se se medissem por esta craveira 
moral todos os seus ministros ! 

Passaram-se, depois disto, oito anos de 
duras provações para o virtuoso prelado. Só 



O BISPO DO PORTO 139 

voltei a vê-lo em fevereiro deste ano, quan- 
do, a convite do eminente professor e meu 
querido amigo, Bento Carqueja, tive a honra 
de pronunciar um discurso na festa do Ate- 
neu Comercial. O sr. D. António Barroso 
que naquele meio tempo tinha conhecido a 
prisão, o exílio e o infortúnio, encontrava-se 
de novo á frente da sua diocese e presidia, 
como o primeiro cidadão do Porto, a essa 
festa de instrução e de caridade. Já não era 
o mesmo homem. A velhice trabalhara pro- 
fundamente aquele organismo robusto, mi- 
nado pela artério-esclerose e pelos abalos mo- 
rais ; a sua rude barba negra de mujik em- 
branquecera; tremiam-lhe mais as mãos; e 
uma palidez de ascese, metalisada pelas pas- 
tadas de oiro da luz, parecia espiritualizar a 
dureza plebeia da sua expressão, dando-nos 
a impressão perturbadora de que o Júlio II 
da grandiosa pintura de Rafael descera da 
galeria Pitti de Florença. Foi então que o ou- 
vi falar pela primeira vez. Iluminava-se, 
transfigurava-se. Tinha a eloquência chã, 
persuasiva e veemente do missionário. A sua 
palavra, como diria Hanotaux, era uma con- 
vicção em marcha. Prolongava estridente- 
mente a última sílaba de cada frase, fazen- 
do-a vibrar como um clarim. Os seus efeitos 
oratórios, de uma singeleza dominadora, im- 



140 ESPADAS K ROSAS 

pressionavam. Lembrar-me-hei sempre das 
palavras generosas que a minha pobre alo- 
cução mereceu ao velho prelado. Nunca 
esquecerei o enternecedor telegrama que êle 
enviou, nessa hora, a minha mãe. E porque 
sou fiel aos sentimentos da gratidão, e por- 
que considero a figura do Bispo do Porto, 
pelo seu alto relevo moral, o melhor exem- 
plo que pode hoje apontar-se a uma socie- 
dade sem virtudes e sem carácter, — beijo de 
longe, comovido, a sua mão inerte, e faço 
votos para que as últimas palavras de amor 
e de perdão pronunciadas por essa nobre e 
serena consciência, possam ainda um dia, 
como um fogo redentor, destruir a semente 
maldita do ódio no coração de todos os portu- 
gueses. 



DEGENERADOS 



Ontem, durante o almoço que me ofere- 
ceu, na sua casa do Alto-Estoril, o meu ami- 
go Lencastre, debateu-se, no mais profun- 
do da minha consciência, um problema con- 
frangedor. 

Havia quinze anos que eu não via esse ex- 
celente rapaz, de um tão inconfundível tipo 
de fim-de-raça, em cuja elegância seca, ner- 
vosa e loira se adivinhava a fatalidade das 
aristocracias que degeneram. Encontrei-o 
no Estoril, «entre o verde filosófico dos pi- 
nheiros», como êle próprio me disse, — e es- 
tranhei a sua velhice prematura, o seu luto 
recente, a sua expressão dolorosa e fatiga- 
da. Casara com uma prima co-irmã, filha 
dos Condes de ***, e morrera-lhe, quinze 
dias antes, o terceiro filho. Como eu lhe di- 
rigisse uma vaga palavra de conforto e de 
simpatia, murmurou, brincando com o anel 



142 espadas E Rosas 

de armas, as lágrimas a tremerem-lhe nos 
olhos : 

— Foi melhor assim. Tinha nascido cego. 

Conversámos largamente, no terraço do 
Casino, olhando o mar. Quiz que eu conhe- 
cesse a mulher e a filhinha que lhe restava. 
Não me deixou sem que lhe prometesse que 
ia almoçar com êle na manhã seguinte. A 
scintilação da atmosfera parecia ferir-lhe a 
vista. Notei que lhe tremiam as mãos ao en- 
rolar um cigarro. Uma palidez azulada, 
vítrea, inquietante, dava-lhe o aspecto de 
certos nevro-brigticos, produtos da here- 
ditariedade acumulada e da intoxicação pro- 
gressiva de muitas gerações. Despedimo-nos. 
No dia imediato — ontem — fiel à minha 
promessa, fui almoçar com o meu amigo Len- 
castre. Recebeu-me no seu dining-room ho- 
landês, onde lampejavam pratas. Apresen- 
tou-me a mulher, uma criatura loira, deli- 
cada, frustre, linfóide, com uma grande tes- 
ta olímpica como certas Virgens alemãs de 
Lucas Cranach, umas ancas escorridas, um 
peito chato de rapaz, o tipo doentio familiar 
de certo ramo dos Albuquerques — «em cam- 
po vermelho dois cardos verdes floridos, al- 
cachofrados de oiro» — e essa sombra quási 
física de melancolia que pesa sobre as pál- 
pebras de todas as mulheres que fizeram 



DEGENERADOS \Í3 

quarenta anos. Quando nos assentámos á 
mesa do almoço, com as janelas abertas sô- 
bre uma gigantesca magnólia coberta de 
tlor, uma criada trouxe pela mão uma crian- 
ça. Era a filha sobrevivente desse casal de 
degenerados que, por cada berço que abria, 
fechava um túmulo. Beijei a pequenita, fa- 
lei-lhe, assentei-a sobre os joelhos. A pobre 
criança encarou-me, espantada, silenciosa, 
fixou em mim os grandes olhos redondos e 
tristes, franziu a sua face de velha num sor- 
riso de hebetude que me gelou, e quando eu 
insistia para que ela me dissesse como se 
chamava, foi a mãe que acudiu, de olhos 
baixos, como se confessasse uma vergonha: 

— E' surda-muda... 

Ouvi, impressionado, a história dessa des- 
cendência condenada ao sofrimento e à ex- 
tinção prematura. Dois filhos nado-mortos; 
outro hidrocéfalo, cego, morto de convul- 
sões ; essa pobre surda-muda, produto ca- 
racterístico de uma consanguinidade mórbida 
implacável, — o que eram senão pequeninos 
mártires que a inconsciência pavorosa dos 
pais gerara e criara para sofrer? Emquan- 
to se servia o almoço, entre Japão velho e 
flores, nessa encantadora sala que parecia 
um interior de Pieter Hooch, o doloroso pro- 
blema do casamento dos doentes e dos dege- 



144 ESPADAS E ROSAS 

nerados debateu-se no meu espírito. Diante 
do espectáculo confrangedor daquela família, 
desfizeram-se-me todas as dúvidas, todos os 
escrúpulos sentimentais. A' questão posta na 
minha consciência, — respondi pela negativa. 
Não ; não pode reconhecer-se a um enfermo, 
a um degenerado, a um débil, a um intoxi- 
cado grave o direito de perpetuar o seu so- 
frimento, a sua deformidade e a sua miséria. 
A gerarão actual tem obrigação de defender 
as gerações futuras. Criar a dôr é um crime 
perante a humanidade ; criar a monstruosida- 
de é um crime perante a raça. O casamento 
dos doentes de espírito e de corpo, dos mons- 
tríparos, dos cacoplastas, dos tarados, dos ge- 
radores de abortos e de mártires, — deve ser 
proibido, ou, pelo menos, não deve ser sancio- 
nado pela lei. Todos os enfermos reconhecida- 
mente capazes de transmitir taras graves e 
permanentes à descendência, teem de ser ex- 
cluídos do direito de constituir família. Será 
brutal ; mas é necessário. Quando, há vinte 
ou vinte e cinco anos, na Alemanha com He- 
gar, na Áustria com Haskovec, na França 
com Jullien, com Pinard, com Fournier, com 
Ca/.alis, foi pela primeira vez discutida a 
questão do exame médico pré-nupcial, do bil- 
let de santé, — a susceptibilidade dos nossos 
pais escandalisou-se. Pois quê? Os médicos^ 



DEGENERADOS 145 

os higienistas, os puericultores tinham a au- 
dácia de tratar criaturas humanas como ani- 
mais domésticos ? Podia admitir-se, porven- 
tura, que se seleccionasse o homem pelo pro- 
cesso degradante porque se apuram as ra- 
ças cavalares ? Que se ultrajasse a dignidade 
da espécie? Que se violasse o mistério sagrado 
do nascimento? Apenas frases, que hoje, 
vinte anos depois, já soam falso. Não há ra- 
zões de carácter religioso ou de carácter mo- 
ral que valham a razão suprema da protec- 
ção, da salvação das humanidades futuras. 
Reconheço ao amor o direito esplêndido de 
procriar a força, a beleza e a inteligência; 
— mas não lhe reconheço o direito funesto 
de gerar deliberadamente a miséria, o alei- 
jão e a dôr. Isolam-se os indivíduos consi- 
derados perigosos para a sociedade; devem 
isolar-se também os indivíduos considerados 
perigosos para a raça. Há quem, posta a 
questão no terreno da sentimentalidade, jul- 
gue isto demasiado cruel. Será. Convenho 
que é uma atrocidade roubar aos degenera- 
dos, aos fracos, aos doentes, a única conso- 
lação que lhes resta na vida, —a de poderem 
amar-se, unir-se, amparar-se, construir, sob 
a protecção da lei divina e humana, a sua fe- 
licidade e o seu lar. Mas não é uma atroci- 
dade maior ainda, obter essa felicidade à custa 

10 



146 ESPADAS E ROSAS 

do martírio de pequenos entes que não são 
culpados de ter nascido, e que vêem ao mundo 
apenas para expiar, entre os suplícios mais 
horríveis, o beijo egoísta e criminoso dos pais? 
Há quem objecte que a proibição do direito 
ao casamento é um atentado contra a liber- 
dade individual. Mas não é das liberdades de 
todos nós que os Estados e as sociedades se 
alimentam ? Também o direito à vida é um di- 
reito fundamental, — e os Estados estão fa- 
zendo correr, numa guerra hedionda, o san- 
gue dos seus filhos. Qual será a violência, 
qual será a tirania maior, — proibir os débeis 
e os enfermos de se casarem, ou mandar os 
homens sãos e fortes morrer na guerra? Se 
aceitamos uma, — porque não havemos de 
aceitar a outra, mil vezes mais generosa e 
mais humana? 

O almoço correu moroso e triste. Entre- 
tivemo-nos a vêr, na parede, um Delft do 
século xvii. Uma luz doirada de outono pa- 
recia envolver numa auréola de martírio a 
cabeça da pobre criança. Quando passámos 
para a sala de fumar, o meu amigo Lencas- 
tre perguntou-me: 

— Que dizes tu da minha filha? 

— Digo-te que nasceu providèncialmente 
muda, para não blasfemar contra Deus e 
contra ti ! 



O PAÇO DE MORO USOS 



Quem visitar a pequena freguezia de Vila 
Nune, em terras de Basto, e dos socalcos da 
beira-Tâmega galgar ao alto do monte da 
Rasa, daí, pela pedra da Cunha, correr a 
lomba da serra da Espiga, em cujos baldios 
o gado apascòa, e descer depois, outra vez, 
até ao rio, encontra, aqui e além, mas sobre- 
tudo ao norte, nos maninhos da serra, ves- 
tígios de um muro — mais velho do que a mo- 
narquia — que noutro tempo cintou, no cari- 
nhoso abraço da sua alvenaria grosseira, a 
antiquíssima herdade de Morousós. Pois, 
minhas queridas leitoras, — esse muro é um 
monumento de amor. Não foram os lozões, as 
marras, as lurias dos alvanéis descidos de 
S. Miguel de Refóios que o construíram pedra 
a pedra, tijolo a tijolo: quem verdadeiramente 
o levantou, tão forte, que oito séculos não 
puderam destruí-lo ainda, foi um amoroso, 



148 ESPADAS E ROSAS 

um frágil, um pequenino coração de mu- 
lher. 

Eu lhes conto, como ma contaram, a his- 
tória do velho paço de Morousós. Pergun- 
tem por ela em Cabeceiras, em Atei, em 
Mondim: ainda ninguém a escreveu, e todos 
a repetirão pela mesma forma, com o mesmo 
respeito ingénuo e tradicional, — a voz dos 
eruditos na lareira nobre dos solares, a voz 
do povo na sombra roxa das carvalheiras 
que viram nascer D. Dinis. 

Pelos fins do século xi, princípios do sé- 
culo xii, a filha de um rico-homem, senhor de 
Murça, namorou-se de um escudeiro do pai. 
Chamava-se Dona Brfzula e devia ser bela, 
— porque são belas todas as mulheres que 
amam com paixão. Esconderam o seu amor, 
emquanto puderam. Um dia, porém, o senhor 
de Murça soube da drudaria (como se dizia 
então) da filha com o escudeiro; para salvar 
a vida, o pobre moço teve de fugir pela serra, 
em demanda do convento de Refóios, onde 
lhe dariam abrigo; Dona Brízula, prevenida 
da fuga e do destino de Nuno, aproveitou o 
sono do pai, mandou entrouxar por criados 
fiéis, em silêncio, jóias, roupas, vestidos, 
todo o esplendor dos seus tirazes mudejares, 
das suas alfolas, dos seus ciclatões bizantinos 
pesados de oiro, carregou quatro azêmolas, 



O PAÇO DE MOROUSÓS 149 

e, acavalo numa sela galega de fustes, acom- 
panhada do beneditino seu capelão, partiu 
como doida, pela escuridão da noite, no rasto 
do homem a quem dera o corpo do seu corpo 
e a alma da sua alma. Encontrou-o nas terras 
de Vila Pouca de Aguiar, e aí lhes lançou o 
frade a bênção de Deus. Temendo o furor e 
a perseguição paterna, ganharam o Tâmega; 
atravessaram o rio nas alpondras de Parada 
de Monteiros; e daí, seguindo pela riba, ao 
correr da água, foram parar a um sítio ermo, 
silvestre, abrigado dos ventos do norte pelo 
espinhaço da serra da Espiga, — logar que 
Dona Brízula e o escudeiro, abençoados pela 
sombra comovida de Frei Ordonho Martins, 
julgaram bastante só e bastante vasto para 
nele caber todo o amor do seu coração. Não 
podiam ficar ali emquanto não fosse doado o 
reguengo, murada a terra, construído o paço. 
Os padres de Refóios albergaram-nos numas 
casas, a-par do mosteiro; a obra dos alvanéis 
começou, paga pelos sacos pojados de mora- 
bitinos de oiro que Dona Brízula Teixeira 
trouxera comsigo de Murça, — e, terminada 
ela, ali esconderam os fugitivos, longe do 
mundo e dos homens, isolados na mão de 
Deus, os arroubos da sua paixão, o enlevo 
da sua ternura, as lágrimas da sua felicida- 
de. Eremitas de amor^ ninguém mais os per- 



150 ESPADAS B ROSAS 

turbou naquele refúgio onde viveram, ama- 
ram e envelheceram tão entregues um ao 
outro, tão absorvidos no seu afecto, tão ven- 
turosamente sozinhos, — que o povo ficou 
conhecendo, daí por diante, o paço da riba 
Tâmega pelo carinhoso nome de «paço dos 
Morousós». 

Hoje, que resta dele? Apenas uns muros, 
um nome e uma história de amor. A partir 
de 1486, data em que uma descendente de 
Dona Brízula, Mónica Teixeira, casou com 
António Machado, filho de um fidalgo de D. 
Afonso V, senhor da terra de Entre-Homem- 
e-Cávado, a família deixou a sua velha resi- 
dência, já quatro vezes secular, e foi viver 
para o solar da Granja, em Cabeceiras de 
Basto. A terra reguenga mandada murar, no 
século xii, pela amorosa filha do senhor de 
Murça, constitúe agora a área da pequena 
freguezia de Vila-Nune, — a «vila de Nuno». 
A quinta de Morousós, que hoje apenas 
ocupa uma parte do antigo cerrado medievo, 
ainda se encontra na posse da família da sua 
fundadora, cuja actual representante, a ilus- 
tre senhora D. Sofia Adelaide Teixeira Ma- 
chado Tavares, casou em 1885, na freguezia 
de Vila-Nune, a que deu o nome o seu arqui- 
avô, com o dr. António Teixeira Coelho de 
Vasconcelos, da nobre casa de Côrtinhas, es- 



O PAÇO DE MOROUSÓS 151 

pírito de elevada cultura e de primorosa gen- 
tileza, a quem devo as informações que me 
serviram para escrever estas páginas. 

A história de Brízula Teixeira, cujo es- 
pectro, erguido sobre as suas osas doiradas 
de rica-dona, enche ainda de poesia as terras 
de Basto, ensina-nos, a todos nós, uma gran- 
de verdade: quem encontrar na vida o ver- 
dadeiro amor, deve escondê-lo, longe do 
mundo, como um tesouro. 



UMA RAINHA 



Há pouco, diante dos belos panos de Ar- 
ras do paço da Ajuda, recordei o dia em que 
pela primeira vez — faz agora precisamente 
doze anos — entrei no palácio rial que, mercê 
da sua sumptuosidade, foi, até ao fim da 
existência, a habitação preferida da rainha 
Maria Pia. 

Havia muito tempo que eu desejava vêr 
um quadro comprado pelo monarca a D. 
Tomás de Melo, atribúido a Rubens pelos 
conhecedores de arte, e colocado — por sinal 
detestávelmente — na sala dos frescos do 
paço da Ajuda. Pedi, por intermédio do coro- 
nel Benjamim Pinto, veador da Rainha, a au- 
torização necessária para visitar o palácio, 
e, obtida ela, num dia de sol criador, puz- 
me a caminho dessa «fria e inabitável massa 
de pedra sem passado nem presente», como, 
num magnífico desdém de estrangeiro, lhe 



154 ESPADAS E ROSAS 

chamou o príncipe de Lichnowski. Lembro- 
me ainda da impressão que produziu no meu 
espírito a opulenta série de salas do andar 
nobre, cheia de interesse a-pesar da sua gra- 
ve e severa monotonia pombalina. Atravessei 
a sala chinesa, com as suas portas de xarão 
vermelho e oiro; a sala do corpo-diplomático; 
a sala das damas, onde vi, penetrado da mes- 
ma exquisita elegância da Dama da Luva, o 
retrato da rainha Maria Pia por Carolus Du- 
ran, e onde, pojando de talha doirada, esplen- 
dia a soberba mobília da náu D. João VI, 
cadeiras, canapés, sofás com os espaldares 
apainelados de maravilhosas pinturas de ba- 
talhas navais; a sala dos panos de Arras, 
vindos de Vila-Viçosa; a sala dos panos de 
armas, onde encontrei ainda, nas paredes e 
nas guarda-portas, o brazão dos Távoras 
mal escondido sob as armas da casa de Bra- 
gança; o studio gótico, com o seu lustre de 
ferro-forjado, os seus entalhados de Leandro 
Braga, a harpa e o órgão do rei D. Luís ; a 
sala do trono; a sumptuosa sala da ceia; a 
capela, cuja galeria doirada Costigan descre- 
veu, coalhada de fardas e de gran-cruzes, 
no dia do casamento do conde de Oeynhau- 
sen; e, por último, a sala dos frescos, inte- 
ressante no conjunto, lamentável no detalhe, 
onde um mau retrato de D. João IV me fez 



UMA RAINHA 155 

sorrir e onde, finalmente, pude admirar o 
célebre Rubens que uma expertise amicale 
avaliara em vinte contos. Feito o exame que 
me interessava, dispunha-me a sair do palá- 
cio, quando o veador de serviço me comuni- 
cou que Sua Majestade se dignava receber- 
me. Descemos ao rés-do-chão, onde vivia a 
Rainha. Quando chegámos à sala de mármo- 
re, de uma frescura deliciosa, a marquesa de 
Unhão, que escrevia junto da janela, sentada 
a uma pequena secretária Luís XVI, disse- 
nos que a senhora D. Maria Pia se demorava 
ainda uns minutos e que me receberia na sala 
azul. Era a sala contígua, à esquerda. Ben- 
jamim Pinto, um cicerone conversador, apro- 
veitou o ensejo para me mostrar o interes- 
sante grupo de salas da direita, durante 
muito tempo preferidas e agora abandona- 
das pelo humor caprichoso da Rainha, — a 
sala de Saxe, um gabinete pequeno onde 
havia um biombo feito dos restos da talha 
doirada de um coche, e a sala cor de rosa. 
Quantas vezes eu ouvira falar da sala de 
Saxe, que esplendor a minha imaginação fá- 
cil emprestara a essa fantasia de príncipe 
alemão, — e com que desapontamento eu me 
encontrei num boudoir de detestável estilo 
Luís Filipe, cadeiras, espelhos, credencias, 
escrevaninhas cobertas de flores, de araras, 



156 ESPADAS E ROSAS 

de papagaios de porcelana, onde só havia de 
notável dois candelabros saxónios da al- 
tura de um homem e o livro de mosaico de 
Veneza que o povo italiano oferecera, em 
1862, á rainha Maria Pia! Entrámos ainda 
no estreitíssimo compartimento, quási um 
cubículo, de que o rei D. Luís fazia quarto 
de dormir, e que tinha, para a sua verde- ve- 
lhice de D. Juan, a única vantagem da comu- 
nicação fácil com o exterior pela sala dos 
alabardeiros. Quando Benjamim Pinto me 
contava, a propósito, os últimos dias de ago- 
nia do monarca na cidadela de Cascais, des- 
fazendo-se aos pedaços no horror de uma 
sífilis terciária visceral, entre o seu violon- 
celo, que tocou quási até à hora da morte, 
e um telefone a que falava convulsivamente 
de cinco em cinco minutos, — um criado do 
paço, solícito, veio prevenir-nos, nos bicos 
dos pés: 

— A senhora marquesa manda dizer que 
Sua Majestade já está na sala azul. 

Poucos minutos depois, eu era introduzi- 
do junto da Rainha. Lembro-me, como se 
tosse hoje, da mão ruiva, decrépita, translú- 
cida, vagamente felpuda, eriçada de jóias e 
de veias azuis, que nessa hora se estendeu 
ao meu beijo respeitoso. Tinha diante de mim, 
na sua precoce e majestosa senilidade, a fi- 



UMA RAINHA 157 

lha de Vitor Manuel, uma das mais ilustres 
princesas da estirpe de Sabóia-Carignan, 
herdeira da beleza expressiva e profunda da 
tia-avó princesa de Lamballe, cujo sorriso 
lembrava o da «Virgem Doirada» de Amiens, 
e de que os acasos da política dinástica ha- 
viam feito, aos 15 anos incompletos, rainha 
de Portugal. Estava sentada num sofá, ro- 
deada de almofadas, de biombos e de fogões 
acesos, encolhida, crispada pelo pavor cons- 
tante do frio e das correntes de ar, um amplo 
luto de veludo roxo a envolvê-la como uma 
capa episcopal, as cordoveias do pescoço 
afogadas em pérolas, a mancha côr de ferru- 
gem dos cabelos desfiando-se, alastrando, 
scintilando na poeira luminosa da sala. Em- 
quanto ela me falou confusamente de mim e 
dos meus livros, observei-a, feição a feição, 
gesto a gesto. Naquela sombra, naquele es- 
pectro de uma grande mulher, nem tudo esta- 
va morto ainda. A face, descaída, empapara- 
se; a pele, árida, pulverulenta, sem um veio 
de sangue e de vida, parecia recoberta de uma 
lanugem ruiva, como um velho lichen: mas, 
nessa ruína pavorosa, uns olhos magníficos 
de italiana brilhavam ainda, e uma boca sub- 
til, expressiva, inteligente, onde não havia 
vestígios do lábio austríaco da mãe e da irmã 
condessa de Moncaliéri, uma boca olímpica 



158 ESPADAS E ROSAS 

de deusa latina, uma boca misteriosa de Gio- 
conda rasgava-se, palpitava, sorria com a 
majestosa graça de Juno falando aos seus 
pavões. Aquela boca e aqueles olhos tinham 
ainda vinte anos. Foi, vendo-os, que abrangi, 
que compreendi todo o drama íntimo da ex- 
celsa princesa; os longos dias de tédio do 
seu noivado, no paço de Cintra, entretendo- 
se a atirar jóias que as açafatas disputavam 
lutando sobre os tapetes; a dolorosa can- 
dura com que ela, uma criança ainda, escre- 
via com o anel nas vidraças do palácio — 
«Não gosto do Luís... Não gosto do Luís... » — , 
todo o enervamento da sua mocidade sem 
afectos, da sua realeza sem esplendor, da sua 
dissipação sem grandeza, neurastenisando-a, 
adoecendo-a, conduzindo-a a uma velhice 
cheia de insónias e de pavores, de alucina- 
ções e de desordens nervosas, tão horríveis, 
íjue as criadas tinham de ficar velando de 
noite junto do seu leito, e que o próprio con- 
tacto da roupa lhe dava a impressão de que 
lhe estendiam sobre o corpo um lençol de ne- 
ve. Conversámos largo tempo. Falei-lhe do 
lenitivo que a prática de uma incomparável 
caridade trouxera á sua existência gasta em 
fazer o bem. Respondeu-me com a frase de 
Maria Leczinska: «La misericorde des róis 
est d'exercer la justice; et la justice des rei- 



UMA RAINHA 159 

nes c'est d' exercer la miséricorde.» De re- 
pente, a-pesar de todos os biombos e de todos 
os fogões eléctricos que a rodeavam, percebi 
que um arrepio Jhe crispara a face e lhe 
percorrera o corpo. A sua mão de artrítica 
estendeu-se para um timbre ; a marquesa de 
Unhão apareceu; e a velha Rainha, cuja mór- 
bida sensibilidade adivinhava a distância as 
correntes de ar, preveniu, afundando na seda 
das almofadas o seu perfil de ave decrépita : 

— Abriram uma janela no corredor... 

Levantei-me. Estava terminada a minha 
visita. Quando saí do palácio da Ajuda, não 
sei que pressentimento me assaltou. Pouco 
tempo depois, essa figura augusta de rainha, 
cheia de melancolia e de dignidade, erguia- 
se à altura patética da verdadeira tragédia. 
Assassinaram-lhe o filho. Atiraram-na para 
o exílio sob o fragor de uma revolução. Afo- 
garam em sangue as últimas pedras do seu 
diadema rial. E nunca mais a vi. 



O PINTOR DO ALENTEJO 



Era casa de Alberto Sousa, afundado nas 
almofadas de rico vermelho de um nobre ca- 
deirão D. João V, tive ontem o prazer de 
fazer, durante meia hora, uma encantadora 
viagem pelo médio e baixo Alentejo. Vi, com 
todo o sol e toda a côr de um dia coruscante 
de verão, o que de mais vivo e de mais pi- 
toresco pode oferecer-nos a arqueologia e a 
natureza em Beja — um celeiro, em Viana — 
uma horta, em Évora — um museu. Durante 
essa meia hora, o eminente artista, mestre 
na arte luminosa da aguarela, fez passar 
diante dos meus olhos deslumbrados uma sé- 
rie de trinta admiráveis cartões onde, late- 
jante de vida, faúlhante de sol, todo o Alen- 
tejo palpita e esplende na labareda das suas 
searas imensas, na confusão das suas feiras 
intermináveis, na mancha ruiva do seu gado, 

11 



162 ESPADAS E ROSAS 

na pedra doirada dos seus castelos dionisia- 
nos, na côr opulenta dos seus tijolos ver- 
melhos e dos seus azulejos mosárabes, nos 
seus lares, nas suas vielas, nas suas adegas, 
— em toda a riqueza maravilhosa da luz, 
do solo, da etnologia, dos monumentos, das 
tradições da mais fidalga e hospitaleira de 
todas as províncias de Portugal. Quando 
Théophile Gautier aconselhava, numa poesia 
célebre — «Peintre, fuis Vaquarelle!» — es- 
tava, decerto, longe de imaginar que a pin- 
tura deslavada e mole de 1840 viria a adqui- 
rir um dia semelhante poder de vibração, de 
intensidade, de luminosidade. Diante dos 
cartões de Alberto Sousa eu não me limitei 
a supor o Alentejo: vi-o, senti-o, respirei-o, 
fulgurou-me na retina, ardeu-me na pele, 
experimentei, perante essas obras de arte, a 
mesma sugestão de intenso, de ofuscante 
alentejanismo que até agora só me tinham 
dado os Ceifeiros de Fialho e a bárbara poli- 
cromia dos tapetes de Arraiolos, onde fulge 
e canta toda a charneca em flor. A aguarela, 
que já ilustrara entre nós os nomes de Ra- 
malho, de Hogan, de Gameiro, de Casanova, 
conta em Alberto Sousa — impressionista 
surpreendente, naturalista vigoroso, persua- 
sivo evocador dos monumentos e dos costu- 
mes populares portugueses — um dos seus 



O PINTOR DO ALENTEJO 163 

cultores mais sinceros, mais ardentes e mais 
pessoais. 

Vou vèr se consigo dar-lhes a impressão 
do que será, amanhã, a exposição do moço 
artista, flagrante reportagem regional que, 
pelo muito que sugere, me recordou a frase 
de Taine acerca de um pintor ilustre: — «M 
pense par des formes, comme nous pensons par 
cies mot$.y> A série dos seus cartões pode divi- 
dir-se, segundo a sua proveniência, em três 
grupos : cartões de Évora, na maior parte in- 
teriores da Sé, de conventos, de estalagens; 
cartões de Beja, — aspectos da planície, tre- 
chos de rua, interiores de igreja e de mos- 
teiro; cartões de Viana (a nobre Viana dos 
condes, a-par de Alvito, viçosa como um 
quinteiro minhoto) — hortas, olarias, adegas, 
trechos do castelo de D. Dinis. O primeiro 
grupo, se excluirmos uma porta manuelina 
da rua da Selaria, com o seu dintel de granito 
lavrado, um interior de estalagem onde alas- 
tra- a mancha de oiro dos esteirões e das me- 
didas de sal, e um recanto da casa capitular 
da Sé de Évora, rodeada de arcazes e de arma- 
retes seiscentistas, é quási todo consagrado 
à evocação carinhosa do velho convento do 
Calvário, de que Alberto Sousa fixa os mais 
interessantes aspectos (e com que ternura, 
com que incomparável sentimento do passa- 



164 ESPADAS E ROSAS 

do!) — o claustro alpendrado do século xvn, 
com a sua gárgula grosseira e a sua garrida 
de bronze; o refeitório; a torre sineira, tão 
caracteristicamente alentejana, com os sinos 
escondidos dentro de ventanas de tijolo arren- 
dado; o locutório profundo; o côro-de-cima, 
onde ainda se vê o cadeirado, a grade capu- 
cha, o facistol com o seu antifonário aberto, 
o pequeno órgão de cujo teclado parece que 
se ergueram há momentos as mãos da última 
freira. E', sobre tudo, na pintura da arqueo- 
logia de arte que este mestre português é 
inimitável. Precisamente porque possúe uma 
visão educada, porque sabe vêr e observar, 
Alberto Sousa tem a preocupação erudita do 
detalhe; mas consegue dá-lo sem sacrifício 
dos seus processos, pintando por grandes 
valores, manchando com uma largueza ma- 
gnífica que lembra às vezes, pela segurança 
e pelo vigor, a mancha da pintura de ólio. 
Nos cartões do segundo grupo — os de Beja 
— onde se encontram as obras-primas da sé- 
rie, ainda é mais sensível essa associação, 
na aparência contraditória, da largueza da 
factura e do culto do pormenor. A torre de 
Santa Maria; o trecho da rua do Cepo, com 
as suas chaminés mouriscas adufadas de ti- 
jolo, as suas assoteias, o seu arco, os seus 
esgrafitos; e, acima de tudo, os três cartões 



O PINTOR DO ALENTEJO 165 

do mosteiro da Conceição onde amou e so- 
freu Soror Mariana — a igreja, faúlhante de 
talha doirada do século xvn, o claustro, a 
casa-do-capítulo com os seus painéis e o seu 
poial corrido de azulejo mudejar, cheia de ar- 
cazes, de credencias, de tamboretes sobre as 
tijoleiras irregulares do chão — constituem, 
pela solidez do desenho, pelo vigor do colori- 
do, pela audácia dos efeitos, pela justeza dos 
valores, pela exactidão do detalhe arqueoló- 
gico, prodígios de virtuosismo difíceis de ex- 
ceder na arte da aguarela. Não se suponha, 
entretanto, que Alberto Sousa é apenas um 
pintor de arquitectura. O eminente artista 
sente a figura e a natureza com a mesma 
absorvente paixão. Os três cartões deste gru- 
po, em que interpreta a paisagem dos arre- 
dores de Beja, planícies imensas, fulvas de 
restolho, falseando ao sol e morrendo ao 
longe na vaga ondulação roxa das serras dis- 
tantes, são tão fortemente características do 
Alentejo das ceifas, que parece exalar-se 
delas, como um hálito de fornalha, o bafo 
ardente da terra. Mas, para Alberto Sousa, 
como para o inglês Watts, ale paysage seul 
ne prouoe rien»; é precisa a figura humana, 
o animal, o pormenor etnográfico a comuni- 
car-lhe vida, intenção, movimento, — e assim, 
nas suas interpretações da écloga alentejana 



166 ESPADAS B ROSAS 

há sempre, ou uma mancha negra e confusa 
de gado, bezoando, cabritando, tilintando os 
chocalhos de cobre das Alcáçovas sob a 
guarda dos alfeireiros e dos rabadões, como 
no admirável trecho da Feira de S. Louren- 
ço; ou o burro de um aguadeiro, como no 
Poço de Aljustrel; ou uma teoria de carros 
do Alentejo, de bestas de tiro, de jaezes, de 
albardões, de enxalmos, de atafais, como na 
geórgica doirada da Debulha. Não são menos 
ricos de côr e de poder sugestivo os cartões 
do terceiro grupo, — Viana. Exceptuados uns 
interiores de adega e de olaria, e um recanto 
da «horta do Patalocas», a parte verdadeira- 
mente interessante deste grupo é constituída 
por diferentes aspectos do castelo dionisiano 
que coroa a serra, e a cujo sopé dorme a 
vila, como uma pincelada verde, húmida e 
viçosa no meio dos sequeiros calcinados e 
adustos da região. Adivinha-se, na maneira 
de manchar, o êxtase voluptuoso com que 
Alberto Sousa evocou esse belo exemplar 
da arquitectura militar portuguesa do século 
xiv, com as suas cinco torres redondas, do 
tipo do donjon normando, eriçadas de coru- 
chéus de tijolo, a baba de bronze que escorre 
dos seus adarves seis vezes seculares, o mu- 
gre que morde, que doira, que esverdeio, 
que palpa, em coágulos de azêbre, cada es- 



O PINTOR DO ALENTEJO 167 

barro dos seus gigantes, cada fresta dos 
seus ajimezes, cada arquivolta dos seus ar- 
cos. Depois da geórgica, a epopeia. E dizer- 
se que o moço aguarelista pintou apenas em 
trinta dias esta vasta série regional onde 
palpita, lateja, resplandece o Alentejo intei- 
ro! E' que para êle, como para o velho Pu- 
vis de Chavannes, «o único repouso é o tra- 
balho; o resto é apenas fadiga». 



FREI COLHERÃO 



Os portugueses gostaram sempre muito 
de histórias de frades. Aí vai uma, para con- 
tar à lareira quando chegarem as noites de 
inverno. 

No fim do século xvn, assistia como vi- 
gário no convento de Odivelas o padre Frei ■ 
Manuel de Macedo, um dos cistercienses 
calinos a que se referem as colecções inédi- 
tas de «bernardices» que chegaram até nós, 
frade tamanhouço, vermelho, brutal, pouco 
dado á virtude e muito aceito no Paço, que 
passeava nas berlindas da Casa Rial o seu 
hábito branco de Alcobaça, e a quem as frei- 
ras tinham posto, não sei porquê, a desgra- 
ciosa alcunha de Frei Colherão. Ele bem 
sabia como as madres o tratavam na ausên- 
cia; mas nenhuma se atrevera ainda, tão 
grande potentado era na religião e no século 
Frei Manuel de Macedo, a pronunciar seme- 



170 ESPADAS E ROSAS 

lhante palavra diante dele, nem as leigas da 
cozinha quando badalavam dentro dos cal- 
deiros da sopa os grandes colherões de co- 
bre do mosteiro. Um dia, o padre vigário, 
amigo de se meter com as freiras, como to- 
dos os outros bernardos com praça de par- 
vos no tempo — Frei Pedro de Alencastre, 
Frei Pedro de Sousa, Frei João de Castelo 
Branco, Frei António de S. José — encontrou 
na copa a linda madre Dona Inácia de No- 
ronha, que tinha mãos de prata para doce e 
que estava enchendo de marmelada fresca 
cincoenta boiões de faiança que tinham vindo 
de Celas, chegou-se pé ante pé, travou-lhe 
da cinta, regaçou-lhe o manto, beijou-lhe a 
polpa do braço remangado onde tremia uma 
lanugem doirada de pêcego temporão, — e, 
se soror Inácia não grita e não acodem as 
donatas dispenseiras, não se sabe o que leria 
sido feito da copa, nem da marmelada, nem 
da freira, nem dos boiões, nem da honra do 
convento. E' claro, tratando-se de tão eleva- 
da personagem, a abadessa interveio, aba- 
fou-se o escândalo, mas D. Inácia de Noro- 
nha, que, segundo dizia, tinha costela rial e 
má venta para deixar que se baralhassem 
com elo, resolveu aproveitar o primeiro en- 
sejo para se vingar, publicamente, da bru- 
talidade de Frei Colherão. Estávamos nas 



FREI COLHERÃO 171 

calmas ardentes de junho, nas vésperas do 
dia do Baptista, e um frade franciscano, Frei 
Tomé da Anunciação de Maria, pregador, 
leitor apostólico, homem moço, esperto, gu- 
loso como um cão de regalo e inimigo de- 
clarado de todos os padres de S. Bernardo, 
tinha chegado de liteira ao convento de Odi- 
velas para pregar o sermão de S. João. Como 
a fama da marmelada de Soror Inácia cor- 
ria mundo, Frei Tomé, que já 1'ôra mandado 
repreender por Frei Samaniego, geral da 
Ordem, por pedir doce a freiras e donatas, 
não se pôde conter que não batesse à porta 
da cela da madre, a mendigar «um boiãosi- 
nho de marmelada, daqueles que Sua Carida- 
de confeitava no Céu». Ela acolheu-o com o 
seu melhor sorriso, levou-o à copa a vêr 
os cincoenta potezinhos de faiança azul de 
Coimbra atestados de compota de marmelo, 
e quando já o frade aguava e o gorgomilo 
lhe subia e descia abroxado na pescoceira 
do hábito de saragoça, D. Inácia pergun- 
tou-lhe: 

— Sempre é Vossa Paternidade que prega 
amanhã o sermão do Baptista? 

— Sou eu, reverenda madre. 

— Conhece Vossa Paternidade o vigário 
Frei Colherão >? 

^-De ginjeira. 



172 ESPADAS E ROSAS 

— E' amigo dele? 

— Como o enforcado da corda. E' bernar- 
do, e basta. 

— Pois eu dou a Vossa Paternidade tan- 
tos boiões desta marmelada, quantas vezes 
disser a palavra Colherão no seu sermão de 
amanhã! 

Ficou fechado o negócio com a ladina da 
freira. Nessa noite, Frei Tomé da Anuncia- 
ção de Maria, que acamara numa casa de 
pousada fora do mosteiro, andou para trás e 
para diante com os borrões do sermão, pas- 
seou, escreveu sobre a estante de arquibanco 
até de madrugada, e quando adormeceu por 
fim, extenuado, entre os cheirosos lençóis 
de linho do convento, foi para sonhar com a 
bem-aventurança num paraízo resplandecen- 
te feito de tanta marmelada, quanta podiam 
dar, em cada verão, ressumantes de seiva, de 
perfume e de sol, todos os marmeleiros flo- 
ridos dos pomares de Portugal. No dia se- 
guinte, estava a igreja cheia de povo, as 
freiras na grade doirada do côro-de-cima, e 
o vigário Frei Colherão, rechunchudo, ver- 
melho, solene, assentado num banco de es- 
paldar em frente do púlpito, junto á porta 
da Metade, — quando o pregador assomou, 
com a estola branca sobre o chiote de S. 
Francisco. O coração de Soror Inácia batia 



FREI COLHERÃO 173 

mais apressado que a batuta de um mestre 
de capela numa fuga de Glória. Que se iria 
passar? Teria Frei Tomé da Anunciação de 
Maria a coragem de falar em Colherão diante 
do poderoso padre Macedo, que andava nos 
coches de El-Rei e que era capaz de des- 
lombar o franciscano se remangasse de um 
estadulho para êle ? Seria Frei Colherão 
homem para ouvir e calar? Entretanto, o 
sermão principiou. No meio de um silêncio 
profundo, Frei Tomé, discípulo dilecto de 
Gôngora e S. Juan de la Cruz, começou, em 
voz seráfica, por descrever o jardim do Céu, 
invocando em seguida os coros angélicos para 
virem colher flores e coroar o glorioso már- 
tir S. João Baptista. — «Colherão os anjos ro- 
sas?» — perguntava êle. E logo, estendendo o 
braço na direcção de Frei Manuel de Macedo, 
cujo sumptuoso hábito se destacava entre o 
povo como uma pincelada branca: — «Colhe- 
rão! Colherão!» Um murmúrio correu, de 
alto 'a baixo, a multidão dos fiéis. Todas as 
cabeças se voltaram para o padre vigário do 
mosteiro. Das grades do coro rebentaram 
frouxos de riso. Mas o pregador, impertur- 
bável, prosseguiu: — «Colherão os anjos açu- 
cenas?» E, estendendo o braço: — «Colherão! 
Colherão!» — «E lírios, e cravos, e jasmins? 
Colherão, colherão, colherão!» Frei Manuel 



174 ESPADAS E ROSAS 

de Macedo, apoplético, o cachaço rubro como 
uma posta de sangue sob a cogula derrubada, 
levantou-se do escano, e emquanto Frei To- 
mé, serenamente, continuava — « Colherão \ 
Colherão!» — atirou os punhos crispados para 
o pregador e gritou-lhe cá de baixo, com 
toda a força da sua indignação, com todo o 
vigor dos seus pulmões: 

— Colherão um raio que o parta a Vossa 
Paternidade ! 

Madre Inácia de Noronha estava bem vin- 
gada. No dia seguinte, Frei Tomé da Anun- 
ciação de Maria, radiante, levava comsigo, na 
liteira e nos albardões dos machos, toda a 
marmelada do convento. 



AS QUINTAS-FEIRAS DE EL-REI 



Havia em Évora, no convento da Cartuxa, 
um velho códice de pergaminho, fólio gran- 
de, com fortes pastas pregadas de ferro e 
o aparo das folhas doirado, a que os frades 
chamavam «Livro do Conselho de El-Rei 
D. Duarte» e que tinha sido doado à casa de 
Scala Coeli pelo seu instituidor, o arcebispo 
D. Teotónio de Bragança. Esse códice, em 
parte escrito, ao que parece, pelo próprio 
punho do rei, continha indicações tão curio- 
sas e tão completas acerca de D. Duarte, 
que algumas das suas peças tornavam possí- 
vel reconstituir e acompanhar, quási hora a 
hora, a vida pública e privada do monarca 
durante o período da sua efémera rialeza. 
Infelizmente, porém, depois de muito em- 
prestado, o original deste cimélio dos velhos 
cartórios monásticos portugueses, que em 
1796 ainda existia na livraria do convento, 



176 ESPADAS E ROSAS 

perdeu-se. A quem cabem as culpas? Ao 
marquês de Abrantes? Ao académico da Rial 
Academia de História, Martinho Mendonça e 
Pina? Ao prelado dos brunos de Évora, que 
facilitou de mais o códice? Não sei. O que 
vale é que subsiste dele uma cópia mandada 
fazer no século xvn pelo conde da Ericeira, 
e que essa cópia, completa e na posse do 
Estado, nos permite conhecer hoje os curio- 
sos apontamentos em que D. Duarte, como 
«1'homme aux petits papiers» de Charcot, nos 
deixou descritas a sua vida de rei, as suas 
preocupações de erudito e os seus regimes 
de doente. 

Escolhamos Um dia da semana — a quinta- 
feira, por exemplo — e tentemos essa recons- 
tituição, que pela primeira vez é feita e que 
tão interessante se me afigura para a histó- 
ria da magistratura rial no nosso país. Como 
vivia, no século xv, um rei português? Em 
que passava o seu dia o rei D. Duarte? 

O Rei-Saudade levantava-se «bem cedo 
pela manhã». Ainda em jejum, tomava a sua 
bebida predilecta: «uma onça de açúcar des- 
temperado com água fria». Era a receita do 
senescal de França, transmitida a D. Duarte, 
com outras regras da bárbara higiene do 
tempo, por Mossêm João Morsala. Apenas 
erguido do leito, «com o capelo bem abafado 



A8 QUINTAS-FEIRAS DE BL-REI 177 

e botas bem grossas e bem atacadas» (o rei 
tinha grande sensibilidade ao frio), recebia, 
nos dias em que não havia missa cantada na 
capela do Paço — e a quinta-feira era um 
deles — o seu confessor Frei Gil Lobo, da 
ordem de S. Francisco; o seu pregador, Frei 
João de S. Tomé, agostinho eloquente, «fa- 
mosíssimo doutor», como lhe chamara o 
papa Martinho V; o bispo-esmolér, D. Ál- 
varo de Abreu, e os capelães. Era a hora 
das questões de consciência, das disputas 
teológicas, das dúvidas morais, da recolhida 
meditação dos filósofos e dos doutores da 
Igreja. D. Duarte, que tinha como regra de 
boa saúde «andar de pé e estar pouco senta- 
do», ouvia-os passeando, embrulhado na sua 
samarra negra, entre os arquibancos da li- 
vraria ou do scriptorium. Uma ou duas ho- 
ras depois, chegavam os físicos, os cirur- 
giões, os boticários, — o ilustre mestre João 
Morsala, Abraão Guedelha, astrólogo e ar- 
quiatra, mestres Afonso e Rodrigo, mestre 
Ananias, boticário judeu, com a estrela ver- 
melha de cinco pontas sobre o ventre da 
loba. Com o mesmo escrúpulo com que tra- 
tava do espírito, o rei, cheio de preocupações 
nosofóbicas, oprimido sempre do sentimento 
ancioso da iminência de uma doença grave, 
tratava agora do corpo, medicava-se e fazia 

12 



178 ESPADAS E ROSAS 

medicar os infantes e a rainha, comentava 
Avicena, discutia os mestres cirurgiões de 
Bolonha, citava de cor o Euchirídion e os 
Versos Doirados de Pitágoras, retocava, acon- 
selhado pelos seus capelos amarelos, o «re- 
gimento de D. Duarte para quem tiver o 
estômago com freima», ou, como diríamos 
hoje, um «regime de dispépticos», de sua 
invenção. Recebia ainda, se lhe ficava tem- 
po, o vedor, o mordomo-mór, os contadores, 
— e ouvia missa rezada. A hora decorrida 
entre o oficio divino, que acabava às 11, e o 
jantar, ou «comer», que principiava ao meio 
dia, ocupava-a o monarca, ás terças e quin- 
tas-feiras, em dar despacho nos «feitos de 
justiça», um despacho lento, laborioso, me- 
ditado, difícil, em que se reconhecia já a in- 
fluência do espírito jurídico da Renascença, 
e se adivinhava a mental strain que cara- 
cterizou, com o seu cortejo de insónia, de 
depressão, de sentimento de fadiga, de esta- 
dos dolorosos de consciência, a rialeza infe- 
liz de D. Duarte. O jantar deste príncipe, 
segundo o regime do senescal de França, 
por êle adoptado, compunha-se (diz o livro 
da Cartuxa de Évora, fls. 203, v.) de «vianda 
assada de carneiro, ou carnes assadas de 
pena, pouca potagem, pouco pão, pouco sal, 
pouca salsa». Era o mesmo espírito de so- 



AS QUINTAS-FEIRAS DE EL-REI 179 

briedade da idade-média, que já ditara as 
leis de Afonso III de Portugal (1258) — «em 
a cozinha de El-Rei não adubem senão de 
duas carnes» — e as de Filipe o Ousado de 
França (1279) — «quod nullus possié dare in 
suo conoivio cum potagio praeter duo fercula 
curn quodam inter ferculo». D. Duarte «bebia 
pouco», apenas água, ou vinho destemperado 
com água, a despeito das instâncias dos 
médicos, que lhe aconselhavam vinho puro 
e uma vita sescualis mais intensa. No fim 
das refeições, conforme a indicação de Mos- 
sêm Morsala, comia sempre «uma fatia de 
pão torrado, sem beber». Vinham, em segui- 
da, as horas de repouso da sesta. A-pesar do 
seu conselho aos doentes — «guardem-se de 
dormir de dia!» — D. Duarte, sobre tudo no 
verão, passava uma hora pelo sono. Depois, 
brincava com os infantes, ouvia a rainha 
tocar manicórdio, espotrejava cavalos «em 
osso e albardão», recebia os jubeteiros, os 
alfaiates, os ourives. Das 3 horas às 8, con- 
sagrava-se inteiramente ao despacho dos 
«feitos da fazenda», com os vedores Pêro Gon- 
çalves e Fernão Vasques, com o tezoureiro 
Fernão Gil, com os escrivães Pêro Afonso, 
Paio Roís e Alvareanes. A's 8, ceava: «vian- 
da assada, pouca, e uma torrada de pão». 
Sobre a ceia, ouvia os agravos dos bestei- 



180 ESPADAS E ROSAS 

ros» e fechava-se com o escrivão da purida- 
de, Nuno Martins da Silveira. A's 10, tomava 
a onça de açúcar destemperado com água 
fria, recolhia-se à câmara da rainha, e dei- 
tava-se, «cobrindo bem a cabeça com uma 
toalha». Metódico, pontual, rigoroso, forma- 
lista, um pouco frio, com todas as virtudes 
e todos os defeitos da mãe inglesa, D. Duar- 
te não se afastava um minuto do horário 
estabelecido, e pouco o variava no resto da 
semana. Nos dias de missa cantada, não re- 
cebia de manhã o bispo-esmoler, nem o con- 
fessor, nem o pregador, nem os capelães; 
aos sábados, entre a missa e o jantar, e nos 
dias de jejum às horas das refeições, dava 
audiência pública. 

E aqui está como passava o seu tempo 
um monarca português do século xv. «Le 
plus difficile en histoire — disse-o Melchior 
de Vogue — c'est de faire viure les hommes» . 



HISTORIA DE UMA ORELHA 



Quando há dias fui, à hora do chá, a casa 
de Miss Maud Baldwin, a encantadora in- 
glesa que, com tanta vivacidade, desmente a 
afirmação de Carlyle de que «os ingleses são 
um povo de mudos», encontrei-a alegre, 
afogueada, radiante, um cháile antigo de 
Paisley sobre os ombros nus, contando â 
irmã que tinha acabado de chegar de França 
o seu afilhado de guerra. 

— Inglês? — perguntei eu, beijando-lhe a 
mão. 

— Português! Então você não me acha 
digna de ter um afilhado português? 

— Oficial? 

— Soldado. João Maria, batalhão do 17, 
de Beja. Quer vê-lo? Tenho-o aqui. 

— Na algibeira? 

— Que tolice! Lá dentro, com os criados. 
Miss Maud levantou-se, tocou a campai- 



182 espadas e rosas 

nha, compoz os cabelos ao espelho da sua 
coiffeuse Império, verde- amêndoa e oiro, e 
ordenou, quando a touca branca da servant- 
maid assomou â porta : 

— O meu afilhado que venha cá. 

Daí a pouco, um rapagão alto, desemba- 
raçado, trigueiro, a pele curtida do vento e 
do sol, musculoso como os sobreiros dos 
montados alentejanos, entrou sem constran- 
gimento na sala, pisando os tapetes com as 
suas largas botas inglesas de tony, baças e 
quadradas, onde parecia adivinhar-se ainda 
a lama das terras húmidas da Flandres. 
Olhámo-lo todos com simpatia, com afecto 
e com respeito. Todos nós compreendemos, 
diante desse belo rapaz em cuja farda negra 
de terra e de pólvora floria o traço de lã azul 
de um ano de trincheiras, que era ao seu 
sacrifício glorioso, e ao de sessenta mil «ser- 
ranos» como êle, que Portugal devia hoje a 
honra excepcional de ocupar o logar dos ven- 
cedores na grande assembleia que vai ditar 
a paz ao mundo. Ele encarava-nos, sorrindo, 
rolando o boné nas mãos, deixando-se admi- 
rar no orgulho ingénuo de um porqueiro da 
charneca que marchava com o aprumo de um 
f/entleman e que se gabava de ter beijado 
lindas raparigas em França. Só quando se 
voltou, num movimento de cabeça mais rá- 



HISTORIA DE UMA ORELHA 183 

pido, para responder a Miss Maud, eu notei 
que lhe faltava uma orelha — a esquerda — 
reduzida, sob a pastada lanzuda e fulva dos 
cabelos, a um coto arroxeado de cicatriz. 

— Estiveste no combate de 9 de abril? 

— Estive, sim senhor. 

— Foste ferido ? 

— Não senhor, não fui. 

— Então, que fizeste da tua orelha? 

— Foi um boche que ma comeu, faz ago- 
ra oito meses. 

— Um boche? 

As senhoras aproximaram-se, curiosas. 
Miss Maud, que servia o chá, fez assentar o 
seu afilhado de guerra numa poltrona, ao pé 
de nós. O soldado ia tomar chá também, — 
mais comodamente, decerto, do que o tomava 
ao som do canhão, em Armentières, nas 
trincheiras inglesas. Todos quizeram saber 
a história da orelha. João Maria, em cujos 
olhos se adivinhava a melancolia cinzenta do 
voo das cegonhas na crosta de oiro dos gran- 
des poentes do Alentejo, não teve remédio 
senão contar em que circunstâncias lhe ti- 
nham arrancado esse pedaço de carne que — 
segundo as suas próprias expressões — «fa- 
zia tanta falta na cara de um homem». 

Diante das trincheiras que ocupava na 
Flandres o batalhão do 17, de Beja, ficara en- 



184 ESPADAS E ROSAS 

cravado na «terra de ninguém», para além 
da rede de arame farpado, um tracto verde e 
viçoso de horta. Todas as manhãs, quando o 
sol doirava a terra molhada de orvalho, íam- 
se os olhos dos soldados, fartos de bolacha e 
de corned-beef, na verdura fresca daquelas 
couves, daquelas alfaces, daquelas nabiças 
ressumantes e inacessíveis que desabrocha- 
vam, e cresciam, e tufavam ao abandono de- 
baixo do varejo das balas, como se a mão de 
Deus as estivesse criando para um festim si- 
lencioso de lagartas e de caracóis. João Maria 
olhava, como os outros, a veiza fresca que vi- 
cejava no no jnan's land; aguava- se- lhe a bo- 
ca; cresciam-lhe ganas de deitar uma saca às 
costas, de galgar o talude, e de ir, na cara 
dos alemães, trigueiro e impassível como um 
deus de bronze, buscar uma alforjada de 
hortaliça para o rancho do seu batalhão. Mas 
as ordens eram expressas; quando uma ca- 
beça se levantava nas trincheiras portugue- 
sas, as metralhadoras boches crepitavam; e 
os heróicos alentejanos do 17, condenados à 
imobilidade, como toupeiras, no seu buraco 
de terra, — resignavam-se a vêr pelos peris- 
cópios as couves tronchudas e magnificas 
daquele rincão flamengo, que não eram de 
ninguém, e que entretanto (coisa curiosa!) 
ninguém se atrevia a colher. Um dia, porôm, 



HISTORIA DE UMA ORELHA 185 

a fuzilaria alemã foi mais viva do que de 
costume; choveram as granadas de mão; a 
rede de arame farpado voou estoirada, em 
farrapos, e foi preciso escalar homens para 
nessa mesma noite, pela sombra, de rastos, 
irem concertá-la. Pediram cinco ; oferece- 
ram-se vinte. Um deles foi João Maria. Por 
desdém do perigo? Por ostentação de valente? 
Por fanfarronada.de alentejano? Era a glória, 
que lhe resplandecia diante dos olhos? Deus 
do céo ! — não ; era alguma coisa de menos 
elevado, de menos sublime, mas de mais ter- 
reno e de mais saboroso: eram as couves. 
Quando a noite caiu, João Maria e os seus 
quatro companheiros, embrulhados por causa 
do frio em pelicos e safões de pastor, como 
os zagais de barro de Machado de Castro, 
saíram rastejando, espapando-se com a terra, 
compozeram como Deus quiz a rede de fer- 
ro, e, acabado o serviço, se haviam de vol- 
tar para a trincheira, avançaram, às apalpa- 
delas, a caminho da horta. Ia tudo às mil 
maravilhas, e já uma abada de couves fres- 
cas ramalhava no saco, quando duas som- 
bras se lhe levantaram pela frente, e depois 
outras duas, enormes, recortando o casco 
ponteagudo na noite azulada. Eram boches, 
que vinham também á hortaliça. Não po- 
diam, nem uns nem outros, disparar um 



186 ESPADAS E ROSAS 

tiro, soltar um grito de alarme. Estavam 
metidos entre dois fogos; ao menor rumor, 
a metralha chovia sobre eles, de ambos os 
lados. Tiveram que liquidar o caso lutando 
corpo a corpo, em silêncio, na escuridão. 
João Maria atirou-se ao alemão mais espa- 
daúdo; abraçaram- se ambos, resfolegando; 
abateram os dois na terra; rolaram, qual 
de baixo, qual de cima, ao soco, ao pontapé, 
à dentada. O alentejano ia dominar o outro, 
fincar-lhe um joelho na arca do peito, — 
quando, de repente, o boche, hirsuto, pin- 
gando baba e lama, lhe deitou os dentes a 
uma orelha, e o aferrou, e a sacudiu, e a cor- 
tou cerce, como um cão. O bravo rapaz sen- 
tiu o sangue quente aos borbotões na cara; 
retesou-se; deu um salto à rectaguarda; con- 
seguiu, num relance, abrir a navalha, — e 
cravando-a até aos cabos no ventre do ale- 
mão, como quem mata um porco, revolveu, 
retalhou, rasgou. Quando voltou para a trin- 
cheira vinha com uma orelha de menos, — 
mas trazia no saco o rancho do batalhão. 

— E soube-te bem? — perguntou Miss 
Maud, sorrindo. 

— Tão bem, minha madrinha, que daí a 
três dias era capaz de dar a outra orelha por 
outro saco de couves! 



A MORTE DE SANTA ISABEL 



De que morreu Santa Isabel? 

Conhecemos, pela estátua pintada e doi- 
rada jacente sobre a arca tumular de Santa 
Clara, pela tábua de Colónia (que é do sécu- 
lo xiv, mas não deve ser um retrato directo), 
e pelas declarações do inquisidor Gaspar 
Borges de Figueiredo e dos médicos na pri- 
meira exumação (1677), os caracteres somá- 
ticos da Rainha: franzina, delicada, aspecto 
doentio, olhos verdes, estrabismo convergen- 
te, tipo de dólico-loira acusando a influên- 
cia dos arqui-avós alemães. Para o estudo da 
sua vida e da sua morte, o único documento 
contemporâneo é a Lenda, escrita imediata- 
mente depois do falecimento de Isabel de 
Aragão. Vejamos o que a Lenda nos diz 
acerca da última doença da Rainha, e tente- 
mos interpretar, sob o ponto de vista médi- 
co, as vagas indicações fornecidas, há qui- 



188 ESPADAS B ROSAS 

nhentos e oitenta e quatro anos, pelo seu 
biógrafo anónimo. 

Santa Isabel, na intenção de evitar a 
guerra iminente com Castela, partiu de 
Coimbra para Extremoz, onde se encontrava 
o filho, Afonso IV. Chegou a esta vila no 
fim de junho de 1336, e adoeceu logo. De 
quê? «Ouve destemperamento per rezom de 
huma levadiga que lhe sahio em no braço», 
— informa a Lenda. Quer dizer: sintomas 
gerais, perturbações gastro-intestinais, fe- 
bre, atribuídos pelas pessoas que a rodeavam 
a uma causa local, determinada lesão que lhe 
apareceu não se sabe em que região do braço. 
Que lesão era essa, a que chamavam no tem- 
po «levadiga»? Encontra-se a palavra num 
documento proveniente do cartório da Cole- 
giada de Guimarães, de data pouco posterior 
à da morte da Rainha (1348), que diz : « . . . veo 
a pestelencia, e a mortandade de door de le- 
vadigas por todo o mundo tam grande, que 
nom ficou viva a dizima dos homees, e rao- 
lheres». Acerca da mesma peste grande, 
refere o Livro da Noa, de Santa Cruz de 
Coimbra: «... por São Miguel de Setembro 
se começou esta pestilência, foi grande mor- 
tandade pelo mundo assy que egualmente 
morrerom as duas partes das gentes; e as 
demais doenças erão de levaçõens, que tinhão 



A MORTE DE SANTA ISABEL 189 

nas verilhas, e sob os braços». Dôr de leva- 
digas, ou doença de levações, era, portanto, a 
peste; e levação, ou levadiga, o bubão cara- 
cterístico desta infecção, ou, genericamente, 
o que está de acordo com a própria etimolo- 
gia, qualquer abcesso, fleimão, ou tumor não 
pestoso. Faltam todas as indicações sobre a 
natureza e qualidade do tumor que afligia 
Isabel de Aragão; sabe-se apenas que an- 
dava ligado, e que dele saía sangue: «o 
pano com que ligavão as mesinhas que poi- 
nha a Rainha, andava em pano sangue, que 
sairá daquela levadiga». Vejamos a evolução 
da doença. Na segunda-feira, 1 de julho, Santa 
Isabel não pôde já levantar-se : «não saio da 
cama ao Paço, ouvir missa segundo soia». 
E' natural que a febre tivesse aumentado, 
porque sobreveio delírio: «E jazendo esta 
Rainha Dona Beatriz sendo acerca da cama, 
a Rainha Dona Isabel disse à Rainha D. Bea- 
triz: Filha Senhora, dade logo a essa Dona 
que" ahi vae. E a Rainha: que Dona he? E 
ela disse: essa que por ahi vae dessas ves- 
tiduras brancas. E a Rainha, nem as outras, 
nom vião cousa do que ela dizia.» Não se 
sabe como Isabel de Aragão passou os dias 
2 e 3, terça e quarta. Na quinta-feira, 4, es- 
tava relativamente bem, não inspirando cui- 
dados aos próprios médicos: «nom cuidarom 



190 ESPADAS E ROSAS 

os fizicos que por aquela dor sua morte acer- 
ca fosse». Levantou-se «de gram manhãa» ; 
confessou-se; saiu da câmara «sem ajuda 
de outrem, mui esforçada» ; «veio em gio- 
lhos até ao altar», e comungou. A' noite, 
quiz levantar-se outra vez; teve uma verti- 
gem que a obrigou a amparar-se ao leito; e, 
em seguida, uma síncope: «E estando El- 
Rey ante a porta da camará, a Rainha caiose 
da cama e onconstou-se a ela, e começou de 
esmorecer. Aqueles que em a camará estavão 
derom vozes a El-Rey. Tornou á camará, e 
El-Rey tomandoa per as mãos, e beijandoas, 
acordou a Rainha daquel esmorecer, e veo 
a falar com El-Rey em como esmorecera.» 
Disse ainda algumas palavras, — «Maria, 
mater gratiae, mater misericordiae» : depois, 
«foi enfraquecendo no dizer e falar, que a 
não podião entender», e, nessa mesma noi- 
te, 4 de julho, morreu. Eis tudo quanto, de 
fonte coetânea, se sabe acerca da última 
doença e da morte de Isabel de Aragão. Será 
possível, com estes elementos, formular um 
diagnóstico retrospectivo? 

A idea da peste, e, por conseguinte, de 
uma adenopatia pestosa supurada da axila, 
idea naturalmente sugerida pela designação 
de «levadiga» dada ao tumor do braço da Rai- 
nha, parece-me que deve ser posta de lado. 



A MORTE DE SANTA ISABEL 191 

A peste só doze anos mais tarde (1348) vol- 
tou a grassar com intensidade em Portugal. 
Alem disso, o pouco que se sabe da evolu- 
ção da doença de Santa Isabel contraria essa 
hipótese. O estado da Rainha, no próprio 
dia da sua morte, era aparentemente tão sa- 
tisfatório, que os tísicos estavam longe de 
suspeitar um desenlace fatal. De resto, esses 
físicos — mestre Pedro, depois bispo da Guar- 
da, mestre Tomé, reitor de S. Julião, homens 
superiores do seu tempo, e, sobre tudo, o 
médico árabe de D. Afonso IV, que com êle 
estava em Extremoz —deviam conhecer bem 
a peste, e não lhes passariam desapercebi- 
dos os sintomas da grande pandemia medie- 
va, se a ela tivesse sucumbido Santa Isabel. 
Também não julgo provável a hipótese de 
uma pústula maligna, a que se inclina, na 
sua admirável obra sobre Isabel de Aragão, 
o eminente professor dr. António de Vas- 
concelos. Em primeiro logar, no caso da 
Rainha trata-se de uma lesão no braço; e os 
locais predilectos da inoculação carbunculosa 
são as partes descobertas, a face, o pescoço, 
as mãos. Isabel de Aragão, embrulhada no seu 
hábito de donata de Santa Clara, e viajando 
dentro de umas andas fechadas, poderia ainda 
ser inoculada nas mãos, ou na face ; mas não 
era de crer que o tivesse sido na polpa dos 



192 ESPADAS E ROSAS 

braços, rigorosa e monacal mente cobertos 
De resto, nem a pústula maligna correspon- 
de ao que, no século xiv, se chamava «leva- 
diga», que é propriamente o abcesso, o bu- 
bão, nem se explicaria, perante o aparatoso 
síndroma do carbúnculo, a tranquilidade e o 
optimismo dos médicos. O caso da Rainha 
deve, quanto a mim, limitar-se a um aciden- 
te local de natureza inflamatória, um furún- 
culo, um abcesso, um fleimão que determi- 
nou sintomas gerais graves num organismo 
enfraquecido pela idade e pela doença. Santa 
Isabel contava, ao tempo da sua morte, 62 
anos; e, onze anos antes, já ela declarava 
que, a-pesar de ter vestido o hábito, a falta 
de saúde não lhe permitia a observância da 
regra e da ordem «por que somos em tal 
idade, e em tal estado, e avemos taes enfer- 
midades, que nom poderiamos soster nem 
comprir aquelo» (Declaração de Santa Isabel, 
in Monarch. Lusit., VI, 383). Não me parece 
improvável, perante as suas tendências sin- 
copais, que a Rainha fosse uma cardíaca, 
mais ou menos compensada; nem seria tam- 
bém para estranhar, em Isabel de Aragão, a 
existência da diabete, dada a acumulação da 
hereditariedade em todas as famílias dinásti- 
cas, o fundo nevropático das estirpes de 
Aragão, de Gourtenay, de Hoenstauffen e de 



A MORTE DE SANTA ISABEL 193 

Sabóia, e as estreitas relações, já, de resto, 
muito estudadas, entre a diabete e as nevro- 
patias (Langiewiez, Griesinger, Lockart- 
Clark, Pavy, Féré, etc). A's condições de mí- 
nima resistência do seu organismo, empo- 
brecido por causas hereditárias, por doenças 
adquiridas, e pelas práticas abstinentes de 
uma vida quási monástica, vieram ainda jun- 
tar-se, naquele momento, o abalo moral pro- 
duzido pela iminência da guerra, e a fadiga 
excessiva de uma jornada de Coimbra a Ex- 
tremoz, pela charneca, debaixo dos calores 
ardentes de junho, nas terríveis andas por- 
tuguesas ou nas selas galegas ouropeladas 
de Afonso III. Um sopro bastava para apagar 
a pequena chama daquela vida. Santa Isabel 
deve ter sucumbido, segundo todas as pro- 
babilidades, ou a uma síncope cardíaca pro- 
duzida no decurso dos sintomas gerais de 
um fleimão axilar, ou a acidentes infeccio- 
sos ou adinâmicos consecutivos a um des- 
ses fleimões gangrenosos, tão vulgares nos 
diabéticos. 



13 



AS NOIVAS DE MATUSALEM 



Há meses, em S. Carlos, no intervalo de 
um concerto em que apenas se tocou Bee- 
thoven, fui visitar no seu camarote M. ine X, 
que veste como uma boneca, raciocina como 
uma criança e fuma como um homem. Es- 
tava com ela uma das suas melhores amigas 
que, por ser a mais recente, eu não conhecia 
ainda. M. me X. teve a gentileza de nos apre- 
sentar, — com a expressão vagamente desde- 
nhosa que já observei em muitas mulheres 
quando apresentam uma amiga mais interes- 
sante do que elas. Era uma loira esplêndida, 
com os perigosos trinta anos de Balzac e uns 
ombros olímpicos capazes de conduzir os 
quatorze filhos de Niobe. Admirei-a com a 
profunda convicção com que todos os portu- 
gueses admiram a mulher dos outros, e con- 
fesso que lhe beijei as mãos muito menos 
por cortezia do que pelo desejo de sentir, de 



196 ESPADAS E ROSAS 

aspirar a pele morna daqueles graciosos de- 
dos, que me davam a impressão de um pe- 
queno molusco côr de rosa sobre cujo dorso 
tivesse caído uma pérola. Percebi que M. me 
X. lhe chamara Viscondessa de qualquer 
coisa, e achei que lhe ficava bem o título. 
Conversámos. Falou-se da nona sinfonia; 
discutiu-se música alemã; disse-se mal de 
toda a gente que estava nos camarotes; e, a 
propósito da mulher do decrépito general 
Lencastre, que devia ter trinta e dois anos e 
recortava na penumbra de uma friza o seu 
perfil triste de marfim doirado, não pude 
deixar de observar, com a maior naturalidade 
do mundo: 

— Já reparou, Viscondessa, na rapidez 
com que envelhecem as mulheres novas que 
se casam com velhos? 

A encantadora criatura sorriu, e eu, ani- 
mado por aquele sorriso, fiz toda a espécie 
de considerações acerca da singular particu- 
laridade, que possuem os maridos velhos e 
decrépitos, de envelhecer rapidamente as 
mulheres novas com quem se casam, como 
se a senilidade fosse uma doença contagiosa 
susceptível de transmitir-se pela intimidade 
conjugal. Não era uma blague de ocasião; era 
um facto já muitas vezes observado por mim, 
e que se repetia com a fatalidade de uma lei 



AS NOIVAS DE MATUSALEM 197 

biológica. Algumas raparigas que eu conhe- 
cera em solteiras, de uma frescura, de uma 
alegria, de uma graça de flores, fui encontrá- 
las mais tarde, poucos anos, às vezes poucos 
meses depois do seu casamento com sexage- 
nários e septuagenários, completamente mu- 
dadas, umas velhinhas precoces, estioladas, 
ressequidas, tristes, curvadas como pequenas 
múmias, e — coisa curiosa! — com uma acen- 
tuada tendência para adquirir as mesmas 
atitudes, a mesma expressão, a mesma fisio- 
nomia dos maridos. Estava provado já, desde 
os reis bíblicos até à decrepitude de Goethe 
e aos conselhos de Boerhave ao burgrave de 
Amsterdam, que o contacto com a gente 
nova, remoça; não admira, portanto, que o 
contacto com a gente velha, envelheça. Um 
organismo moço que se condena a hábitos 
senis, cujo ritmo de vida tem de ajustar-se 
ao ritmo lento da existência de um velho, sofre 
necessariamente o influxo de desarmonias 
profundas que hão de traduzir-se no abaixa- 
mento do seu tónus vital. Todas as suas 
energias adormecem ; todos os seus tecidos 
se estiolam, como polpas de flor ao sol ; a 
braditrofia instala-se com o seu cortejo de 
intoxicações, e essas semi-esposas, essas 
pobres noivas de Matusalèm, velhices preco- 
ces e, até certo ponto, velhices artificiais. 



198 ESPADAS E ROSAS 

simulam aos trinta anos a expressão valetu- 
dinária dos setenta, e — suprema irrisão! — 
acabam por se parecer fisicamente com os 
maridos, mercê de um singular mimetismo 
conjugal que é, para a mulher, o maior cas- 
tigo dessas uniões de interesse e de conve- 
niência. Quando eu estava dizendo isto, M. me 
X. tocou-me significativamente com o pó, a 
porta do camarote abriu-se, entrou um ve- 
lho, alto, calvo, distinto, de óculos de oiro 
e grande barba branca, e a Viscondessa, vi- 
sivelmente contrafeita, apresentou-mo, bai- 
xando os olhos: 

— Meu marido. 

Não havia dúvida de que eu tinha feito uma 
gaffe. Ainda quiz, em voz baixa, confessar a 
essa linda mulher que ela era uma excepção, 
que perante ela a minha teoria dos maridos 
velhos abrira falência, que a sua mocidade 
de flor era capaz de resistir ao hálito funes- 
to de todos os patriarcas da Bíblia, — mas o 
concerto recomeçou, o Visconde tossiu, M. me 
X. levou o lenço à boca para não se rir de 
nós três, e eu não tive remédio senão descer 
á plateia, instalar-me no meu fauteuil, e ouvir 
outra sinfonia de Beethoven, entre uma fran- 
cesa, escandalosamente magra, decotada até 
aos joelhos, e uni oficial de marinha, invero- 
símil mente gordo, que cabeceava com sono. 



AS NOIVAS DE MATUSALBM 199 

Passou-se tempo. Nunca mais me lembrei 
da admirável criatura que encontrara no 
camarote de M. me X. Ontem, à hora do chá, 
numa tarde de ligeira névoa que me fez pen- 
sar em Paris, uma limousine, scintilante de 
metais, parou à porta da Marques, e uma 
mulher loira, toda vestida de veludo preto, 
um béret e uma gola enorme de lontra a 
envolver-lhe o pescoço, apeou-se, viu-me, e 
caminhou para mim num ar decidido e ri- 
sonho: 

— Obrigada, meu amigo! Quanto lhe agra- 
deço! 

Era a Viscondessa. Olhei-a, surpreendi- 
do. Ela continuou, apertando-me a mão en- 
tre as suas: 

— Sabe? Divorciei-me. Você tinha razão. 
Eu estava envelhecendo tanto! 



UMA PAIXÃO 



Os papéis do meu amigo João Monfalim, 
morto há pouco tempo no Waldsanatorium 
de Davos, foram remetidos à família pelo 
honrado dr. Jessen. Li-os, a noite passada. 
Num diário referente aos últimos sete meses 
da sua vida, encontrei esta vibrante página 
de amor, que impressionou a minha sensibi- 
lidade e que, até certo ponto, explica a re- 
cente crise de doença do meu pobre amigo: 

«Nove da noite. Volto a casa depois de a 
ter sentido palpitar, estremecer, como uma 
pequenina ave moribunda, entre os meus 
braços. E' ainda o seu perfume que me en- 
volve, que caminha comigo, que me infiltra, 
que me penetra, que se espalha em redor de 
mim como uma atmosfera de volúpia e de 
mistério. Sinto-a, respiro-a, vejo-a. A sua 
voz canta-me aos ouvidos, os seus beijos 
latejam-me na boca, passam-me diante dos 



202 BSPADAS E ROSAS 

olhos, em faúlhas, em scentelhas, em clarões, 
o âmbar doirado da sua pele, a onda fulva 
dos seus cabelos, as jóias diabólicas das suas 
mãos. Procuro repeli-la, afastá-la do espírito, 
mas a sua figura adorada volta, multiplica- 
se, desdobra-se, transfigura-se, revive em 
cada mulher que passa, em cada boca que 
sorri, em cada sombra que estremece, — é ela 
sempre, é eternamente ela que eu vejo, que 
eu sinto, que eu adivinho, que eu recordo 
numa obsessão, como se na existência inteira, 
no mundo inteiro, não respirasse, não sorrisse, 
não beijasse, não vivesse senão ela. Deixo-me 
cair, extenuado, no Maple do meu gabinete 
de trabalho, e espero que a serenidade volte 
para reconstituir, para analisar as minhas 
emoções. Começaram a embranquecer-me os 
cabelos; a febre da paixão não tem já segre- 
dos para mim: e, entretanto, nunca imaginei 
que a sensualidade pudesse ser tão profunda, 
nunca supuz que no sentimento brutal da 
posse, gérmen confuso de toda a crueldade 
humana, coubesse tanta delicadeza, tanta 
comoção e tanta ternura. Instante de amor, 
vertigem de infinito, como eu abranjo agora 
a tua imensidade! Tudo me parece pálido e 
inexpressivo— afectos, ambições, ódios, gran- 
dezas — perante a força dominadora daquele 
corpo frágil, daquelas mãos tranquilas, daque- 



UMA PAIXÃO 203 

les olhos enormes de criança, em cuja som- 
bra quási roxa dormem todos os êxtases, 
todos os esplendores, todas as melancolias, 
todas as perversidades! E porquê? O que há 
nela, afinal, de absorvente c de perturbador, 

— que encanto ou que mistério a tornam, a 
um tempo, infernal e divina? Pelos meus 
nervos corre ainda muito vivo o arrepio sa- 
grado das suas carícias, para que eu possa 
analisá-la serenamente. Há na sua beleza 
clarões, instantes fugitivos de espiritualidade 
que as palavras, pobre argila espessa e pe- 
sada, são impotentes para expressar e para 
traduzir. Emquanto escrevo, procuro, como 
Hoffmann, com o meu lápis nervoso, dese- 
nhar-lhe o perfil, surpreender a linha do seu 
corpo, a ondulação dos seus movimentos, os 
ritmos da sua marcha, — e acumulo, inutil- 
mente, traços sobre traços, sombras sobre 
sombras. Fecho os olhos para a vêr melhor, 

— e a sua cabeça inolvidável aparece-me, 
como um Botticelli ou um Filippino Lippi, en- 
volvida na onda inquieta dos cabelos, coroan- 
do um pescoço alto de cisne côr de rosa; 
acompanho a linha florentina das suas espá- 
duas, modeladas em pequeninas fossetas de 
sombra doirada e macia ; sigo os seus bra- 
ços olímpicos, feitos para enlaçar, para aper- 
tar, para cingir, braços onde há graças de 



204 ESPADAS E ROSAS 

vôo, delicadezas de arbusto, curvas flexíveis 
de metal; recomponho, uma a uma, as suas 
feições ; a tristeza profunda das suas gran- 
des pálpebras descidas e sulcadas de veias 
azuis; o seu nariz de deusa, recto, imperativo, 
de uma impossibilidade grega, arfando im- 
perceptívelmente as narinas rosadas como 
conchas; a sua boca expressiva até ao exa- 
gero, quâsi ao mesmo tempo irónica, des- 
denhoso, voluptuoso, opoixonada, cruel; vejo, 
numa vaga névoa de rendas, o seu busto 
magnífico, o seu torso onduloso de oréada, 
de dríada perdida espreguiçando-se entre as 
espumas mitológicas de Capréa ; desço aos 
seus pés fortes, aduncos, nervosos, ílexuo- 
sos, pés grandes vinte vezes mais delicados, 
mais expressivos, mais subtis, mais nobres 
do que todos os pés pequenos, — euma im- 
pressão de harmonia suprema, de equilíbrio 
perfeito, de graça musical domino, oo evo- 
cá-lo, todos os meus sentidos, imobilisa-me 
num deslumbramento, como se a estátua 
gloriosamente mia de Giúlia Farnésia sur- 
gisse na penumbra cor de rosa dos meus 
olhos fechados. Quem é ela? O que há, no 
fundo do seu pensamento instável e da sua 
alma ignorada? Que sentimento de curiosi- 
dade intelectual, de perversidade ingénua a 
trouxe desvairadamente, repentinamente paia 



UMA PAIXÃO 205 

mim? Donde veio esta mulher, que encheu 
de súbito a minha existência, como uma fa- 
talidade? Que abominável destino a condu- 
ziu? Que divina loucura resplandece no seu 
olhar? Uma página do livro de Jeanne Mar- 
ni, Comment elles se donnent, passa no meu 
espírito perturbado. O brilho das pérolas, 
que lhe afogavam o pescoço, parece ofus- 
car-me ainda. Tenho a impressão de que as 
suas mãos, como garras, me dilaceram. 
Vejo-a no fundo da carruagem, embrulhada 
na sua cnpa de seda negra, estendendo-me 
uns dedos pálidos onde faíscam jóias, e a 
frase grandiosa de Meyerbeer aparece-me, 
como uma profecia funesta: — «Femme, tu 
prolonges Vart, mais tu raccourcis la me ! » 
Que consciente obra de destruição e de morte 
te fez surgir no meu caminho? Flor de ve- 
neno e de encanto, porque me sorriste tu, 
porque me mataste tu?» 

Não sei, de todo em todo, quem foi a «flor 
de veneno e de encanto» que inspirou esta 
página. Consegui apenas averiguar que se 
chamava Maria Júlia. Dois meses depois de 
a ter escrito, João Monfalim morria nos bra- 
ços do dr. Jessen, repetindo o verso célebre 
de Millevoye: — «Femme pour qui je meurs, 
oous à qui je pardonne . . . » 



HUMOUR 



Uma destas noites, quando eu conversava, 
no grande salão do Avenida Palace, com o 
meu amigo Joe Seymours, a ondulação de um 
vestido branco passou ao fundo, junto das 
vidraças da sala de leitura, e eu confesso 
que, por um momento, a minha atenção des- 
viou-se das considerações interessantes que, 
acerca de pavões e do câmbio sobre Londres, 
me estava fazendo esse inglês ruivo pendu- 
rado num grande cachimbo de barro, — para 
seguir, com a mais portuguesa das curiosi- 
dades, um vulto branco de mulher que se es- 
coava, como uma pequena névoa luminosa, 
entre a* brise-btse de renda. Joe Seymours 
sorriu. Evidentemente, não gostou de que eu 
trocasse por uma futilidade as suas sólidas 
palavras, e disse-me, sorvendo o seu forte 
tabaco de Espanha: 

— Portugueses não teem espírito prático. 

Ri, naturalmente, da observação do meu 



208 ESPADAS E ROSAS 

amigo inglês, já feita há muito tempo por 
toda a gente, e quando lhe perguntei se, por- 
ventura, nunca o tinha distraído o movi- 
mento de uma saia ou a luz de um cabelo 
de mulher, as pálpebras enrrugaram-se-lhe 
numa expressão de benevolência, os seus 
pequenos olhos brilharam, e Joe explicou, 
seco, nítido, exacto : 

— Ingleses não se preocupam com as mu- 
lheres. Ingleses preocupam-se com a sua 
mulher. Ingleses teem espírito prático. 

O criado serviu whisky flip. Uma luz ma- 
cia, doirada, flutuava na sala, escorria pe- 
los Maples, flamejava nos metais. Conversá- 
mos. Foi então que Joe Seymours, falando 
do caracter utilitarista do anglo-saxão, me 
contou, com esse incomparável humour que 
é, como o fair play, uma das características 
do espírito inglês, e que Taine definiu «une 
jooialitè violente enfouie sous un monceau de 
tristesse», certa anecdota que teria dado uma 
scintilante página a Dikens ou a Thackeray, 
a Fielding ou a Wendel Holmes. 

Morreu em Paris um belo dia, sem her- 
deiros forçados, um milionário americano. 
Era um velho gigantesco, extravagante, que 
fora sócio de Géo Perkins, e que o demi- 
monde de Chex Maxirris conhecia pelo «ho- 
mem dos olhos amarelos». Aberto o testa- 



HUMOUR 209 

mento, verificou-se que deixava toda a sua 
fortuna, em partes iguais, aos seus três par- 
ceiros de bridge, — um espanhol, Don Juan 
Carrillo, secretário da embaixada de Espa- 
nha, um francês, Mr. Naudin, de uma em- 
presa construtora de automóveis, e um in- 
glês rígido, fleumático, curiosíssimo, Mr. 
Donaldson, que tinha estado muito tempo na 
Jamaica e que fazia criação de andorinhas 
azuis, — com a condição expressa de que, an- 
tes do saimento fúnebre, cada um dos três 
legatários depositaria no seu caixão cinco 
libras. Que eram cinco libras para os her- 
deiros de uma fortuna tão considerável? A' 
hora própria, correctamente enfiados em sô- 
bre-casacas pretas, os três homens entraram 
na câmara-ardente para cumprir, com es- 
crupulosa pontualidade, aquela singular dis- 
posição testamentária. O espanhol foi o pri- 
meiro. Avançou, grandioso, subiu os degraus 
da éça, cofiou reflexivamente a sua mosca à 
Filipe IV, mostrou aos assistentes cinco li- 
bras em oiro, e depositou-as, com solenida- 
de, junto da cabeça do defunto. Seguiu-se o 
francês. Mr. Naudin, um elegante que usava 
espantosos coletes de veludo como o prín- 
cipe de Kaunitz, olhou em volta, tirou da al- 
gibeira uma caneta e um livro de cheques, 
escreveu com a maior naturalidade do mundo 

14 



210 ESPADAS E ROSAS 

— «cinco libras ao portador» — assinou, do- 
brou, e meteu no caixão aquele cheque a pa- 
gar na Eternidade. Chegou então a vez de 
Mr. Donaldson, o terceiro legatário do «ho- 
mem dos olhos amarelos». Todas as atenções 
se fixaram nele. Em movimentos automáti- 
cos, aquele inglês magro e formalista, que a 
si próprio se considerava o mais prático de 
todos os homens, aproximou-se, tirou do 
caixão as libras de Don Juan Carrillo e o 
cheque de Mr. Naudin, guardou-os na algi- 
beira, abriu o seu livro de cheques, e hirto, 
solene, maquinal, escreveu: — «Quinze libras 
ao portador». Assinou, mostrou a ordem de 
pagamento aos circunstantes, e meteu-a nas 
mãos do defunto. AU rigth! Momentos de- 
pois, o caixão soldava-se. Mr. Donaldson, 
sem ter deixado de cumprir as disposições 
do testamento, — ganhara dez libras. 

— Inglês deve fazer dinheiro de tudo, 
excepto da sua consciência, — comentou Joe 
Seymours. 

Entretanto, a ondularão do vestido bran- 
co, que eu adivinhara através das vidraças 
da sala de leitura, vinha caminhando para 
nós. Era a riquíssima Miss Molly, — loira, 
rosada, transparente, espiritual como o re- 
trato célebre de John Opie — a quem Joe bei- 
jou a mão. 



HUMOUR 211 

— Good nigih ! 

— Good nigth ! 

Joe Seymours olhou-a emquanto ela se 
afastava na atmosfera luminosa da sala, e, 
como me visse sorrir, disse-me, sorvendo o 
seu cachimbo : 

— Inglês não se casa senão com uma mu- 
lher por quem se apaixone. 

E concluiu, impassível : 

— Mas nunca se apaixona senão por uma 
mulher que tenha dinheiro. 



A PAZ 



Não resta a menor dúvida. O meu amigo 
Horácio Pontes, o helenista admirável em 
cuja calva socrática resplandecia a alma da 
velha Grécia, o meu falecido camarada Pontes 
— ressuscitou. Vi-o ontem, vestido de uma 
gabardine impermeável, um coco cinzento no 
alto da cabeça, descer o Chiado e abrir-me 
os braços. Fiquei assombrado. Eu não podia, 
sem cometer uma grave inconveniência, per- 
guntar-lhe se estava vivo. Pareceu-me tam- 
bém de mau gosto, tratando-se de um homem 
que ressuscitou, informar-me da sua saúde. 
Limitei-me a abraçá-lo com efusão, para me 
certificar de que a imagem de Horácio Pontes 
era rial e palpável, e exclamei, para dizer 
alguma coisa : 

— Então o que há da paz? 

— Corre tudo ás mil maravilhas. Estamos 
já a caminho da outra guerra. 



214 ESPADA» E ROSAS 

— Qual guerra? 

Horácio olhou-me, numa expressão entre 
irónica e profunda, e passeando diante da 
Havanesa a sua bengala pomme cVor, com a 
solenidade com que Demósthenes arrastava 
o seu báculo no Pnyx, quiz ter a gentileza 
de me elucidar : 

— O meu amigo sabe que a história se re- 
pete ritmicamente por ciclos de aconteci- 
mentos. Os homens e os factos são sempre 
os mesmos ; só os scenários mudam. E' daí 
que provêm o valor da história como lição. 
Os acontecimentos do passado esclarecem e 
comentam os factos do presente. A história 
é um oráculo. Consulto-a várias vezes, com 
o mesmo supersticioso terror com que um 
grego entrava no templo branco de Delphos. 
Foi o que fiz agora, a propósito dos sucessi- 
vos armistícios e da próxima paz wilsoniana. 
Sabe vocò o que a história me disse? Que às 
lutas da Grande Guerra iam suceder-se fa- 
talmente, necessariamente, as guerras da 
Grande Paz. Ora eu me explico melhor. Há 
uma página da epopeia grega que não recordo 
nunca sem sentir retinir, clangorar aos ou- 
vidos, como uma fanfarra de cobre, os ver- 
sos sonoros de Eschylo. São as guerras nir- 
dicas. O imperialismo persa, o pan-raèdismo 
do v século, na sua marcha de infiltração e 



A PAZ 215 

de conquista para o ocidente — o caminho do 
sol — apossou-se das cidades gregas da Asia- 
Menor, disputou a Athenas a influência no 
mar Egeu e ameaçou a Europa. Quem domi- 
nava então na Pérsia era a dinastia dos Aque- 
ménidas, espécie de Hohenzollern medos dis- 
pondo de um poder militar considerável, de 
exércitos em que se contavam por milhões 
as unidades humanas — psiammokosiogârgara, 
como dizia, sorrindo, Aristóphanes — e por 
milhares as unidades paquidérmicas, colos- 
sais elefantes de batalha, que não eram outra 
coisa senão os tanks animais blindados da 
guerra primitiva. Esses exércitos bárbaros 
massacraram populações, destruíram e in- 
cendiaram cidades, encheram de indignação 
e de terror o mundo grego, e teriam, de- 
certo, irrompido pela Europa e modificado 
profundamente os seus destinos históricos, 
se duas grandes potências militares aliadas, 
uma poderosa no mar — Athenas e as suas 
colónias — , outra poderosa em terra — Sparta 
e a confederação dórica — , não lhes tivessem 
oposto, em nome da liberdade e da civiliza- 
ção, a barreira de bronze das suas armas. O 
Mame de então chamou-se Marathona. Uma 
outra grande batalha — Salamina — restituiu 
a Athenas a supremacia dos mares. As vitó- 
rias de Micália e de Plateia acabaram de ferir 



216 - ESPADAS B ROSAS 

no coração o imperialismo persa, — e os for- 
tes espartanos galeados de cobre, e os elegan- 
tes atenienses coroados de violetas — ioste- 
phanous — conseguiram, pela sua acção coali- 
sada, salvar a Europa, destruir o militarismo 
aqueménida, impor o respeito pelas pequenas 
nações e assegurar o triunfo das democra- 
cias. Fez-se a paz, que não foi de Wilson, — 
mas que foi de Címon. E depois, que suce- 
deu? Que viu o mundo grego, cheio de 
assombro, quando julgava ter conquistado 
definitivamente o direito de depor as armas 
e de gosar tranquilamente uma paz doirada, 
dionisíaca e fecunda? Viu rebentar de novo 
a guerra, — e, desta vez, entre Athenas e 
Sparta, entre os próprios aliados, incapazes 
de entender-se na partilha das vantagens 
que lhes tinham resultado da vitória comum. 
Os problemas da supremacia dos mares, da 
expansão colonial de Athenas, do seu des- 
armamento, das suas zonas de influência 
comercial, tiveram de ser resolvidos pêlo 
ferro, pelo fogo e pelo sangue, usando-se 
dos mesmos processos bárbaros que a alma 
helénica, possuída do sentimento imortal da 
justiça e da humanidade, condenara no mili- 
tarismo persa. A guerra do Peloponeso, essa 
guerra inter-aliados, essa guerra-da-paz, a 
que Seignobos chamou «luta do elefante e da 



À PAZ 21? 

baleia», durou 27 anos, foi uma triste epopeia 
de negociantes e de novos-ricos, e cons- 
titúe a expressão de uma fatalidade histó- 
rica, que tem inexoravelmente de repetir-se 
sempre que um grupo de nações animadas 
de espíritos diversos e de interesses contra- 
ditórios, se coalisa para combater um ini- 
migo poderoso, e o vence pelo esforço guer- 
reiro. Estamos em vésperas de assinar a paz. 
Pois, meu amigo, você verá que, uma vez 
destruído o imperialismo germânico, uma 
nova guerra vai rebentar entre algumas das 
nações que se aliaram para destruí-lo, — e 
não será, decerto, uma surpresa para nin- 
guém, vêr a confederação alemã entrar na 
lutn, colocando-se decisivamente ao lado de 
um dos grupos beligerantes. A questão da 
liberdade dos mares é a scentelha destinada a 
atear a nova conflagração. Gomo consequên- 
cia, uma inversão de hegemonias está pres- 
tes a produzir-se no mundo. Registe o que 
eu lhe digo e espere os acontecimentos. On- 
tem, era a Europa que tinha colónias na 
América ; amanhã será a América que terá 
colónias na Europa. Eis o que me afirmou 
o oráculo de Delphos, quando, entre cipres- 
tes roxos e loureiros sagrados, ao sol da 
Hélade branca, subi as escadas do seu templo. 
Horácio Pontes calou-se. Principiava a 



218 ESPADAS E ROSAS 

animar-se o Chiado. Junto de nós passou 
uma linda mulher, coberta de peles — como 
todas as feras. Quando eu ia responder às 
singulares afirmações que ouvira, o meu fa- 
lecido amigo levantou os braços, saúdou-me 
como o faria um grego elegante da decadên- 
cia — Kaire kai erroso ! — , e desapareceu 
no clarão do poente. 



FREI BONIFÁCIO 



Bonifácio Mendes, casado, de -48 anos. 
curto de entendimento, tronchudo de carnes 
como o escudeiro Sancho, vivia por volta de 
1780 na Azueira, era de sua profissão almo- 
creve, e fazia a recovagem entre Torres 
Vedras e a corte. Um dia, assentado no al- 
bardão mourisco da burra, pensou com Deus 
e comsigo que, se cortasse a direito pela ta- 
pada de Mafra, encurtaria caminho. Obtida 
licença do guardião do convento e do inten- 
dente do paço, Bonifácio Mendes, inundado 
de beatitude e de sol, um barrete verde de 
orelhas enfiado na cabeça, as pernas tortas 
apresilhadas numas polainas de saragoça de 
varas, abriu a cancela, tornou a montar na 
cavalgadura, e, ao chouto dançado das es- 
quilas de cobre, na sesta mais ardente de 
todo aquele agosto pagão, lá meteu, risonho 
e pacífico, pelas brenhas da tapada rial. Não 



220 ESPADAS E ROSAS 

andou muito tempo que não visse, acocora- 
dos em volta de uma toalha branca, numa 
viçosa e copada sombra, três frades meren- 
dando. 

— Salve-os Deus, meus padres! 

Os arrábidos, afogueados da merenda, 
com o chiote remangado a mostrar a polpa 
gadelhuda dos braços, olharam o almocreve, 
cuidaram um instante que o próprio Sileno, 
obeso e coroado de pâmpanos, vinha assistir 
à bacanal daquela tarde doirada, saltaram, 
deitaram mão ao cabresto da azêmola, ro- 
dearam o homem, botaram-no do albardão 
abaixo, meteram-lhe nas mãos uma tarrada 
espumante de vinho novo, e não largaram 
mais o pobre recoveiro da Azueira, que ria 
como uma páscoa, emquanto o não viram per- 
dido de bêbado, a rebolar-se na relva, abra- 
çado à burra, qual de baixo, qual de cima. Mas 
ia caindo a noite, os frades tinham de reco- 
lher para vésperas, e foi preciso decidir 
o que havia de fazer- se ao almocreve', se 
deixá-lo a roncar de borco na terra, com os 
chocalhos ao pescoço e os ceirões de esparto 
às costas, se albergá-lo por caridade no con- 
vento. Venceu o alvitre mais cristão, e em- 
quanto um dos arrábidos conduzia a alimá- 
ria, os outros dois levaram em charola o 
Bonifácio Mendes e deitaram-no em cima de 



FREI BONIFÁCIO 221 

uma manta num dos escanos da portaria. 
Três franciscanos juntos — já o dizia Frei 
Apolinário da Conceição — são a imagem do 
mesmo diabo. Noite andada, depois de mati- 
nas—de que haviam os frades de se lem- 
brar? — foram-se ao almocreve que dormia 
no melhor do seu sono, raparam-lhe a cara, 
abriram-lhe o cercílio com todo o escrúpulo 
da regra na tonsura franciscana, despiram- 
no, descalçaram-no, ataram-lhe umas sandá- 
lias, enfiaram-lhe umas bragas de estopa, 
um hábito de capucho, puzeram-lhe à cinta 
umas camàndulas e uma corda de nós, leva- 
ram-no para a cela de um padre velho que 
saíra a ares, deitaram-no nas cortiças do ca- 
tre, fecharam-lhe a porta, e combinaram os 
três vir acordá-lo na manhã seguinte, antes 
do refeitório, para ver o que faria o triste pa- 
tego da Azueira quando se visse transfor- 
mado em Frei Bonifácio. Se bem foi dito, 
melhor foi feito. Ao outro dia, na volta do 
côro T depois da hora de prima, os três fra- 
des entraram na cela do recoveiro, ferrado 
ainda no sono, cantaram-lhe uma antífona 
aos ouvidos em vozes atroadoras, sacudiram- 
no, varejaram-no, borrifaram-no, — e acaba- 
ram por acordar aquela formidável massa de 
estupidez e de vinho que roncava dentro de 
um chiote de S. Francisco. Bonifácio Men- 



222 ESPADAS E ROSAS 

des assentou-se de repelão, encarou os fra- 
des, esfregou os olhos, palpou-se e sentiu 
a estamenha do hábito, deitou as mãos à 
cabeça e encontrou-a rapada à navalha, sal- 
tou da cama e viu os pés nús abroxados em 
sandálias de frade, desatou a berrar aqui- 
del-rei, a chamar como um possesso pela 
mulher e pela burra, a escabujar em tão for- 
tes gritos, que os padres temeram que o 
escândalo chegasse ao guardião e ao mestre 
de noviços. 

— Mas Vossa Paternidade que tem? — 
perguntavam-lhe os arrábidos, rodeando-o. 

— Qual Paternidade, nem qual diabo! Eu 
sou o recoveiro da Azueira, vou para Loures 
e quero a minha burra! 

— Então Vossa Paternidade não vê que é 
o reverendo vigário do mosteiro? 

— E' que me trocaram emquanto eu dor- 
mia ! Que eu ontem era almocreve, a minha 
mulher é Ana Lourença, e quero já para 
aqui a cavalgadura que me furtaram! 

Dois leigos da cozinha, industriados pe- 
los três frades, assomaram à porta com um 
tacho de assòrda cheirosa, uma infusa de 
vinho e uma escudela de pêcegos de Alco- 
baça. Tão respeitosamente se curvaram diante 
dele, com tanta veneração o serviram, com 
tanta gravidade lhe entregaram um papel 



FREI BONIFÁCIO 223 

dobrado e empastado de obreias, dizendo-lhe 
que era uma carta de Sua Majestade, que o 
bom do almocreve principiou a tomar a parte 
a sério, a sentir-se bera no hábito, a achar 
aquilo uma santa vida regalada de mimos, a 
aceitar quási sem esforço a idea de que se 
metera frade, a ter inclusivamente dúvidas 
><M>re se o recoveiro estremenho que ele 
conhecera era outro ou era ele próprio, — e 
o seu estado de consciência tòrnou-se de tal 
modo confuso que, quando um dos arrábidos, 
perdido de riso, lhe ent regou um breviário 
[•ara o coro, Bonifácio Mendes não ppude 
conter-se que não dissesse: 

— Vossas mercês deixem-me ir primeiro 
à Azueira perguntar à minha mulher quem 
eu sou. Ela conhece-me melhor do que as 
pulgas da minha cama. Se eu não fôr quem 
cuido, bem está; agora se ela disser que sou 
eu, — com o perdão de Vossas Reverências, 
já cá não volto. 

Veio da estrebaria do convento a burra 
do almocreve, que os frades tinham manda- 
do caiar de branco, amantada e arreada de 
atafais velhos, e Bonifácio Mendes, com um 
alforje de franciscano e as avarcas de bezerro 
às costas, lá foi, na raçada do sol, a caminho 
da Azueira, entre os frouxos de riso dos 
três padres. Logo que chegou, por chafur- 



224 ESPADAS I ROSAS 

deiros e barrocas, ao quinteiro viçoso da 
casa onde morava, e viu Ana Lourença, des- 
calça, carnaçuda, com o seu colete de sera- 
fina encarnada e a sua saia curta de esta- 
menha, apanhando da terra a bosta dos bois, 
deitou-se abaixo da cavalgadura e atirou-se 
aos beijos à mulher. Foi o fim do mundo. A 
Lourença, que tinha o coração ao pé da boca 
e era mulher de boas contas em virtude, 
assim que se viu agarrada por um frade, re- 
gaçou de um estadulho, foi-se a êle, deu-lhe 
tanta pancada que lhe esmocou a cabeça, e 
se lho não tiram das mãos ainda o acabava 
com uma foice roçadoura, porque não houve 
convencê-la de que era o marido. 

— E' que não sou eu, — concluiu resigna- 
damente o recoveiro, deitando a alforjada 
às costas e arrepiando caminho para o con- 
vento. 

Bonifácio Mendes chegou a Mafra pela 
noite, convencido de que era, de facto, o re- 
verendo vigário da casa, apresentou-se ao 
prelado, que o recebeu, primeiro com indi- 
gnação, depois com caridade, — e, treze me- 
ses andados, o pobre almocreve tomava, pe- 
rante os frades compungidos, o hábito da 
província da Arrábida, em cuja mortalha 
veio a morrer, trinta anos depois, em cheiro 
de santidade. 



ÍNDICE 



A «blague» de Gil Pompeia 7 

O elogio dos quarenta anos 13 

Como elas andam 19 

O primeiro marido 25 

A Catedral de Amiens 31 

Uma mulher fatal 37 

Ilha dos Amores 43 

O paradoxo do Doutor Marcondes 49 

A mulher e o cão 55 

Os «vicentes» 61 

Dois capacetes 67 

Frank Craig 73 

A arte de ser feliz 79 

Augusto Rosa 85 

As ideas de Fausto Aranha 91 

O rato e o vitral 99 

Os bárbaros 105 

Madre Ana Dorotéa 111 

Um pintor brasileiro 117 

Psicologia da ingratidão 123 

A batalha de Lavantie 129 

O Bispo do Porto 135 

Degenerados 141 

O Paço de Mourousós 147 

Uma rainha 153 

O pintor do Alentejo 161 

Frei Colherão 169 

As quintas-feiras de El-Rei 175 

História duma orelha 181 

A morte de Santa Isabel 187 

As noivas de Matusalêm 195 

Uma paixão 201 

Humour 207 

A Paz 213 

Frei Bonifácio 219 

15 



Raphael Bordallo Pinheiro 

— # — 

DESENHOS ESCOLHIDOS 



POR 



Manuel Gustavo Bordallo Pinheiro 

COM UM ESTUDO DE 

Manoel de Sousa Pinto 



Este esplêndido volume, um dos mais importantes 
da bibliografia artística portuguesa, forma um luxuoso 
álbum impresso em magnifico papel couché e contendo 
a reprodução de noventa das melhores páginas, lito- 
grafias e desenhos, alguns inéditos, do grande mestre, 
carinhosamente seleccionado por seu filho Manuel 
Gustavo Bordallo Pinheiro. 

Precede-o um largo estudo biográfico e critico de 
Manoel de Sousa Pinto, sobre Bordallo e a Ca- 
ricatura, ilustrado com mais de setenta curiosíssimas 
reproduções e dividido nos seguintes capítulos: I. O 
Fundador da dinastia. — II. Primeiras afirmações. — 
III. Do «Calcanhar de Aquiles» ao «Binóculo». — IV. 
Das «Bodas da aldeia» à «Lanterna mágica». — V. 
Bordallo no Brasil. — VI. «O António Maria» e o 
«Alb'um das Glórias». — VII. Dos «Pontos nos ii» à 
«Paródia». 

1 volume da VA páginas, in-8.° graiue, com \U gravuras 

PEDIDOS DESTA OBRA: 

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Conversar (Sobre Amores, 
Ironias, Viagens). 
Camará Lima 

Beco do Fala- Só. 
Carlos Malheiro Dias 

A Esperança e a Morte. 
Celso Vieira 

O Semeador. 
Iracema 

Cartas de Mulher. 
Jofio do Rio 

Rosário de Illusôes. 
Justino de Montalvão 

Na Luz d'Oiro do Brasil. 

A Mulher a<$Aía*cara. 
Manoel da Silva Gaio 

De Roma e suas conquistas 
Panlo de Uardonia 

Letícia. 
Samuel Maia 

Sexo Forte.